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	<title>Filthy McNasty</title>
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	<description>I told ya I love ya, now get out</description>
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		<title>Crime de guerra é esse livro</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2010 11:34:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[No caso de “Raven”, a porcaria em questão, o único spoiler alert requerido seria “reading this crap will spoil your evening”. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/shortstirling1.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/shortstirling1.jpg" alt="" title="Short Stirling" width="460" height="288" class="alignnone size-full wp-image-976" /></a><span style="font-size:85%;"><strong>“<em>It is now life and not art that requires the willing suspension of disbelief</em>”</strong></span></p>
<p>Leitor contumaz de <em>genre fiction</em> em geral abre o livro com uma combinação de expectativas e tolerâncias –um <em>western</em> sem pistoleiros não satisfaz às primeiras, e o fato de que <em>westerns</em> sempre tenham pistoleiros é relevado pelas segundas. O leitor está disposto a perdoar os clichês em nome da diversão, especialmente se o autor for habilidoso o bastante para criar <em>plot</em> e personagens interessantes a ponto de nos levar a esquecer todos os clichês que estão em uso ou para brincar com eles e torná-los aceitáveis. Mas escritor que trabalha com essas categorias especializadas de ficção tem a obrigação de acertar os detalhes, porque de outra forma a irritação do leitor se torna forte demais para permitir a <em>suspension of disbelief</em> necessária, ou para permitir a tolerância gerada pelo humor compartilhado quanto ao tratamento da fórmula.</p>
<p>Isso eu tô dizendo porque o <em>thriller</em> da vez na minha lista de leituras desrespeita praticamente tudo que estipulei acima, e a minha irritação, à altura da página 100 (e com mais 325 por ler), já avançou da categoria “queimem o livro” para a categoria “queimem o autor” (imagino que por volta da página 300 eu deva estar em “queimem Minneapolis”, ou seja lá onde mora o criminoso responsável por essa colossal perda de tempo). Normalmente eu não escrevo sobre <em>thrillers</em>, ou sobre <em>plot points</em> de <em>thrillers</em>, porque não quero correr o risco de estragar a surpresa para o cidadão que venha a encontrar minha opinião sobre o assunto ao desavisadamente procurar no Google; mas no caso de “<em>Raven</em>”, a porcaria em questão, o único <em>spoiler alert</em> requerido seria “<em>reading this crap will spoil your evening</em>”.</p>
<p>Não tem assunto mais pesquisado, ou comparativamente fácil de pesquisar, do que a Segunda Guerra Mundial; e se o autor pretende um <em>plot</em> de época (no caso, uma operação secreta britânica assassina Hitler em 1940 e o substitui por um ator, o que explica as decisões idiotas que o supremo líder viria a tomar posteriormente, e custaram à Alemanha parte considerável das suas chances de vitória na guerra), a obrigação de acertar os detalhes se torna ainda maior, porque não só é fácil obtê-los como um caminhão de gente (<em>yours truly included</em>) vai perceber imediatamente que estão errados. Mas isso não parece incomodar muito o Sr. Michael Murray: ele viola cronologias, entorta a organização de unidades militares e comete centos erros sobre aviões –a operação de assassinato de Hitler, conduzida em agosto de 1940, envolve um Short Stirling, um bombardeiro cuja produção havia sido iniciada naquele mês e que só entraria em operação quase um ano depois; também há menções ao Bristol Beaufighter (que só entrou em operação em outubro de 1940); a um bombardeio com De Havilland Mosquitoes (que só entrariam em operação em 1942); e a caças alemães FW-190 participando da Batalha da Grã-Bretanha, mais de um ano antes de o modelo chegar aos esquadrões alemães.</p>
<p>E tem mais: o Stirling, um bombardeiro quadrimotor, é usado para lançar 37 paraquedistas (quando na verdade só tinha capacidade para 20), e o plano é que ele pouse em uma pradaria e fique esperando os soldados britânicos que retornam do ataque (vide foto aí em cima para avaliar qual a probabilidade de um avião desse tamanho pousar em um gramado em plena Alemanha e passar algumas horas escondido à espera do retorno dos paraquedistas). Há muitos outros erros técnicos (os alemães estão armados com metralhadoras MG42, por exemplo, quando o nome mesmo do modelo já informa que elas entraram em operação em 1942), e todos esses que mencionei acontecem nas primeiras 50 páginas do livro (depois disso parei de anotar e comecei a abstrair, a bem da minha saúde mental). O amável leitor, a gentil leitora, pode bem estar pensando, a essa altura, que eu deveria deixar de ser chato, e que o consumidor médio do livro nem vai perceber esses defeitinhos. Mas pesquisa cocô em geral indica cérebro cocô, e se o escritor decidiu acrescentar todos esses detalhes para emprestar mais credibilidade à narrativa de época, bom, errá-los todos torna a coisa ainda mais implausível (e com isso o cara viola o compromisso tácito que citei no primeiro parágrafo, porque torna impossível a <em>suspension of disbelief </em>–e em história com trama tão estapafúrdia como essa, uma dose imensa é requerida).</p>
<p>Como eu, cês devem ter amigos médicos ou advogados que rolam de rir diante da representação que o cinema ou televisão faz sobre suas atividades -B., um amigo advogado, por exemplo, calcula que mais ou menos 95% dos advogados do cinema e televisão vençam seus casos não porque conhecem bem o Direito, mas porque trabalham bem como investigadores policiais substitutos. Eu sei que isso não faz com que o espectador médio aprecie menos a coisa; mas quem se incomoda com o espectador médio? Os caras gostam de BBB e do programa da Oprah, <em>for cryin’ out loud</em>. Um dos charmes da boa cultura pop sempre foi combinar diversão com alguma erudição, misturar plausível e implausível de maneira inconsútil ou pelo menos agradável; de outra forma, o que temos são aquelas novelas de época da Grobo nas quais escravos têm sotaque de pagodeiro; e, no caso desse infame “<em>Raven</em>”, o resultado não é engraçado nem mesmo involuntariamente. Veredicto: fuzilamento sumário.</p>
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		<title>Quartered Safe Out Here</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Dec 2009 03:54:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Pelos padrões modernos, nós, bem como toda a população que suportou a guerra, teríamos necessidade de terapia, mas para nossa sorte não existiam terapeutas. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2009/12/9thborderprobynhorsemeiktila1945b.jpg" alt="9thborderprobynhorsemeiktila1945b" title="9thborderprobynhorsemeiktila1945b" width="448" height="290" class="alignnone size-full wp-image-962" /><span style="font-size:85%"><strong>9th Border e tanques do Probyn’s Horse a caminho de Meiktila, 1945</strong></span></p>
<p>A melhor coisa que eu li em 2009, um ano em que li muita coisa boa, foi o trecho que traduzo abaixo de <a href="http://www.amazon.com/Quartered-Safe-Out-Here-Harrowing/dp/1602391904"><em>Quartered Safe Out Here</em></a>, as memórias de guerra do romancista <a href="http://www.dailymail.co.uk/news/article-506219/The-testament-Flashmans-creator-How-Britain-destroyed-itself.html">George MacDonald Fraser</a> (1925-2008), que serviu na frente da Birmânia durante nove meses em 1945. O contexto do trecho envolve um ataque contra um bosque fortemente defendido pelos japoneses, próximo da cidade de Pyawbwe, no qual a seção da qual Fraser fazia parte, no 9° Batalhão do Border Regiment, perdeu quatro de seus 11 soldados –entre os quais o cabo que a comandava- em menos de um minuto:</p>
<p>“Era parte da guerra; alguns homens haviam morrido, outros mais viriam a morrer, e isso era passado; o que importava a partir dali era concluir a tarefa que tínhamos em mãos; aqueles que sobrevivessem levariam o trabalho adiante. Não fazia sentido falar ou refletir sobre o pesar que porventura sentíssemos, e muito menos ostentá-lo apenas por exibicionismo. Era melhor e mais saudável esquecer, e pensar no amanhã.</p>
<p>A celebrada fleuma britânica [<em>stiff upper lip</em>], a determinação de ocultar emoções que seria não apenas embaraçoso e inútil mas também prejudicial demonstrar, é simples bom senso.</p>
<p>Mas isso foi há meio século. Agora as coisas são diferentes, porque a mídia parece sentir que é seu dever expor extensamente as emoções – quanto mais dolorosas, melhor-, e encorajar as pessoas a expressá-las. As câmeras filmam em close as famílias em luto durante um funeral, entrevistadores futucam incessantemente para revelar pesar, dor, medo e choque, não demonstram reticência ou mesmo decência em seus esforços para causar arrepios aos telespectadores, e chafurdam em clichês sentimentais (as vítimas são sempre ‘inocentes’, os parentes são obrigatoriamente ‘entes queridos’). E a obscena intrusão é justificada como ‘caridosa’ e ‘compassiva’ quando na verdade é o exato oposto.</p>
<p>O lastimável é que o público adapta seu comportamento às demandas da televisão. Os parentes em luto sentem a obrigação de chorar e se lamentar diante das câmeras (e aceitam sua atenção como lisonjeira). Até mesmo os jovens soldados, em plena ação no Golfo Pérsico, confessam, diante de uma inquisição nauseabunda empreendida para forçá-los a revelar seus medos, que estão assustados –é claro que estão assustados, da mesma forma que nós estávamos, mas nenhum entrevistador em nossa época era desavergonhado, cruel ou impatriótico a ponto de nos manipular a admitir nossas fraquezas humanas para consumo público, e com isso solapar o moral público, e o nosso. Em clima como o atual, não admira que um general expresse hesitação pública quanto aos medos e as dúvidas que exercer o comando causa –Slim, Montgomery e MacArthur também os sentiam, mas prefeririam ser fuzilados a admiti-los. Conheciam o valor da fleuma.</p>
<p>É incalculável o dano causado ao espírito público pelas atitudes em voga, refletidas e causadas pela televisão. Ele se enfraqueceu de tal forma que qualquer pessoa que tenha sofrido perdas ou dificuldades é vista como necessitada de ‘aconselhamento’, e soldados inevitavelmente sofrem de ‘estresse traumático pós-combate’ e necessitam de assistência psiquiátrica. É difícil compreender como os londrinos sobreviveram à Blitz sem a interferência de ‘terapeutas’ desqualificados e seu cantochão de jargões, ou como a maioria esmagadora daqueles que serviram às forças armadas nos anos 40 retornaram com sucesso à vida civil sem necessidade de lavagem cerebral. É certo que uma pequena minoria deles necessitou de assistência –a guerra pode deixar cicatrizes mentais terríveis-, mas esse número se ampliará, e as cicatrizes se agravarão, em proporção à insistência de uma sociedade em invocar espectros que faríamos melhor em ignorar. Caso se diga às pessoas que elas devem sentir alguma coisa, elas não apenas a sentem mas consideram que senti-la seja tanto uma obrigação quanto um direito.</p>
<p>A distância entre o bosque do templo [na Birmânia] e Sheffield é imensa –e não apenas em milhas. Conheço um jovem de Liverpool que, depois do desastre em Hillsborough, decidiu abandonar o trabalho em função do pesar que sentia pelos torcedores de seu time que morreram nas arquibancadas. Ele não os conhecia, e não esteve no estádio, mas estava perturbado demais para trabalhar. (Imaginem se Grandarse ou os pilotos da Batalha da Inglaterra, que tinham muito mais motivos, houvessem se considerado perturbados demais para continuar combatendo.) Não devemos ser rigorosos demais para com o jovem em questão; ele foi condicionado a acreditar que ceder às emoções é aceitável, ou até mesmo o caminho certo, e provavelmente se sente virtuoso por tê-lo feito.</p>
<p>Felizmente para o mundo, a minha geração não sofria de hipocondria espiritual –mas é claro que não podíamos nos dar ao luxo de fazê-lo. Pelos padrões modernos, nós, bem como toda a população que suportou a guerra, teríamos necessidade de terapia, mas para nossa sorte não existiam terapeutas. Preciso lamentar, no entanto, que não existam ‘jornalistas’ de televisão modernos que possam voltar no tempo para perguntar a Grandarse: ‘Mas o que você sentiu quando o cabo Little foi morto?’ Eu teria gostado de ouvir a resposta”.</p>
<p><span style="font-size:85%"><strong>Notinha</strong>: O Apostos migrou do MovableType para o WordPress, que parece bem mais bacana como ferramenta, mas infelizmente não permite, por exemplo, postar músicas (ou eu não descobri como). Portanto, quem quiser ouvir Sinatra cantando <em>The Road to Mandalay</em>, a canção extraoficial (música de Oley Speak, letra de Rudyard Kipling) do 14° Exército britânico na Birmânia, clique </span><a href="http://www.youtube.com/watch?v=0Bs2_WxT9bI"><span style="font-size:85%">aqui</span></a><span style="font-size:85%">. A transição também causou uma certa baderna no blog –posts duplicados, problemas de alinhamento, perda de <em>links</em>, buscas sem resultado, etc. Com o tempo, espero resolver os problemas. Feliz 2010 a todos. </span> </p>
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		<title>Vergonhazinhas Literárias (III)</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Oct 2009 05:42:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>"Se ele não é comunista, por que o carrinho de mão era vermelho?"
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1952, o poeta <a href="http://www.poets.org/poet.php/prmPID/119">William Carlos Williams </a>(1883-1963) foi apontado para o posto (ou sinecura, ou honraria) de <a href="http://washingtonart.com/beltway/fourlaureates.html">consultor poético da Biblioteca do Congresso</a>. Porque a indicação aconteceu no auge da guerra fria e do macartismo, o nome do poeta e médico, cujo envolvimento com politicagem literária de esquerda (amena) foi curto e infeliz nos anos 30, terminou submetido a <em>vetting</em> dos serviços de segurança americanos, e vetado. <a href="http://www.jstor.org/pss/4308967">Diz o arquivo</a> do FBI: &#8220;<em>WCW is a sort of absent minded professor type, who employs an expressionistic style that might be interpreted as being a code</em>&#8220;. O FBI infiltrou uma agente disfarçada de enfermeira no consultório de Williams, para tentar decifrar o tal código, sem resultado. É inevitável imaginar <a href="http://www.newsfollowup.com/id/images_7/hoover_crossdresser_1.jpg">J. Edgar Hoover</a>, em seu <em>peignoir</em> fúcsia predileto, batendo o pezinho calçado em chinelo de pompom e rosnando: &#8220;Se ele não é comunista, por que <a href="http://www.writing.upenn.edu/~afilreis/88/wcw-red-wheel.html">o carrinho de mão era vermelho</a>?&#8221;</p>
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		<title>Quotas</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Oct 2009 15:26:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>(...) mas quando a situação era a oposta, não era a mais comum das ocorrências encontrar um privilegiado alegando que “opa, tô sendo injustamente favorecido, e isso é inadmissível”
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="affirmativeaction.JPG" src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/affirmativeaction.jpg" width="496" height="297" />
</p>
<p><span style="font-size:85%;">“<strong><em>I tend to say stupid things to black people sometimes</em></strong>”.</span>
</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="335" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=9053685-a0a" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=9053685-a0a" width="335" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object>
</p>
<p>Como todo bom direitista, eu espumo um pouquinho pela boca quando ouço a palavra “quotas”. Não é difícil compreender a reação: porque sou branco, XY, heterossexual e de classe média, é evidente que não estou entre as catigorias que costumam ser beneficiadas por quotas ou medidas de ação afirmativa, e isso provavelmente quer dizer que estou mais disposto a considerar os defeitos que as virtudes, quando esse tipo de proposta está em questão. Isso talvez ajude a explicar por que em geral passo batido no debate sobre o assunto: sei que tenho <em>parti pris</em>, e portanto não confio em minha objetividade, e portanto tendo a calar a boca (se bem valha ressalvar aqui que o outro lado nessa disputa em geral não hesita muito em ejetar qualquer pretexto de objetividade e puxar descaradamente a brasa para a autossardinha. <em>But I digress</em>).
</p>
<p>Não quer dizer que quotas sejam uma boa ideia. Para citar um exemplo peculiarmente idiota, as propostas (em diversos países) de que exista uma cota mínima para a mulhegada* nas candidaturas ao, ou assentos do, Legislativo me parecem combinar indolência, lógica tacanha e desrespeito básico para com alguns princípios essenciais da democracia. As mulheres são maioria na população e no eleitorado. Não existe obstáculo legal algum a que se candidatem, inscrevam em partidos, formem partidos (se é fato que os partidos tradicionais não oferecem espaço a candidaturas femininas); e o voto é secreto. O fato de que relativamente poucas mulheres se elejam significa que muitas mulheres não votam em mulher; quotas são apenas um método autoritário de tentar obrigar o eleitorado a votar em quem não quer.
</p>
<p>Quotas também acarretam o risco de repetir com polaridade reversa, no futuro, o erro que supostamente deveriam corrigir, porque é difícil determinar exatamente em que momento** a discriminação corretiva praticada por meio das quotas descamba apenas para discriminação; aqueles 13,7% das vagas para locutores de rádio que a ação afirmativa reserva aos gagos inevitavelmente deixam de ser proteção aos mais fracos e um dia viram feudo. (Um bom exemplo da tendência são os líderes sindicais: originalmente trabalhadores que falavam em defesa de seus colegas, mas 10, 20 ou 50 anos depois um bando de burocratas acomodados que defendem mais as próprias mordomias que as causas da catigoria.)
</p>
<p>Mas isso tampouco é o problema mais grave. O que me aporrinha especialmente nas quotas é que elas representam (mais) uma tentativa de corrigir o passado, tendência política e intelectual repulsiva que deveria ter ficado sepultada no século 20. Corrigir as discriminações do passado é louvável no sentido de impedir que elas voltem a acontecer -e nada mais justo, aliás. Mas os fuzilados não podem ser desfuzilados. Os escravizados não podem ser desescravizados. O futuro não pode corrigir o passado. A suposta busca de justiça histórica que as medidas de discriminação positiva ou corretiva representam tem pouco a ver com justiça, e nada com democracia. Em termos filosóficos, ação afirmativa tem mais em comum com purificação étnica ou redistribuição forçada de renda, se bem que por métodos menos brutais ou sanguinários. Mas o parentesco é inconfundível: expulsar uma determinada etnia porque seus ancestrais “invadiram” a “nossa” terra é desagradavelmente parecido com favorecer uma determinada etnia porque os ancestrais dela foram escravizados pelos ancestrais dos outros. (E desconfio que só, er, funcione da mesma maneira que se pode alegar que genocídio “funciona”.)
</p>
<p>Ainda assim, sempre hesito em me pronunciar sobre o assunto, e o motivo é que as queixas da brancaiada discriminada pelas medidas de ação afirmativa me irritam quase tanto quanto a lógica mequetrefe dos defensores desse tipo de bobáj. Ser discriminado, preterido ou rejeitado por conta de origem étnica, situação econômica ou classe social é com certeza desagradável; mas quando a situação era a oposta, não era a mais comum das ocorrências encontrar um privilegiado alegando que “opa, tô sendo injustamente favorecido, e isso é inadmissível”. Se você acha bacana que seu time vença com a ajuda do juiz, perde o direito de reclamar quando o adversário leva o título fazendo gol de mão. <em>Now deal with it</em>.
</p>
<p><span style="font-size:85%;">* Na Escandinávia, há leis que dispõem que os conselhos das empresas precisam contar com proporção X de mulheres; uma amiga, jovem executiva sueca, causou <em>frisson</em> entre as feministas quando disse que essas conselheiras café-com-leite na verdade desvalorizavam as realizações das mulheres que haviam chegado ao posto por mérito ou superando os preconceitos.
</p>
<p> ** Quando é que a ação afirmativa terá cumprido sua meta? Quando exatamente 13,7% dos locutores de rádio forem gagos? Medidas como essa sempre esbarram no famoso sonho –ou pesadelo- dos estatísticos: o sujeito que tem 1,3 cônjuge e 2,7 filhos. </span></p>
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		<title>Vergonhazinhas Literárias (II)</title>
		<link>http://filthymac.apostos.com/2009/10/12/vergonhazinhas-literarias-ii/</link>
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		<pubDate>Mon, 12 Oct 2009 20:21:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A ciência recomenda: mate neurônios e leia melhor
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O crescimento do cérebro pára por volta dos 20 anos de idade, dispõe a ciência; e depois dos 30, boa parte das pesquisas indica que o sujeito perde neurônios em ritmo superior à sua capacidade de repô-los (se bem que trabalhos publicados nos últimos 10 anos apontem para a possibilidade de que o número total de neurônios não mude -o que mudaria é a distribuição tipológica, ie, o mano perde neurônios X e cria ou ativa neurônios Y ou Z). O que isso tem a ver com literatura, quer saber o amável leitor, a gentil leitora? Bom, enquanto o cérebro e o número de neurônios ainda estão crescendo, a probabilidade de que o sujeito goste de Hesse, Bukowski, escritores <em>beat</em> e nojeirinhas semelhantes (no meu caso, por exemplo, Henry Miller e John Fante) parece maior, assim como a probabilidade de que deixe envergonhadamente de gostar dessas sandices quando o cérebro começa a encolher (perda de volume média da ordem de 10% por década) e os neurônios cataplóftam. Isso parece indicar que os neurônios burros morrem primeiro (o que é um consolo para aqueles que, <em>like yours truly</em>, têm cada vez menas deles), e que, pelo menos no convoluto mundo do cérebro, tamanho não é documento.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Vergonhazinhas Literárias (I)</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 12:44:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>McCarthy bom é o Joe, <em>dude</em>.
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entre as muitas coisas que costumo ter vergonha de confessar aos meus amigos letrados, tem a seguinte: eu não gosto tanto assim do Cormac McCarthy, e <em>&#8220;No Country for Old Men&#8221;</em> me desagrada da mesma maneira e pelos mesmos motivos que &#8220;Grande Sertão: Veredas&#8221;: falta de paciência para dissertações filosóficas em sotaque capiau (ainda que o McCarthy pelo menas seja mais sucinto). Pronto, <em>got it off my chest</em>. Agora vou ali ouvir <em>&#8220;Leandro &#038; Leonardo Sing the Wittgenstein Songbook&#8221;</em>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>The real honest-to-goodness&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 21:27:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>E o pobre completista compra, compra e compra, e acompanha ofegante o debate sobre as virtudes das sucessivas edições [...]
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="brainpuzzle.JPG" src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/brainpuzzle.jpg" width="387" height="290" />
</p>
<p><span style="font-size:85%;"><strong>&#8230; <em>complete authoritative final definitive director’s cut</em> (<em>2.0</em>)</strong></span>
</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="335" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8458385-3fd" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8458385-3fd" width="335" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object>
</p>
<p>Pequeno marco pessoal: ontem, saíram os <em>box sets</em> remasterizados do <a href="http://2.bp.blogspot.com/_XY7DuSWVKHU/R8o16AMpZCI/AAAAAAAAAJc/rznkcyjecaY/s400/Os%2BOriginais%2Bdo%2BSamba%2B-%2BAle.png"><em>Herman’s Hermits</em></a>, em versões <a href="http://www.amazon.com/Beatles-Stereo-Box-Set/dp/B002BSHWUU/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;s=music&amp;qid=1252608589&amp;sr=8-1">estéreo</a> e <a href="http://www.amazon.com/Beatles-Mono-Box-Set/dp/B002BSHXJA/ref=pd_bxgy_m_text_b">mono</a>, e eu não me senti tentado a comprar nenhum dos dois –aliás, nem mesmo a fazer qualquer esforço especial para ouvir as novas versões, ainda que, como muitos devotos e antigos devotos do culto, eu também ache as versões iniciais em CD da banda muito ruins, e não seja filisteu a ponto de descartar com muxoxos desdenhosos a importante distinção entre os mixes estéreo e mono.
</p>
<p>Tô me gabando da pequena vitória não ao modo de ex-fumante que pigarreia reprovação ao detectar qualquer traço de fumaça, mas como vítima em lenta recuperação do tirrível vício do completismo –anglicismo de que o português talvez já esteja necessitado para designar os desafortunados indivíduos que se sentem compelidos a montar a coleção completa de qualquer que seja a obsessão que os aflige. É vício ameno, pode supor a gentil leitora, o amável leitor, mas sujeita o padecente à mais impiedosa exploração por parte das companhias de mídia, que sempre têm mais algum dinheiro a faturar aproveitando essa fraqueza.
</p>
<p>Cês já repararam na sucessão de versões cada vez mais completas e definitivas de <em>blockbusters</em> que surgem a intervalos de seis meses nas lojas de DVDs? Versão original, versão comentada, versão estendida, versão com diálogo adicional, versão do diretor, versão do primo gago do diretor, versão em que cada cópia tem uma impressão digital do ator que interpretava o Duende Número Cinco&#8230; E o pobre completista compra, compra e compra, e acompanha ofegante o debate sobre as virtudes das sucessivas edições, sem nunca contemplar a plausível hipótese de que, <em>yo</em>, se deixaram de fora, vai ver que é porque aquele material adicional era mesmo ruim.
</p>
<p>Flagrei a mania supostamente inofensiva como vício quando estava a ponto de comprar minha quarta versão de “<a href="http://www.jazz.com/dozens/the-dozens-the-birth-of-the-cool"><em>Birth of the Cool</em></a>”, rotulada como gaúcha comprétinha 19 anos, e percebi que a única coisa que o novo pacote oferecia a mais que o antecedente eram três <em>alternate takes</em> incompletos e 35 segundos de pigarro do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/John_Carisi">John Carisi</a>* logo antes de um <em>take</em> abandonado de “<em>Israel</em>”. Dei um tapão na minha pópria mão criminosa e saí correndo da loja, e desde então tenho combatido o hediondo vício, inicialmente sem muito sucesso mas agora tô sóbrio há três anos. (E o meu vício em <a href="http://www.maniacworld.com/dog-playing-the-piano.jpg"><em>Herman’s Hermits</em></a> eu tinha curado acho que por volta de 1999, <em>anyway</em>, quando comprei “<em><a href="http://www.jpgr.co.uk/rdr5233042.html">Run Devil Run</a></em>” e decidi que era muito mais justo o Paul McCartney me dar dinheiro do que eu dar dinheiro a ele. Foi minha última compra de mercadoria relacionada ao <a href="http://www.kshs.org/research/collections/documents/online/band/images/al01_101.gif"><em>Herman’s Hermits</em></a>, ao menos para uso pessoal. Presente não conta. Espero.)
</p>
<p><span style="font-size:85%;">* Eu sei que o John Carisi não toca no disco, ô. Mas pigarreia.</span> </p>
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		<title>Gasolina na fogueira</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 21:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O refúgio dos especialistas proponentes de ideias ou cretinas ou distorcidas ideologicamente é alegar que estão tratando de questões técnicas [...]
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="matchbox.JPG" src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/matchbox.jpg" width="359" height="290" />
</p>
<p><strong><span style="font-size:85%;">Banco central que brinca com fogo faz xixi na cabeça (dos outros)</span></strong>
</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="335" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8389504-121" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8389504-121" width="335" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object>
</p>
<p>Há 10 dias, <a href="http://www.theglobalist.com/AuthorBiography.aspx?AuthorId=582">Stephen Roach</a> publicou no <em>Financial Times</em> um <a href="http://www.ft.com/cms/s/0/a2ba2378-9186-11de-879d-00144feabdc0.html">artigo</a> em que ele não só se opunha à renovação do mandato de Ben Bernanke no comando do Fed como insinuava que gostaria de vê-lo jogado ao rio Potomac no inverno e com três trilhões de dólares em <em>toxic assets</em> enfiados na cueca. E um dos motivos para que ele recomende a ejeção de Bernanke é por vê-lo como uma espécie de Alan Greenspan júnior, ainda que menos oracular*.
</p>
<p>Roach sempre foi visto como analista financeiro pessimista e/ou cri-cri, mas o resumo que o artigo oferece sobre a filosofia de Greenspan e Bernanke me parece perfeito: a ideia central era a de que as autoridades econômicas pouco ou nada podem fazer para controlar a formação e expansão, ou induzir a deflação, de bolhas; cabia a elas esperar que a bolha estourasse e aí enfrentar as consequências.
</p>
<p><em>Expert I ain’t</em>, mas se, por exemplo, um segurança de prédio fosse aplicar a teoria Greenspan quando ele visse um sujeito chegando à portaria com um lança-chamas e seis galões de gasolina, em vez de fechar a porta ou chamar a polícia, esperaria o cara tacar fogo em pelo menos seis andares e aí acionaria o corpo de bombeiros. (Ou, digamos, se um escriba citadino percebesse que vestir as calças começa a ficar complicado por excesso de fartura, ele em vez de largar a pizza e fazer mais exercício preferisse esperar que seu peso chegasse a 130 quilos e partisse direto para a lipoaspiração.)
</p>
<p>Apelar ao bom senso sempre faz com que me sinta como um desses tiozinhos que resmungam “liberdade mas não libertinagem” ao ver moçoilas fazendo tópiléssi em programa de TV, mas ideias que parecem escandalosamente insensatas em teoria tendem a apresentar resultados ainda mais insensatos quando postas em prática. (E no caso de Greenspan vs. Piromaníaco a gente ainda poderia acusar o banco central americano de oferecer uma dúzia de granadas de fósforo ao incendiário, já que foi o Fed que inflou deliberadamente a bolha da habitação.)
</p>
<p>O refúgio dos especialistas proponentes de ideias ou cretinas ou distorcidas ideologicamente (e creio que não haja quem considere Greenspan ou Bernanke burraldos) é alegar que estão tratando de questões técnicas, que um leigo seria incapaz de compreender, e portanto aquilo que parece insensato aos olhos do tiozinho do bom senso faz todo sentido nos estratosféricos reinos da sabedoria especializada (um bom nome para o fenômeno seria “síndrome da mecânica quântica”). Eu mesmo tendo a aceitar as limitações do bom senso como ferramenta analítica, mas o fato é que quase todas as objeções sensatas ao fuzuê dos últimos anos se provaram procedentes. Andrew Cockburn pode ser um <em>disgusting lib</em>, mas no documentário dele sobre o imbroglio, “<a href="http://www.americancasinothemovie.com/"><em>American Casino</em></a>”, há um depoimento de Frank Raiter, um sujeito que se demitiu da Standard &amp; Poor’s inconformado com a frouxidão na avaliação dos riscos dos papeis <em>subprime</em>, no qual ele conta que um brinde comum nos happy hours da firrrma, antes da crise, era “que nós estejamos aposentados antes que essa caca toda estoure” –ou seja, até os técnicos sabiam que o veredicto do bom senso era inevitável. <em>The proof of the pudding is in the eating</em>, e nem toda a calda do mundo consegue disfarçar que o <em>aftertaste</em> da culinária Greenspan é de uma substância que gente educada prefere não mencionar.
</p>
<p><span style="font-size:85%;">* Eu tive o, er, privilégio de traduzir a prosa imortal de Greenspan algumas dezenas de vezes, e o trabalho envolvia traduzir greenspanês para economês, economês para inglês, e só depois disso chegar ao português –um processo que inevitavelmente deixava os pronunciamentos do supremo guru com cara de telemarketing do Walter (Livre) Mercado. Greenspan nunca usava “caso o mercado suba” quando uma expressão elegante como “probabilidade de uma verticalização reversa positiva” era suficiente. </span></p>
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		<title>Out with the old, in with the phew</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Sep 2009 20:54:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>I see dead media
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="deadmedia.jpg" src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/deadmedia.jpg" width="541" height="289" />
</p>
<p><strong><em><span style="font-size:85%;">I see dead media</span>
</p>
<p></em></strong>
</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="335" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8364729-db4" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8364729-db4" width="335" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object>
</p>
<p>O choro e ranger de dentes sobre a morte das velhas mídias não me comove muito –aposto, aliás, que, no dia em que inventaram o tambor, a Associação Neandertal dos Sinais de Fumaça promoveu uma manifestação de protesto contra o fim da nobre arte da baforada semiótica. Admitidamente passadista, mesmo assim nunca resisti muito à transição de mídia para mídia, forma para forma. Eu costumava comprar dezenas de CDs, mas outro dia estava tentando lembrar de minha última compra de música em formato físico e acho que foi lá por volta de março de 2008. Nem é que eu seja maria-vai-com-as-outras ou pão-duro; entre outras coisas, a decadência dos CDs –<em>as usual</em>- estourou do lado mais fraco, e o tipo de disco que eu mais gostava de comprar (<em>box sets</em> de jazz ou coisa que o valha) está desaparecendo do mercado, ou, em certos casos, acervos inteiros foram transferidos a gravadoras menores, especializadas, que não distribuem produtos para lojas –e, se é pra comprar do site, melhor economizar o frete e a espera.
</p>
<p>Mas também acho meio escrotinho essa alegria meio perversa de uns e outros quanto ao colapso da grande mídia, e especialmente dos grandes jornais e revistas. É ingenuidade, picaretagem ou burrice supor que blogs e mídia social servirão mesmo como substitutos para os jornais cuja extinção parece ser causa de entusiasmo. Os jornais demoraram 200 anos para chegar aos padrões razoáveis de competência e ética que ao menos os melhores dentre eles praticam. E talento requer estrutura, e custa caro. Aos blogs noticiosos, mesmo os melhores, falta controle de qualidade. Não é que os jornais sejam infalíveis –longe disso, como todo mundo sabe. Mas se <a href="http://www.nytimes.com/2003/05/11/national/11PAPE.html">Jayson Blair</a> tivesse um blog pessoal, em lugar de trabalhar para o <em>New York Times</em>, quem é que teria flagrado as trapaças que ele costumava cometer, e feito o mea culpa e as correções requeridos? E isso sem esquecer as questões óbvias de conflito de interesses, que as velhas mídias aprenderam a patrulhar e administrar mas passam sem qualquer controle nos blogs. (Uma pessoa que tenha tempo para cobrir um determinado tópico com a mesma dedicação que um repórter demonstraria trabalha por que, por amor? Mesmo que não haja dinheiro circulando, como avaliar a objetividade de um sujeito que trabalha por amor, ou obsessão? Não que jornalistas e jornais sejam impecavelmente objetivos, mas pelo menos existem <em>checks and balances</em>. Na Web, pfui: todo mundo é marromenos <em>trekkie</em>.)
</p>
<p>Existe também a falácia de que esse tal (deus perdoe) “jornalismo cidadão” via Web vá de fato substituir as velhas mídias. As melhores empreitadas desse ramo vivem em simbiose com as mídias tradicionais, e com os recursos estabelecidos de <em>news gathering</em>. Os bons blogs jornalísticos ou noticiosos complementam, corrigem, confrontam ou analisam o que a velha mídia arremessa. Sem elas, o que existiria seria uma espécie de caixa gigante de comentários de blog povoada por malas como os que costumo ler de vez em quando nas boas casas do ramo aqui na vizinhança. <em>Not pretty</em>. E imaginar que uma moda talvez passageira como o Twitter venha a ser revolução na notícia, putz. O máximo que o Twitter faz é remeter os usuários a notícias de tamanho decente publicadas alhures. Velocidade não quer dizer qualidade. (E esses trecos sociais como o Twitter, Facebook e Wikipédia já esbarraram em número suficientemente embaraçoso de incidentes do tipo “<em>the news of my death have been greatly exaggerated</em>”). Todo mundo está cansado de saber os defeitos das velhas mídias –e isso é bom motivo para persistir um pouquinho mais em acompanhá-las, porque de muitos defeitos das mídias novas a gente ainda nem desconfia.</p>
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		</item>
		<item>
		<title>Tortura dá a maior gastura</title>
		<link>http://filthymac.apostos.com/2009/08/26/tortura-da-a-maior-gastura/</link>
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		<pubDate>Wed, 26 Aug 2009 18:11:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A única coisa que aprendi acompanhando essa bobáj foi que, <em>yo</em>, ler 18 meses de <em>rants</em> cretinos sobre tortura é o equivalente intelectual de passar por <em>waterboarding</em>.
</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img alt="realityshow.JPG" src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/02/realityshow.jpg" width="340" height="339" />
</p>
<p><span style="font-size:85%;"><strong><em>Bono vinci satius est quam almo more iniuriam vincere</em></strong></span>
</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="335" height="28" id="divplaylist"><param name="movie" value="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8296044-fb7" /><embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8296044-fb7" width="335" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"></embed></object>
</p>
<p>Na Grande História Universal das Falácias, um dos meus capítulos preferidos é aquele que dispõe que da discussão nasce a luz. Porque, ó, a maior parte dos debates sobre causas e questões que decido acompanhar leva jeito de discussão territorial entre babuínos para determinar quem bate mais no peito, quem arreganha mais os dentes, quem grunhe mais alto –uma espécie de <em>much ado</em> vem fazer glu glu, para mencionar dois crássicos em uma mesma sentença.
</p>
<p>Bom exemplo é o suposto debate sobre usos e abusos da tortura que os americanos vêm requentando ciclicamente nos últimos meses: nem o mais privilegiado dos célebros adquiriria uma gotícula de informação útil em meio ao <em>brouhaha</em>. (Em nome da honestidade, melhor declarar desde já que eu desaprovo o uso da tortura, sob quaisquer circunstâncias, por conta do mais manjado dos dilemas morais: se você precisa recorrer aos mesmos métodos vis que o seu inimigo emprega, está abandonando a superioridade moral com relação a ele. E no imenso e indistinto mundo da farinha-do-mesmo-saco, torturar prisioneiros aqui e bombardear inocentes acolá vão ficando cada vez mais parecidos.)
</p>
<p>O debate recente sobre tortura deixou de lado o aspecto moral, craro: ninguém quer arcar com o fardo de defender o indefensável, e fica muito mais prático jogar a carta da <em>realpolitik</em>: nós “precisamos” da tortura, porque usá-la permite salvar vidas inocentes. (Tem cretininho de direita que chega ao píncaro retórico de declarar que o uso de tortura pela CIA permitiu salvar “milhões” de vidas.) E aí entra a parte mais irritante do <em>imbroglio</em>: se o debate está girando em torno de resultados práticos e não de considerações morais, o próximo passo seria, então, tentar chegar a um cômputo de custo/benefício –que ataques exatamente foram revelados e impedidos pelo recurso à tortura, e mais, que ataques revelados pela tortura não poderiam ter sido revelados por outros métodos menos repulsivos.
</p>
<p>Nem preciso dizer que essa parte do, er, debate –a única que teria algum resquício de utilidade- jamais acontece, porque um dos lados alega que não se pode revelar os ataques que a tortura ajudou a impedir, já que sigilo é necessário, e o outro não se interessa por discutir os aspectos pragmáticos da tortura, porque no fundo suas objeções à prática são morais, mas ninguém tem coragem de assumir e arcar com as acusações de ingenuidade diante da vileza inimiga ou de falta de patriotismo másculo e determinação de, er, colocar as mãos na miércoles. A única coisa que aprendi acompanhando essa bobáj foi que, <em>yo</em>, ler 18 meses de <em>rants</em> cretinos sobre tortura é o equivalente intelectual de passar por <em>waterboarding</em> (e desperta uma preocupante vontade de submeter os participantes mais escandalosos da discussão aos métodos que eles discutem com repulsiva parcialidade).</p>
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