Malice in Wasteland
“When I use a word, it means just what I chose it to mean”
The hype was overwhelming
The budget, mega-bucks
Should he be trying that again?
‘Twould mean pushing his luck. S
o here’s the best summation:
Tim Burton always sucks
Quem mexeu no segredo do meu queijo
“He who understands the doctrine of self-help blames himself for failure”
Nunca li um livro de autoajuda. Não é gabolice, se bem “nunca assisti a um show de axé nem por acaso”, “nunca tive um disco do Genesis” e “nunca participei de campanha política não remunerada” constem da minha lista secreta de modestas vitórias pessoais. Autoajuda nem me parece um conceito absurdo –afinal, das diversas coisas em que sou autodidata, proporção considerável foi na verdade aprendida com a ajuda (nem sempre reconhecida) de livros, revistas, Internet. Não considero absurdo que o cidadão recorra a esse tipo de assistência para resolver problemas em áreas mais nhé: se o sujeito é patologicamente tímido ou desprovido de quaisquer rudimentos de acuidade psicológica, um livro que o aconselhe sobre como se relacionar melhor com os outros, por muito idiota que pareça às pessoas mais desenvoltas e confiantes, certamente vale os 30 mangos (um bom paralelo, para quem é músico, são aqueles manuais bem simplórios que ensinam o usuário a montar acorde de Lá maior no violão: depois que você aprendeu, sempre parece ligeiramente absurdo que os reles mortais desconheçam coisa tão simples).
Escritor de livro de autoajuda em geral tem cara de picareta, granted; e eles tendem a pronunciamentos a um só tempo untuosos e vazios –mas se isso fosse causa de desqualificação, praticamente toda comunicação empresarial e política do planeta levaria cartão vermelho. Parecer bonzinho sem fazer ou revelar muito é o non plus ultra do discurso público moderno, afinal. Assim, sempre soa meio ingênuo, ou über cínico, acusar guru de autoajuda de picaretagem. (Em entrevista recente de Paulo Coelho ao Financial Times, o bestalhão escalado pelo jornal para a tarefa afirma que a ideia central dos livros do, er, Mago é a de que qualquer pessoa tem a capacidade de mudar a própria vida; o entrevistador cutuca perguntando como é que um operário de 40 anos de idade e pai de três filhos poderia mudar de vida; Coelho responde citando o vestido de cortina de Scarlett O’Hara, e logo depois vai embora correndo; resta a ligeira impressão de que o entrevistador saiu do almoço achando que tinha sido esperto, colocado o charlatão na parede. Mas nem: muita gente está disposta a gastar 30 mangos para ler alguma coisa que estimule um pouco a confiança, mesmo sem acreditar 200% que aquela enxurrada de lugares-comuns vai realmente ajudar o sujeito a mudar de vida; um bom análogo é jogar na loteria toda semana apesar da improbabilidade de vitória: custa pouco, afinal, e que mal faz?)
Mas se bem eu não acredite que os gurus de autoajuda cheiram a enxofre, o fato de que os leitores transformem livros do gênero “O Segredo” ou “The Rules” em bestsellers continua a parecer bizarro. (E o mesmo vale para aqueles aparelhos mágicos de ginástica vendidos com lemas do tipo “bastam 10 minutos por dia!!!”). O gancho psicológico é explorar a combinação entre a falta de autocrítica (“Ah ha! Só não faço sucesso porque não sei o segredo!”) e a ingenuidade (“mas com esse livro tudo mudará!”) do potencial leitor. Sujeito que acredita nisso não custaria muito a acreditar que “é tudo culpa dos [insira sua minoria hedionda favorita]”. Um amigo editor contra-argumenta que existe prova empírica para a eficácia de “O Segredo”, já que a autora notoriamente analfabeta ficou milionária com o livro. (E temos pelo menos mais um exemplo de alguém cuja vida foi salva pela obra.) Mas todo mundo que diz a sério ter sido beneficiado por esse tipo de livro me parece perfeitamente capaz de acreditar no ET de Varginha, no “Protocolo dos Sábios do Sião” e na virgindade da Britney. E ao que parece isso me força, mesmo sem ler livro de autoajuda, a reconhecer uma distinção de classe em meio ao miasma nauseabundo que eles emitem: se bem eu continue disposto a tolerar autoajuda do tipo “transforme sua cortina em felicidade, Scarlett”, sempre desconfiarei muito dos títulos que ensinam que o melhor jeito de fazer coxinha é popotizar o fângo.
Cada um cas suas tara
“But O that I were young again and held her in my arms!”
Uma amiga se queixou outro dia de que tinha tentado puxar papo sobre o protesto de exilados cubanos contra o apoio de Lula ao regime da famiglia Castro e que ninguém tinha dado bola, tanto no bar quanto online. E resmungou: “Se eu tivesse puxado conversa sobre sexo, todo mundo teria participado”.
Eu mesmo gosto muito pouco do PT e nada do regime cubano; Lula sempre parece especialmente cretino ao falar de relações internacionais, e seu apoio a expoentes da democracia como o Sr. Ahmadinejad e os irmãos Castro é especialmente azedo em ano no qual a candidata à presidência pelo partido dele certamente vai bater na tecla do “fui torturada pela ditadura” (tortura só num presta se praticada pela direita, aparentemente). Mas tendo a concordar com os companheiros de mesa da amiga retromencionada: muito mais divertido falar de sexo.
(Não só eu, aliás. Pouco antes de morrer, em 1939, ano um tantinho complicado, Uncle W. B. escreveu “”Politics”:
“How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?”)
Quando as pessoas escolhem falar sobre sexo (ou futebol; ou os vestidos do Oscar) de preferência a falar sobre política (ou aquecimento global; ou a reforma da saúde) é comum que surjam acusações explícitas ou implícitas de leviandade. Mas o fato é que muito mais gente faz (ou gostaria de fazer) sexo do que política, e isso é prova de sensatez, não leviandade: política é uma perversão altamente especializada, e em geral muito, muito chata. E, em ocasiões sociais, o assunto tenderá ao denominador comum, qualquer que seja. Em uma mesa com 10 pessoas, duas talvez se interessem por política; as outras terminarão por emitir opiniões perfunctórias ou por falar bobáj (e os dois interessados em política, claro, fulminarão imediatamente os pobrecitos pela ousadia) –e esse é o best case scenario.
Se as 10 pessoas realmente gostarem de política, ou bem elas todas concordarão entre si, e a conversa logo vai se tornar um tedioso festival de assentimento (“apoiado, camarada Agenor!”), ou bem haverá duas alas fortemente antagônicas e a coisa desandará para resultado não muito diferente de uma discussão sobre futebol entre dois grupos de torcedores rivais –se bem que provavelmente com muito menos senso de humor. Não é que discutir política seja, er, inútil: mas decerto não é agradável, ou pelo menos raramente o foi, na minha experiência. (E as conversas políticas que me divertiram em geral envolvem pessoas consideravelmente cínicas que descem a lenha em todos os partidos, mais ou menos como eu faço em meus silenciosos monólogos de banheira sobre o assunto.)
Por algum motivo incompreensível persiste a ladainha de que as pessoas precisam se conscientizar, sobre seja lá o que for; e os sujeitos que usam o termo “conscientizar” de modo hediondamente despudorado em geral querem dizer, com isso, que as pessoas precisam concordar com a opinião deles sobre uma causa qualquer que lhes seja cara; quando Al Gore me “conscientiza” sobre o aquecimento global na verdade quer que eu aceite como verdade irrefutável a visão catastrofista que lhe serve de plataforma. A questão é muito mais complicada do que ele pinta, mas nenhum ativista deseja que suas vítimas se conscientizem tanto assim. E nenhum cidadão comum tem tempo para se dedicar com afinco às 20 mil causas sobre as quais precisaria se, er, conscientizar para levar uma vida cívica respeitável. Trabalho 55 ou 60 horas por semana, e no resto do meu tempo prefiro me informar sobre as muitas coisas que me interessam bem mais que as grandes causas do dia; uma vez mais, isso é sensatez, não leviandade. E quando enfim chego ao bar, é claro que prefiro conversar sobre sexo –porque, se alguma coisa tem de ser fodida, melhor que não seja a minha paciência.
Mistérios
“… that every human creature is constituted to be that profound secret and mystery to every other.”
Em brasileiro, é muito mais comum o uso de “desvendar um mistério” que o de “desvelar um mistério” –um aparente caso de triunfo do costume sobre a precisão, porque afinal o mistério está velado, e não vendado –ou seja, não é o mistério que está tentando enxergar o mano, e sim o oposto; mas nesse caso há muito de preciso no impreciso, já que o observador não desvenda o mistério: desvenda a si mesmo.
“Mistério” e “misticismo” compartilham origem distante no verbo grego myein, fechar (outra palavra da família é “miopia”, que vem do grego pra “zóinho fechado”, e aponta para elo que eu nem tinha percebido entre o meu apreço por mulher misteriosa e o meu apreço por mulher de óclinhos). Todas essas coisas têm em comum a, er, misteriosa compulsão humana por desvelar o encoberto, enxergar o invisível, abrir aquilo que está fechado. Especulações metafísicas, pesquisas científicas, ler Agatha Christie, espiar embaixo da burca, e ficar apaixonado: empreitadas humanas bastante dispares, que têm em comum a compulsão do mistério.
Todo mundo contempla o mistério com certas expectativas, especialmente a de que, er, tudo seja revelado em dado momento; é a recompensa psicológica esperada por aqueles que sofrem as agonias, ou, vá lá, amenos incômodos do não-saber-ainda. Um escritor de mistério que não revele quem afinal vendeu os planos secretos ao inimigo, ou onde o tesouro perdido está enterrado, ou quem tem medo de Virginia Woolf, dificilmente se tornará bestseller; e um misterioso paquera de Internet que continue a assinar como * depois de seis meses de conversa decerto esgotará a paciência até da mais romântica missivista.
Na vida, er, real, claro, não é assim. Todos nos deparamos ocasionalmente com mistérios insolúveis, confrontamos o incognoscível; e a sobrevivência psicológica requer que a gente desista, acate o fato de que existem perguntas sem resposta. Mas a palavra importante nisso é “desista”: diante de mistério insolúvel, persistir em buscar respostas se torna obsessão, ou seja, a busca da resposta se torna mais importante que a resposta –em forma extrema, é esse o mal que aflige os devotos de teorias de conspiração: por mais satisfatoriamente que um fenômeno qualquer seja explicado, o investimento psicológico ou emocional dos caras no mistério é tamanho que eles preferem desacreditar e insistir em que os ETs da área 51 continuem existindo.
Parte do problema está no apreço infantoinfantil dos mano (inclusive o locutor que vos fala) por narrativas redondas; por exemplo, é bem provável que o assassinato de JFK tenha transcorrido exatamente como a versão oficial dispõe –atirador solitário, conspiração zero-, mas, pô, que graça tem se tiver sido isso que aconteceu? A verdade factual do caso não funciona como verdade narrativa. Pode ser que eu seja só um bostinha mimado por 170 anos de narrativas de mistério habilidosas, mas existe todo um ritual do mistério a que nos acostumamos, no plano romântico como no do entretenimento: a revelação gradual de facetas, detalhes, componentes do mosaico; se um escritor de mistério economiza nesse aspecto, ou conduz o processo de forma errada, o leitor logo desiste. Se a Grobo tivesse demorado 10 mil capítulos para revelar quem matou Salomão Hayala, ou declarado logo depois do homicídio que “opa, esse crime será insolúvel”, a probabilidade de que a audiência despencasse seria imensa, porque até mesmo público de novela cansa (bom, sei lá. Unsupported assumption, there).
(E quando encontro exemplos de gente que tenta, er, subverter a narrativa de mistério, sacaneando essas expectativas, sempre me lembro de um trecho do Freud que copiei em 1813 para um amigo que era adepto de contar piadas longas e infames como a da “caixinha de fanhanho”: no Der Witz und seine Beziehung zum Unbewußten, Herr Doktor prova que era menos charlatão do que eu gostaria ao explicar que os caras que contam essas piadas escrotinhas violam o contrato fundamental do humor, que é o de criar uma tensão narrativa e liberá-la pelo riso ao final do processo; o piadista do fanhanho, em lugar disso, se diverte por criar uma tensão que não será liberada pelo riso: só ele se diverte, e todos os demais ouvintes são sacaneados. A contraparte disso é que, craro, depois de uma ou duas más experiências, todo mundo sai da sala quando o cara começa a contar uma piada.)
É parecido quando a gente se apaixona. Um dos grandes propulsores do processo é a compulsão por descobrir aquilo que um dia designei como “todas as coisas que eu não sei dela”; os adeptos da escola mistério de sedução consideram que manter o mistério garante o appeal, e é verdade –mas a validade da tática é limitada. Mano pode xavecar morena no bar e alegar que não vai dizer o que faz da vida, er, cause if I told ya I would have to kill ya. Mas não dá pra namorar (ou nem mesmo ter um caso [in]decente) assim, quanto menos casar ou similar nacional. Uma das malvadezas que costumam ser alegadas com mais frequência contra casamentos ou relacionamentos longos é que a coisa tende ao tédio; e, de fato, familiaridade é o oposto de mistério. Mas não sei se a melhor solução é encontrar um sistema artificial para injetar romantismo ou mistério no, er, relacionamento, por mais que 15 mil artigos da Cosmo me contradigam. Os encantos do desconhecido sempre parecem superiores aos da familiaridade porque o amor pelo mistério nos induz a trocar o refrigerador Consul da realidade pelo, er, misterioso prêmio escondido por trás da Porta da Esperança; mas nove em cada 10 vezes, o mano vai pra casa levando apenas um Brasilino de presente.
A canção de amor de Machiavel Sánchez
Maybe no man is an island; but some women are
Ela é perebenta mas eu amo ela
E quem duvidar é bobochatofeio
E é tão grande o meu amor por ela
Que pouco se me dá o tamanho do seio
(Supondo que os fins bustifiquem os meio)
Crime de guerra é esse livro
“It is now life and not art that requires the willing suspension of disbelief”
Leitor contumaz de genre fiction em geral abre o livro com uma combinação de expectativas e tolerâncias –um western sem pistoleiros não satisfaz às primeiras, e o fato de que westerns sempre tenham pistoleiros é relevado pelas segundas. O leitor está disposto a perdoar os clichês em nome da diversão, especialmente se o autor for habilidoso o bastante para criar plot e personagens interessantes a ponto de nos levar a esquecer todos os clichês que estão em uso ou para brincar com eles e torná-los aceitáveis. Mas escritor que trabalha com essas categorias especializadas de ficção tem a obrigação de acertar os detalhes, porque de outra forma a irritação do leitor se torna forte demais para permitir a suspension of disbelief necessária, ou para permitir a tolerância gerada pelo humor compartilhado quanto ao tratamento da fórmula.
Isso eu tô dizendo porque o thriller da vez na minha lista de leituras desrespeita praticamente tudo que estipulei acima, e a minha irritação, à altura da página 100 (e com mais 325 por ler), já avançou da categoria “queimem o livro” para a categoria “queimem o autor” (imagino que por volta da página 300 eu deva estar em “queimem Minneapolis”, ou seja lá onde mora o criminoso responsável por essa colossal perda de tempo). Normalmente eu não escrevo sobre thrillers, ou sobre plot points de thrillers, porque não quero correr o risco de estragar a surpresa para o cidadão que venha a encontrar minha opinião sobre o assunto ao desavisadamente procurar no Google; mas no caso de “Raven”, a porcaria em questão, o único spoiler alert requerido seria “reading this crap will spoil your evening”.
Não tem assunto mais pesquisado, ou comparativamente fácil de pesquisar, do que a Segunda Guerra Mundial; e se o autor pretende um plot de época (no caso, uma operação secreta britânica assassina Hitler em 1940 e o substitui por um ator, o que explica as decisões idiotas que o supremo líder viria a tomar posteriormente, e custaram à Alemanha parte considerável das suas chances de vitória na guerra), a obrigação de acertar os detalhes se torna ainda maior, porque não só é fácil obtê-los como um caminhão de gente (yours truly included) vai perceber imediatamente que estão errados. Mas isso não parece incomodar muito o Sr. Michael Murray: ele viola cronologias, entorta a organização de unidades militares e comete centos erros sobre aviões –a operação de assassinato de Hitler, conduzida em agosto de 1940, envolve um Short Stirling, um bombardeiro cuja produção havia sido iniciada naquele mês e que só entraria em operação quase um ano depois; também há menções ao Bristol Beaufighter (que só entrou em operação em outubro de 1940); a um bombardeio com De Havilland Mosquitoes (que só entrariam em operação em 1942); e a caças alemães FW-190 participando da Batalha da Grã-Bretanha, mais de um ano antes de o modelo chegar aos esquadrões alemães.
E tem mais: o Stirling, um bombardeiro quadrimotor, é usado para lançar 37 paraquedistas (quando na verdade só tinha capacidade para 20), e o plano é que ele pouse em uma pradaria e fique esperando os soldados britânicos que retornam do ataque (vide foto aí em cima para avaliar qual a probabilidade de um avião desse tamanho pousar em um gramado em plena Alemanha e passar algumas horas escondido à espera do retorno dos paraquedistas). Há muitos outros erros técnicos (os alemães estão armados com metralhadoras MG42, por exemplo, quando o nome mesmo do modelo já informa que elas entraram em operação em 1942), e todos esses que mencionei acontecem nas primeiras 50 páginas do livro (depois disso parei de anotar e comecei a abstrair, a bem da minha saúde mental). O amável leitor, a gentil leitora, pode bem estar pensando, a essa altura, que eu deveria deixar de ser chato, e que o consumidor médio do livro nem vai perceber esses defeitinhos. Mas pesquisa cocô em geral indica cérebro cocô, e se o escritor decidiu acrescentar todos esses detalhes para emprestar mais credibilidade à narrativa de época, bom, errá-los todos torna a coisa ainda mais implausível (e com isso o cara viola o compromisso tácito que citei no primeiro parágrafo, porque torna impossível a suspension of disbelief –e em história com trama tão estapafúrdia como essa, uma dose imensa é requerida).
Como eu, cês devem ter amigos médicos ou advogados que rolam de rir diante da representação que o cinema ou televisão faz sobre suas atividades -B., um amigo advogado, por exemplo, calcula que mais ou menos 95% dos advogados do cinema e televisão vençam seus casos não porque conhecem bem o Direito, mas porque trabalham bem como investigadores policiais substitutos. Eu sei que isso não faz com que o espectador médio aprecie menos a coisa; mas quem se incomoda com o espectador médio? Os caras gostam de BBB e do programa da Oprah, for cryin’ out loud. Um dos charmes da boa cultura pop sempre foi combinar diversão com alguma erudição, misturar plausível e implausível de maneira inconsútil ou pelo menos agradável; de outra forma, o que temos são aquelas novelas de época da Grobo nas quais escravos têm sotaque de pagodeiro; e, no caso desse infame “Raven”, o resultado não é engraçado nem mesmo involuntariamente. Veredicto: fuzilamento sumário.
Quartered Safe Out Here
9th Border e tanques do Probyn’s Horse a caminho de Meiktila, 1945
A melhor coisa que eu li em 2009, um ano em que li muita coisa boa, foi o trecho que traduzo abaixo de Quartered Safe Out Here, as memórias de guerra do romancista George MacDonald Fraser (1925-2008), que serviu na frente da Birmânia durante nove meses em 1945. O contexto do trecho envolve um ataque contra um bosque fortemente defendido pelos japoneses, próximo da cidade de Pyawbwe, no qual a seção da qual Fraser fazia parte, no 9° Batalhão do Border Regiment, perdeu quatro de seus 11 soldados –entre os quais o cabo que a comandava- em menos de um minuto:
“Era parte da guerra; alguns homens haviam morrido, outros mais viriam a morrer, e isso era passado; o que importava a partir dali era concluir a tarefa que tínhamos em mãos; aqueles que sobrevivessem levariam o trabalho adiante. Não fazia sentido falar ou refletir sobre o pesar que porventura sentíssemos, e muito menos ostentá-lo apenas por exibicionismo. Era melhor e mais saudável esquecer, e pensar no amanhã.
A celebrada fleuma britânica [stiff upper lip], a determinação de ocultar emoções que seria não apenas embaraçoso e inútil mas também prejudicial demonstrar, é simples bom senso.
Mas isso foi há meio século. Agora as coisas são diferentes, porque a mídia parece sentir que é seu dever expor extensamente as emoções – quanto mais dolorosas, melhor-, e encorajar as pessoas a expressá-las. As câmeras filmam em close as famílias em luto durante um funeral, entrevistadores futucam incessantemente para revelar pesar, dor, medo e choque, não demonstram reticência ou mesmo decência em seus esforços para causar arrepios aos telespectadores, e chafurdam em clichês sentimentais (as vítimas são sempre ‘inocentes’, os parentes são obrigatoriamente ‘entes queridos’). E a obscena intrusão é justificada como ‘caridosa’ e ‘compassiva’ quando na verdade é o exato oposto.
O lastimável é que o público adapta seu comportamento às demandas da televisão. Os parentes em luto sentem a obrigação de chorar e se lamentar diante das câmeras (e aceitam sua atenção como lisonjeira). Até mesmo os jovens soldados, em plena ação no Golfo Pérsico, confessam, diante de uma inquisição nauseabunda empreendida para forçá-los a revelar seus medos, que estão assustados –é claro que estão assustados, da mesma forma que nós estávamos, mas nenhum entrevistador em nossa época era desavergonhado, cruel ou impatriótico a ponto de nos manipular a admitir nossas fraquezas humanas para consumo público, e com isso solapar o moral público, e o nosso. Em clima como o atual, não admira que um general expresse hesitação pública quanto aos medos e as dúvidas que exercer o comando causa –Slim, Montgomery e MacArthur também os sentiam, mas prefeririam ser fuzilados a admiti-los. Conheciam o valor da fleuma.
É incalculável o dano causado ao espírito público pelas atitudes em voga, refletidas e causadas pela televisão. Ele se enfraqueceu de tal forma que qualquer pessoa que tenha sofrido perdas ou dificuldades é vista como necessitada de ‘aconselhamento’, e soldados inevitavelmente sofrem de ‘estresse traumático pós-combate’ e necessitam de assistência psiquiátrica. É difícil compreender como os londrinos sobreviveram à Blitz sem a interferência de ‘terapeutas’ desqualificados e seu cantochão de jargões, ou como a maioria esmagadora daqueles que serviram às forças armadas nos anos 40 retornaram com sucesso à vida civil sem necessidade de lavagem cerebral. É certo que uma pequena minoria deles necessitou de assistência –a guerra pode deixar cicatrizes mentais terríveis-, mas esse número se ampliará, e as cicatrizes se agravarão, em proporção à insistência de uma sociedade em invocar espectros que faríamos melhor em ignorar. Caso se diga às pessoas que elas devem sentir alguma coisa, elas não apenas a sentem mas consideram que senti-la seja tanto uma obrigação quanto um direito.
A distância entre o bosque do templo [na Birmânia] e Sheffield é imensa –e não apenas em milhas. Conheço um jovem de Liverpool que, depois do desastre em Hillsborough, decidiu abandonar o trabalho em função do pesar que sentia pelos torcedores de seu time que morreram nas arquibancadas. Ele não os conhecia, e não esteve no estádio, mas estava perturbado demais para trabalhar. (Imaginem se Grandarse ou os pilotos da Batalha da Inglaterra, que tinham muito mais motivos, houvessem se considerado perturbados demais para continuar combatendo.) Não devemos ser rigorosos demais para com o jovem em questão; ele foi condicionado a acreditar que ceder às emoções é aceitável, ou até mesmo o caminho certo, e provavelmente se sente virtuoso por tê-lo feito.
Felizmente para o mundo, a minha geração não sofria de hipocondria espiritual –mas é claro que não podíamos nos dar ao luxo de fazê-lo. Pelos padrões modernos, nós, bem como toda a população que suportou a guerra, teríamos necessidade de terapia, mas para nossa sorte não existiam terapeutas. Preciso lamentar, no entanto, que não existam ‘jornalistas’ de televisão modernos que possam voltar no tempo para perguntar a Grandarse: ‘Mas o que você sentiu quando o cabo Little foi morto?’ Eu teria gostado de ouvir a resposta”.
Notinha: O Apostos migrou do MovableType para o WordPress, que parece bem mais bacana como ferramenta, mas infelizmente não permite, por exemplo, postar músicas (ou eu não descobri como). Portanto, quem quiser ouvir Sinatra cantando The Road to Mandalay, a canção extraoficial (música de Oley Speak, letra de Rudyard Kipling) do 14° Exército britânico na Birmânia, clique aqui. A transição também causou uma certa baderna no blog –posts duplicados, problemas de alinhamento, perda de links, buscas sem resultado, etc. Com o tempo, espero resolver os problemas. Feliz 2010 a todos.
Vergonhazinhas Literárias (III)
Em 1952, o poeta William Carlos Williams (1883-1963) foi apontado para o posto (ou sinecura, ou honraria) de consultor poético da Biblioteca do Congresso. Porque a indicação aconteceu no auge da guerra fria e do macartismo, o nome do poeta e médico, cujo envolvimento com politicagem literária de esquerda (amena) foi curto e infeliz nos anos 30, terminou submetido a vetting dos serviços de segurança americanos, e vetado. Diz o arquivo do FBI: “WCW is a sort of absent minded professor type, who employs an expressionistic style that might be interpreted as being a code“. O FBI infiltrou uma agente disfarçada de enfermeira no consultório de Williams, para tentar decifrar o tal código, sem resultado. É inevitável imaginar J. Edgar Hoover, em seu peignoir fúcsia predileto, batendo o pezinho calçado em chinelo de pompom e rosnando: “Se ele não é comunista, por que o carrinho de mão era vermelho?”
Quotas
“I tend to say stupid things to black people sometimes”.
Como todo bom direitista, eu espumo um pouquinho pela boca quando ouço a palavra “quotas”. Não é difícil compreender a reação: porque sou branco, XY, heterossexual e de classe média, é evidente que não estou entre as catigorias que costumam ser beneficiadas por quotas ou medidas de ação afirmativa, e isso provavelmente quer dizer que estou mais disposto a considerar os defeitos que as virtudes, quando esse tipo de proposta está em questão. Isso talvez ajude a explicar por que em geral passo batido no debate sobre o assunto: sei que tenho parti pris, e portanto não confio em minha objetividade, e portanto tendo a calar a boca (se bem valha ressalvar aqui que o outro lado nessa disputa em geral não hesita muito em ejetar qualquer pretexto de objetividade e puxar descaradamente a brasa para a autossardinha. But I digress).
Não quer dizer que quotas sejam uma boa ideia. Para citar um exemplo peculiarmente idiota, as propostas (em diversos países) de que exista uma cota mínima para a mulhegada* nas candidaturas ao, ou assentos do, Legislativo me parecem combinar indolência, lógica tacanha e desrespeito básico para com alguns princípios essenciais da democracia. As mulheres são maioria na população e no eleitorado. Não existe obstáculo legal algum a que se candidatem, inscrevam em partidos, formem partidos (se é fato que os partidos tradicionais não oferecem espaço a candidaturas femininas); e o voto é secreto. O fato de que relativamente poucas mulheres se elejam significa que muitas mulheres não votam em mulher; quotas são apenas um método autoritário de tentar obrigar o eleitorado a votar em quem não quer.
Quotas também acarretam o risco de repetir com polaridade reversa, no futuro, o erro que supostamente deveriam corrigir, porque é difícil determinar exatamente em que momento** a discriminação corretiva praticada por meio das quotas descamba apenas para discriminação; aqueles 13,7% das vagas para locutores de rádio que a ação afirmativa reserva aos gagos inevitavelmente deixam de ser proteção aos mais fracos e um dia viram feudo. (Um bom exemplo da tendência são os líderes sindicais: originalmente trabalhadores que falavam em defesa de seus colegas, mas 10, 20 ou 50 anos depois um bando de burocratas acomodados que defendem mais as próprias mordomias que as causas da catigoria.)
Mas isso tampouco é o problema mais grave. O que me aporrinha especialmente nas quotas é que elas representam (mais) uma tentativa de corrigir o passado, tendência política e intelectual repulsiva que deveria ter ficado sepultada no século 20. Corrigir as discriminações do passado é louvável no sentido de impedir que elas voltem a acontecer -e nada mais justo, aliás. Mas os fuzilados não podem ser desfuzilados. Os escravizados não podem ser desescravizados. O futuro não pode corrigir o passado. A suposta busca de justiça histórica que as medidas de discriminação positiva ou corretiva representam tem pouco a ver com justiça, e nada com democracia. Em termos filosóficos, ação afirmativa tem mais em comum com purificação étnica ou redistribuição forçada de renda, se bem que por métodos menos brutais ou sanguinários. Mas o parentesco é inconfundível: expulsar uma determinada etnia porque seus ancestrais “invadiram” a “nossa” terra é desagradavelmente parecido com favorecer uma determinada etnia porque os ancestrais dela foram escravizados pelos ancestrais dos outros. (E desconfio que só, er, funcione da mesma maneira que se pode alegar que genocídio “funciona”.)
Ainda assim, sempre hesito em me pronunciar sobre o assunto, e o motivo é que as queixas da brancaiada discriminada pelas medidas de ação afirmativa me irritam quase tanto quanto a lógica mequetrefe dos defensores desse tipo de bobáj. Ser discriminado, preterido ou rejeitado por conta de origem étnica, situação econômica ou classe social é com certeza desagradável; mas quando a situação era a oposta, não era a mais comum das ocorrências encontrar um privilegiado alegando que “opa, tô sendo injustamente favorecido, e isso é inadmissível”. Se você acha bacana que seu time vença com a ajuda do juiz, perde o direito de reclamar quando o adversário leva o título fazendo gol de mão. Now deal with it.
* Na Escandinávia, há leis que dispõem que os conselhos das empresas precisam contar com proporção X de mulheres; uma amiga, jovem executiva sueca, causou frisson entre as feministas quando disse que essas conselheiras café-com-leite na verdade desvalorizavam as realizações das mulheres que haviam chegado ao posto por mérito ou superando os preconceitos.
** Quando é que a ação afirmativa terá cumprido sua meta? Quando exatamente 13,7% dos locutores de rádio forem gagos? Medidas como essa sempre esbarram no famoso sonho –ou pesadelo- dos estatísticos: o sujeito que tem 1,3 cônjuge e 2,7 filhos.


