I see dead media
O choro e ranger de dentes sobre a morte das velhas mídias não me comove muito –aposto, aliás, que, no dia em que inventaram o tambor, a Associação Neandertal dos Sinais de Fumaça promoveu uma manifestação de protesto contra o fim da nobre arte da baforada semiótica. Admitidamente passadista, mesmo assim nunca resisti muito à transição de mídia para mídia, forma para forma. Eu costumava comprar dezenas de CDs, mas outro dia estava tentando lembrar de minha última compra de música em formato físico e acho que foi lá por volta de março de 2008. Nem é que eu seja maria-vai-com-as-outras ou pão-duro; entre outras coisas, a decadência dos CDs –as usual- estourou do lado mais fraco, e o tipo de disco que eu mais gostava de comprar (box sets de jazz ou coisa que o valha) está desaparecendo do mercado, ou, em certos casos, acervos inteiros foram transferidos a gravadoras menores, especializadas, que não distribuem produtos para lojas –e, se é pra comprar do site, melhor economizar o frete e a espera.
Mas também acho meio escrotinho essa alegria meio perversa de uns e outros quanto ao colapso da grande mídia, e especialmente dos grandes jornais e revistas. É ingenuidade, picaretagem ou burrice supor que blogs e mídia social servirão mesmo como substitutos para os jornais cuja extinção parece ser causa de entusiasmo. Os jornais demoraram 200 anos para chegar aos padrões razoáveis de competência e ética que ao menos os melhores dentre eles praticam. E talento requer estrutura, e custa caro. Aos blogs noticiosos, mesmo os melhores, falta controle de qualidade. Não é que os jornais sejam infalíveis –longe disso, como todo mundo sabe. Mas se Jayson Blair tivesse um blog pessoal, em lugar de trabalhar para o New York Times, quem é que teria flagrado as trapaças que ele costumava cometer, e feito o mea culpa e as correções requeridos? E isso sem esquecer as questões óbvias de conflito de interesses, que as velhas mídias aprenderam a patrulhar e administrar mas passam sem qualquer controle nos blogs. (Uma pessoa que tenha tempo para cobrir um determinado tópico com a mesma dedicação que um repórter demonstraria trabalha por que, por amor? Mesmo que não haja dinheiro circulando, como avaliar a objetividade de um sujeito que trabalha por amor, ou obsessão? Não que jornalistas e jornais sejam impecavelmente objetivos, mas pelo menos existem checks and balances. Na Web, pfui: todo mundo é marromenos trekkie.)
Existe também a falácia de que esse tal (deus perdoe) “jornalismo cidadão” via Web vá de fato substituir as velhas mídias. As melhores empreitadas desse ramo vivem em simbiose com as mídias tradicionais, e com os recursos estabelecidos de news gathering. Os bons blogs jornalísticos ou noticiosos complementam, corrigem, confrontam ou analisam o que a velha mídia arremessa. Sem elas, o que existiria seria uma espécie de caixa gigante de comentários de blog povoada por malas como os que costumo ler de vez em quando nas boas casas do ramo aqui na vizinhança. Not pretty. E imaginar que uma moda talvez passageira como o Twitter venha a ser revolução na notícia, putz. O máximo que o Twitter faz é remeter os usuários a notícias de tamanho decente publicadas alhures. Velocidade não quer dizer qualidade. (E esses trecos sociais como o Twitter, Facebook e Wikipédia já esbarraram em número suficientemente embaraçoso de incidentes do tipo “the news of my death have been greatly exaggerated”). Todo mundo está cansado de saber os defeitos das velhas mídias –e isso é bom motivo para persistir um pouquinho mais em acompanhá-las, porque de muitos defeitos das mídias novas a gente ainda nem desconfia.

