2 de setembro de 2009

Out with the old, in with the phew

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I see dead media

O choro e ranger de dentes sobre a morte das velhas mídias não me comove muito –aposto, aliás, que, no dia em que inventaram o tambor, a Associação Neandertal dos Sinais de Fumaça promoveu uma manifestação de protesto contra o fim da nobre arte da baforada semiótica. Admitidamente passadista, mesmo assim nunca resisti muito à transição de mídia para mídia, forma para forma. Eu costumava comprar dezenas de CDs, mas outro dia estava tentando lembrar de minha última compra de música em formato físico e acho que foi lá por volta de março de 2008. Nem é que eu seja maria-vai-com-as-outras ou pão-duro; entre outras coisas, a decadência dos CDs –as usual- estourou do lado mais fraco, e o tipo de disco que eu mais gostava de comprar (box sets de jazz ou coisa que o valha) está desaparecendo do mercado, ou, em certos casos, acervos inteiros foram transferidos a gravadoras menores, especializadas, que não distribuem produtos para lojas –e, se é pra comprar do site, melhor economizar o frete e a espera.

Mas também acho meio escrotinho essa alegria meio perversa de uns e outros quanto ao colapso da grande mídia, e especialmente dos grandes jornais e revistas. É ingenuidade, picaretagem ou burrice supor que blogs e mídia social servirão mesmo como substitutos para os jornais cuja extinção parece ser causa de entusiasmo. Os jornais demoraram 200 anos para chegar aos padrões razoáveis de competência e ética que ao menos os melhores dentre eles praticam. E talento requer estrutura, e custa caro. Aos blogs noticiosos, mesmo os melhores, falta controle de qualidade. Não é que os jornais sejam infalíveis –longe disso, como todo mundo sabe. Mas se Jayson Blair tivesse um blog pessoal, em lugar de trabalhar para o New York Times, quem é que teria flagrado as trapaças que ele costumava cometer, e feito o mea culpa e as correções requeridos? E isso sem esquecer as questões óbvias de conflito de interesses, que as velhas mídias aprenderam a patrulhar e administrar mas passam sem qualquer controle nos blogs. (Uma pessoa que tenha tempo para cobrir um determinado tópico com a mesma dedicação que um repórter demonstraria trabalha por que, por amor? Mesmo que não haja dinheiro circulando, como avaliar a objetividade de um sujeito que trabalha por amor, ou obsessão? Não que jornalistas e jornais sejam impecavelmente objetivos, mas pelo menos existem checks and balances. Na Web, pfui: todo mundo é marromenos trekkie.)

Existe também a falácia de que esse tal (deus perdoe) “jornalismo cidadão” via Web vá de fato substituir as velhas mídias. As melhores empreitadas desse ramo vivem em simbiose com as mídias tradicionais, e com os recursos estabelecidos de news gathering. Os bons blogs jornalísticos ou noticiosos complementam, corrigem, confrontam ou analisam o que a velha mídia arremessa. Sem elas, o que existiria seria uma espécie de caixa gigante de comentários de blog povoada por malas como os que costumo ler de vez em quando nas boas casas do ramo aqui na vizinhança. Not pretty. E imaginar que uma moda talvez passageira como o Twitter venha a ser revolução na notícia, putz. O máximo que o Twitter faz é remeter os usuários a notícias de tamanho decente publicadas alhures. Velocidade não quer dizer qualidade. (E esses trecos sociais como o Twitter, Facebook e Wikipédia já esbarraram em número suficientemente embaraçoso de incidentes do tipo “the news of my death have been greatly exaggerated”). Todo mundo está cansado de saber os defeitos das velhas mídias –e isso é bom motivo para persistir um pouquinho mais em acompanhá-las, porque de muitos defeitos das mídias novas a gente ainda nem desconfia.

26 de agosto de 2009

Tortura dá a maior gastura

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Bono vinci satius est quam almo more iniuriam vincere

Na Grande História Universal das Falácias, um dos meus capítulos preferidos é aquele que dispõe que da discussão nasce a luz. Porque, ó, a maior parte dos debates sobre causas e questões que decido acompanhar leva jeito de discussão territorial entre babuínos para determinar quem bate mais no peito, quem arreganha mais os dentes, quem grunhe mais alto –uma espécie de much ado vem fazer glu glu, para mencionar dois crássicos em uma mesma sentença.

Bom exemplo é o suposto debate sobre usos e abusos da tortura que os americanos vêm requentando ciclicamente nos últimos meses: nem o mais privilegiado dos célebros adquiriria uma gotícula de informação útil em meio ao brouhaha. (Em nome da honestidade, melhor declarar desde já que eu desaprovo o uso da tortura, sob quaisquer circunstâncias, por conta do mais manjado dos dilemas morais: se você precisa recorrer aos mesmos métodos vis que o seu inimigo emprega, está abandonando a superioridade moral com relação a ele. E no imenso e indistinto mundo da farinha-do-mesmo-saco, torturar prisioneiros aqui e bombardear inocentes acolá vão ficando cada vez mais parecidos.)

O debate recente sobre tortura deixou de lado o aspecto moral, craro: ninguém quer arcar com o fardo de defender o indefensável, e fica muito mais prático jogar a carta da realpolitik: nós “precisamos” da tortura, porque usá-la permite salvar vidas inocentes. (Tem cretininho de direita que chega ao píncaro retórico de declarar que o uso de tortura pela CIA permitiu salvar “milhões” de vidas.) E aí entra a parte mais irritante do imbroglio: se o debate está girando em torno de resultados práticos e não de considerações morais, o próximo passo seria, então, tentar chegar a um cômputo de custo/benefício –que ataques exatamente foram revelados e impedidos pelo recurso à tortura, e mais, que ataques revelados pela tortura não poderiam ter sido revelados por outros métodos menos repulsivos.

Nem preciso dizer que essa parte do, er, debate –a única que teria algum resquício de utilidade- jamais acontece, porque um dos lados alega que não se pode revelar os ataques que a tortura ajudou a impedir, já que sigilo é necessário, e o outro não se interessa por discutir os aspectos pragmáticos da tortura, porque no fundo suas objeções à prática são morais, mas ninguém tem coragem de assumir e arcar com as acusações de ingenuidade diante da vileza inimiga ou de falta de patriotismo másculo e determinação de, er, colocar as mãos na miércoles. A única coisa que aprendi acompanhando essa bobáj foi que, yo, ler 18 meses de rants cretinos sobre tortura é o equivalente intelectual de passar por waterboarding (e desperta uma preocupante vontade de submeter os participantes mais escandalosos da discussão aos métodos que eles discutem com repulsiva parcialidade).

21 de agosto de 2009

Animais

Se Keith Moon e Elvin Jones tivessem um filho…

Loudon Wainwright III hoje em dia é mais conhecido como pai de Rufus e Martha, mas, er, mora no meu coração por essa singela ode a um gambá falecido, gravada em 1972.

Big Joe Turner & Pete Johnson meet Jerry Leiber e Mike Stoller, e o resultado não é canja, não (ho. ho. ho). Turner costuma estar entre os usual suspects na lista de criadores do rock, mas sua música é muito maior que isso (e o parceiro Pete Johnson é um dos gigantes do boogie-woogie, e um dos poucos pianistas lendários da catigoria que se saía bem também no acompanhamento).

Um dos meus sonhos irrealizados é convencer Clarence Frogman Henry a gravar uma versão do clássico “O Sapo Não Lava o Pé”. Enquanto não consigo, vai aí “Ain’t Got No Home”, primeira parte de uma longa saga sobre a complexa vida amorosa dos batráquios.

A versão original de “Spider and the Fly” é de 1965, mas se você não tem medo de rugas, nesse vídeo de 1995 Uncle Mick atualiza a letra – e “she said she liked the way I held the microphone” continua a ser um dos versos mais Wynonie Harris da história do rock.

19 de agosto de 2009

Ils ne passeront… Tant pis

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Oswald Boelcke em seu Fokker E1, 1915

Do Wipers Times, jornal satírico do exército britânico, 1916:

Prova de que estamos vencendo a guerra, por Belary Helloc

Neste artigo pretendo demonstrar claramente que, sob as condições existentes, tudo indica uma rápida desintegração do inimigo. Consideremos primeiro o efeito da guerra sobre a população masculina da Alemanha. Para começar, tomemos o número de 12 milhões como população combatente total da Alemanha. Deles, oito milhões já morreram ou estão sendo mortos, o que significa que restam quatro milhões. Destes, um milhão são não combatentes, porque servem na marinha.

Dos três milhões restantes, podemos desconsiderar 2,5 milhões por terem temperamento inadequado ao combate devido à obesidade e outras moléstias engendradas por um modo de vida repulsivo. Isso deixa um efetivo pleno de 500 mil. Destes, se sabe que 497.250 estão sofrendo de doenças incuráveis. Restam 2.750. Deles, 2,150 combatem na frente oriental e, dos 600 restantes, 584 são generais e seus estados-maiores.

Assim, constatamos que há 16 soldados na frente ocidental. E afirmo que esse número não bastará para lhes dar a chance de resistir a mais quatro grandes campanhas, o que indica o colapso inimigo no oeste.

Conselhos do aviador Oswald Boelcke, o maior dos pilotos alemães da primeira guerra, sobre como lidar com jornalistas:

Defesa do Aviador Contra Enxeridos Perguntalhões

POR FAVOR!!! Não me pergunte nada sobre voar. As perguntas mais comuns estão respondidas abaixo: Às vezes é perigoso, às vezes não é. Sim, quanto mais alto voamos, mais frio. Sim, percebemos o fato porque congelamos quando esfria. Altitude de voo: 1,5 mil a dois mil metros. Sim, conseguimos enxergar as coisas dessa altitude, mas não tão bem quanto a 100 metros. Não conseguimos ver bem com um telescópio porque ele sacode. Sim, lançamos bombas. Sim, uma velha senhora supostamente foi ferida, e causamos susto a algumas colunas de transporte. O observador senta na frente e consegue enxergar quando acertamos. Não podemos falar um com o outro porque o motor faz barulho demais. Não temos telefone no aparelho, mas temos luz elétrica. Não, não moramos em uma caverna…

E o magnífico artigo 246 do tratado de Versalhes, que dispõe sobre reparações de guerra, entre as quais:

“Dentro do mesmo prazo a Alemanha entregará ao governo de Sua Majestade Britânica o crânio do sultão Mkwawa, removido do Protetorado da África Oriental Alemã e transportado à Alemanha”.

Ernie Mayne (1871-1937) cantando “Lloyd George’s Beer“, uma, er, canção de protesto contra a cerveja aguada decretada pelo primeiro-ministro britânico, 1917.

17 de agosto de 2009

Trabaia, branco!

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If a train station is where the train stops, what’s a workstation?

O New York Times de hoje traz um artigo longo e meio chatinho sobre empresas de, er, “gestão de carreira” ou “marketing de carreira” que arrancam dinheiro grosso dos desempregados, prometem mundos e fundos e não fazem nada pelo sujeito que ele não pudesse conseguir de graça na biblioteca mais próxima de sua casa. É uma consequência inevitável de qualquer calamidade: quando a cidade inunda, aumenta o preço da boia (e muito picareta começa a vender tijolo jurando que funciona como salva-vidas).

Uma das vítimas cujas histórias o artigo relata conta que terminou enredado pela BCS, uma dessas empresas, porque clicou em um anúncio que oferecia emprego com salário anual de US$ 100 mil, e só depois de clicar e fornecer dados pessoais etc. foi informado de que o anúncio não se referia a uma vaga, mas sim a uma empresa que presta serviços de recolocação. E aí a história começou a me incomodar um pouco: dude, se você clica em um anúncio que propõe comprar seu carro velho mesmo alienado e descobre que na verdade o objetivo é te vender um Lada 1989 por 10 mil reais, o que você faz? Corre –como eu ou qualquer outra pessoa sensata correria. Já o consumidor, er, lesado em questão decidiu pagar US$ 5 mil para a empresa, porque segundo ele a vendedora prometeu acesso “a um mercado de emprego oculto”. Mas exatamente onde se esconde esse mercado? Por baixo de uma cabine telefônica em um prédio de escritórios em Washington?

O artigo explica que esse tipo de firrrma concentra suas atenções em executivos desempregados, e que parte essencial da promessa intrínseca que fazem é a oferta de uma, er, porta dos fundos para vagas bacanas e menos disputadas. Em resumo, o que essas empresas prometem, descontados os circunlóquios, é vender um emprego pro cidadão que disponha de dinheiro para comprá-lo –porque só esse entendimento da barganha explica que alguém se disponha a pagar US$ 8 mil à vista pelo mais imaterial dos serviços (como aconteceu a outro dos otá…, digo, usuários mencionados). Em suma, dispor de alguns milhares de dólares propiciaria aos compradores o acesso a empregos que não estariam disponíveis para pessoas desprovidas dessa quantia –competência, talento, ética e honestidade, pfui.

Eu já fiquei desempregado e sei muito bem que a situação é dolorosa, e de mais de uma maneira. Não acho que os caras que terminam desempregados tenham (todos) perdido o emprego porque de alguma forma mereçam. Mas se eu fosse dono de uma empresa (e, opa, eu sou dono de uma empresa) não contrataria nem a pau um executivo que a. está disposto a comprar um emprego; b. está disposto a pagar milhares de dólares à vista por serviços que não tem garantia alguma de receber; e c., acredita em anúncio da catigoria “ministro zimbabuano procura ajuda para esconder dinheiro roubado”. Se o sujeito gerencia assim a vida dele, imagina o que faria com o meu dinheiro. Melhor guardar o violino, New York Times.

14 de agosto de 2009

Sisters

I was rich, beautiful, smart, and could sing a little; with no drugs, what would I bitch about?”

Carolyn Franklin (1944-1988), irmã caçula de Aretha e cantora quase tão boa, compôs alguns dos maiores sucessos da, er, rainha do soul (nesse vídeo horrível, as duas aparecem ensaiando “Ain’t No Way”). A irmã mais velha, Erma (1939-2002), também era boa cantora (fez a primeira gravação de “Take Another Little Piece of My Heart”, canção posteriormente arruinada por Janis Joplin). Aqui, em disco esquisito pela RCA, Carolyn apresenta a versão funk de “num gostô? Vai reclamar pro bispo”.

Mable John, irmã de Little Willie John, foi a primeira cantora contratada pela Tamla-Motown (ela era secretária da mãe de Berry Gordy em uma seguradora). Depois de deixar a carreira de lead singer, ela se tornou diretora musical e arranjadora das Raelettes, as cantoras de Ray Charles. Nessa faixa, ela conta com o acompanhamento das Supremes (ainda em versão quarteto) e da guitarra de Marv Tarplin.

Inez Foxx, irmã de Charlie Foxx, fez sucesso em dupla com ele nos anos 60, vide “Mockingbird”, mas as melhores gravações de sua carreira viriam na primeira metade dos anos 70. Ela compôs “Crossing Over the Bridge” com Sir Mack Rice, o autor de “Mustang Sally”. Na gravação, de 1973, o arranjo é do saxofonista James Mitchell, e Skip Pitts responde pela guitarra.

13 de agosto de 2009

Lester William Polfuss, aka Les Paul, 1915-2009

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(Desenho que acompanhou o pedido de patente da Gibson Les Paul, em 1951)

For an epic guitar, a thousand licks and some lovely monday nights: thank you.

31 de julho de 2009

You mess with da bull, you get da horns

P-Funk live, com Glen Goins (1954-1978) e Michael Hampton (de fralda)

Eddy G Giles gravou essa pérola com o seu Jive Five pela Southern em 1966, e regravou em 1971 pela Stax, with a very tricky bass line by Louis Villery (que também acompanhava Johnnie Taylor, mais um cantor que migrou de Shreveport e da Jewel/Paula ou Southern para Memphis e a Stax/Volt, na mesma época).

O pressago John KaSandra oferece importantes conselhos capilo-políticos em (“What’s Under) The Natural Do”, admoestando, em tradução livre tomada de empréstimo a Torquato Neto, que “mixagem alta não salva burrice”.

William Shack, que gravou dois ou três compactos por seis ou sete gravadoras, explica direitinho porque é bom tomar cuidado mas é melhor ser amado. Não encontrei a ficha técnica, mas o estilo do trompete e do arranjo é a cara de Ben Cauley, do Bar-Kays e depois da banda de Isaac Hayes.

27 de julho de 2009

Outside of a dog

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(Cortesia de Jill Freedman, uma das minhas fotógrafas prediletas)

Richard Price faz 60 anos em outubro, e decidi reler os sete romances dele em ordem cronológica (e aproveitar para ler os dois que ainda não tinha lido) porque achei que tivesse chegado a hora de rever e revisar minha, er, relação de amor e ódio com ele. But the thing is, não é exatamente amor e ódio, e sim “admiração” (ou inveja) e “indiferença” (ou tédio). Tanto diante dos romances quanto dos roteiros*, minha reação sempre foi um “meu, esse Price escreve pra (expletivo genital)”, mas nunca “meu, esse livro (ou filme) é do (expletivo genital)”.

Bom, leitura e releitura não me fizeram mudar muito de opinião. Price continua depurando a precisão compassiva, ou ternura impiedosa, que caracteriza seus livros desde “The Wanderers”; e ainda é capaz de carregar uma cena difícil só no diálogo -e, aliás, em diálogos miraculosos, que respeitam completamente os cacoetes dos personagens e ao mesmo tempo conseguem expressar moralidades complicadas por meio de vocabulário e modo de expressão obtuso, ou patois tribal. (Price tem ouvido maravilhoso para clichês, e um talento maravilhoso para expressar originalidade via clichê –como se os personagens estivessem dizendo o óbvio mas também muito mais que o óbvio, ou como uma conversa com aquele amigo supostamente burro que você de repente descobre ser muito menos burro do que seu modo de falar indica.)

Plus, ele é muito engraçado, em pessoa e na escrita. Uma amostra divertida pode ser encontrada nesse vídeo curtinho em que ele fala sobre o roteiro do curta que escreveu para “Bad”, de Michael Jackson –“You know, everybody was great and the thing, in the end, was not”. Em resumo, a admiração e a inveja continuam, mas ao menos pro meu gosto Price até agora não escreveu um grande livro. Pena, porque ele talvez seja o único sujeito capaz de encarnar meu escritor ideal: um Tom Wolfe da Mooca.

E porque eu aproveito qualquer pretexto para falar de livros, recomendo também “Krieg ohne Heer”, de Eduard Fischer, um excelente relato da defesa (e reconquista) da Bucovina por meia dúzia de judeus malucos liderados pelo coronel Fischer, comandante da gendarmeria imperial austro-húngara na província, em 1914. Por conta da história violenta do século passado, não sobraram na ponta oriental da Europa os paisecos pitorescos que existem do lado oposto. Se eu pudesse escolher uma Andorra ou Luxemburgo para a Europa Oriental, o short list seria Bucovina, Rutênia e Masúria –land of the freak, home of the female moustache.

(E mais duas rapidinhas: “One Bullet Away”, de Nathaniel Fick, autor que os espectadores e leitores de “Generation Kill” vão reconhecer, serve como prova de que um dos mais tenebrosos dos oximoros, “patriotismo inteligente”, de vez em quando procede; e “Born Standing Up”, as memórias de Steve Martin sobre seu começo de carreira como stand-up comic, a um só tempo sequíssimas, precisas, engraçadas e doces.)

* Abro exceção para os episódios que ele escreveu em “The Wire”, especialmente “All Due Respect” e “Moral Midgetry”, na temporada 3, dois dos melhores na melhor temporada da melhor série de TV a que eu já assisti.

24 de julho de 2009

Little By Little

Ms. Hepburn*, como Eliza Doolittle, em “Wouldn’t it Be Loverly

Little Willie John gravou “Fever”, de Eddie Cooley e Otis Blackwell (também autor de “Great Balls of Fire” e “All Shook Up”), em 1956, pela King, uma das grandes gravadoras de blues dos anos 50 e 60. Se vocês só ouviram em versão honky, cliquem aí.

Aaron “Little Sonny” Willis adotou o apelido como homenagem a Sonny Boy Williamson, e mesmo quem não goste muito de gaita, like yours truly, deve encontrar o que apreciar na homenagem que ele presta a Dona Increnca (por exemplo, a guitarra de Cornell Dupree, um dos meus herois, quase inaudível por sob os metais no canal direito).

Little Milton, titular de um dos mais notáveis bigodes e topetes da história do blues, prometeu casa, comida e dois merréis por mês a uma ingrata qualquer em “That’s What Love Will Make You Do”, de 1971, com Jerry Jemmott no baixo. A ingrata disse não.

* Com ela mesma e não Marni Nixon nos vocais. Aliás, o destino da Marni Nixon parece ter sido o de dublar mulé que eu amo -Natalie Wood, em “West Side Story”, também.