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	<title>Filthy McNasty</title>
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	<description>Mas o sol não adivinha</description>
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		<title>Their Finest Hour</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 18:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Their finest hour, 70 anos mais tarde]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/spitfiremkI.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/spitfiremkI.jpg" alt="" title="spitfiremkI" width="500" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9186" /></a> <a href="http://www.spitfireperformance.com/spitfire-I.html"><strong><span style="font-size:85%;">Spitfires Mk I</span></strong></a><span style="font-size:85%;"><strong> do Esquadrão 19*, RAF, em voo sobre Cambridgeshire</strong><br />
</span><br />
Setenta anos atrás, em agosto e setembro de 1940, a Real Força Aérea britânica infligiu a primeira derrota grave às forças armadas nazistas; na <a href="http://twitter.com/RAFDuxford1940">Batalha da Grã Bretanha</a>, que se estendeu de julho a novembro daquele ano, os britânicos impediram que a <a href="http://www.ww2.dk">Luftwaffe</a> conquistasse superioridade aérea sobre seu território, e com isso tornaram impossível qualquer tentativa de invasão alemã. Os dois lados exageraram as perdas infligidas ao adversário e minimizaram o cômputo das próprias baixas, ao longo da campanha. Mas o fato incontestável é que o número de aviões alemães abatido pelos britânicos foi sempre mais alto do que o número de aparelhos perdidos (as estimativas mais objetivas quanto ao diferencial variam de 25% a 50% em favor dos britânicos, a depender das datas de corte e dos métodos de cálculo). E ao final do período a RAF tinha mais aviões do que no começo da batalha, se bem sofresse certa escassez de pilotos experientes.</p>
<p>(O início da minha, er, paixão pela Segunda Guerra Mundial foi o <a href="http://spitfiresite.com/">Spitfire</a>, quando por acaso assisti a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=RVBO61qg-kc"><em>Battle of Britain</em></a> na TV; eu era novo demais para sentimentos românticos ou pensar em sacanáj, mas ainda lembro da minha sensação de deslumbramento diante da beleza do caça. Anos mais tarde, encontrei por acaso, no trabalho de um picareta cujo nome não citarei só de birra, toda uma teoria sobre a, er, libidinização de aviões, carros etc. pelos marmanjos. O cara citava o Spitfire explicitamente, aduzindo que os pilotos usavam o pronome “<em>she</em>” quando falavam do avião, em lugar de “<em>it</em>” [e porque eram um bando de pós-adolescentes com a vida em risco e sob fervura hormonal constante, provavelmente faziam piadinha do tipo “entrei nela e ela ronronou hehhehheh”]. Se é imaturo sentir um solavanco no coração quando me deparo com a beleza absoluta, Deus permita que eu continue a ter 12 anos para sempre. <em>Libidinize that</em>, <em>dude</em>.)</p>
<p>Os dois lados eram parelhos na qualidade dos aviões e pilotos. No campo da tática aérea, a vantagem era dos caças da <a href="http://www.lexikon-der-wehrmacht.de/inhaltsverzeichnisgliederungLw.htm">Luftwaffe</a>, que operavam em formações mais flexíveis (<a href="http://www.fighteracesonline.com/werner_molders.htm">Werner Mölders</a>, piloto que combateu na batalha da Grã-Bretanha comandando o <a href="http://www.ww2.dk/air/jagd/jg51.htm">JG 51</a>, inventou o “<a href="http://freespace.virgin.net/john.dell/bf109/Bf109tactics.html"><em>schwarm</em></a>”, a formação básica que os caças de quase todos os países passariam a usar durante a guerra). Mas os britânicos eram superiores em um quesito mais importante, que –com alguma hesitação- vou definir como software. O sistema britânico de defesa aérea abarcava não só duas cadeias de estações de radar** como toda uma rede integrada de controle, incluindo observadores, artilharia antiaérea e centrais de comando que avaliavam a ameaça aérea inimiga de maneira centralizada e atribuíam às unidades regionais do sistema o controle específico de cada batalha. O sistema britânico*** permitia que os comandantes da RAF tivessem uma visão geral sobre as operações inimigas e o status de suas forças, e que controlassem o fluxo da batalha de maneira a minimizar surpresas e concentrar recursos.</p>
<p>(No começo eu me interessava pelas engenhocas –aviões, tanques- e sabia de cor um quaquilhão de estatísticas. Com o tempo descobri que o fascínio por números, ou desempenho numérico, era um dos atributos dominantes das figurinhas mais desagradáveis da era [dizem que Hitler era capaz de recitar os números sobre penetração de blindagem de todos os canhões antitanques alemães; e isso não impediu que ele tomasse uma longa, longa série de decisões ridiculamente idiotas ao longo da guerra]. Vencer um conflito como aquele requeria não apenas uma diferença de quantidade ou qualidade estatística de equipamentos, mas uma diferença de qualidade moral; e não o afirmo no sentido de que os bons sempre hão de vencer, mas no sentido de que uma sociedade aberta –<em>given time</em>- sempre encontrará soluções melhores para seus problemas do que uma ditadura, se bem as ocasionais demoras e barganhas possam irritar os sujeitos que preferem objetividade a abrangência.)</p>
<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/hurricaneI303squadron1940.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/hurricaneI303squadron1940.jpg" alt="" title="hurricaneI303squadron1940" width="500" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9187" /></a> </strong><a href="http://www.aviation-history.com/hawker/hurrcane.html"><strong><span style="font-size:85%;">Hurricane</span></strong></a><strong><span style="font-size:85%;"> </span></strong><a href="http://www.wwiiaircraftperformance.org/hurricane/hurricane-I.html"><strong><span style="font-size:85%;">Mk I</span></strong></a><strong><span style="font-size:85%;"> e </span></strong><a href="http://www.ww2.pl/The,best,Polish,pilots,in,the,battle,of,Britain,–,ace,,Urbanowicz,,Henneberg,,Zumbach,182.html"><strong><span style="font-size:85%;">aviadores poloneses</span></strong></a><strong><span style="font-size:85%;"> do </span></strong><a href="http://www.the-battle-of-britain.co.uk/squadrons/303sqn.htm"><strong><span style="font-size:85%;">esquadrão 303</span></strong></a></p>
<p>Nos anos 20 e 30, a teoria estratégica dominante sobre as guerras do futuro pode ser resumida citando o líder político e primeiro-ministro britânico <a href="http://www.number10.gov.uk/history-and-tour/prime-ministers-in-history/stanley-baldwin">Stanley Baldwin</a>: “<a href="http://airminded.org/2007/11/10/the-bomber-will-always-get-through/"><em>The bomber will always get through</em></a>”. <a href="http://www.number10.gov.uk/history-and-tour/prime-ministers-in-history/neville-chamberlain">Neville Chamberlain</a>, o futuro <em>appeaser</em>, que substituiu Baldwin na chefia do governo em 1937, discordava de que “<em>the only defence is offence</em>, <em>which means that you have to kill more women and children more quickly than the enemy if you want to save yourself</em>”; porque a ideia lhe parecia repulsiva, pediu a <a href="http://books.google.com.br/books?id=UdXYCd0KGkoC&amp;pg=PA155&amp;lpg=PA155&amp;dq=sir+thomas+inskip&amp;source=bl&amp;ots=Y2PhKLZLVG&amp;sig=FKea3d67CZWpFPe3QwStkxqdOoI&amp;hl=en&amp;ei=5mZ6TLPhMoL88AbQ4smNBw&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=9&amp;ved=0CD4Q6AEwCA#v=onepage&amp;q=sir%20thoma"><em>Sir</em> Thomas Inskip</a>, a quem encarregou de revisar a política britânica de defesa, que procurasse maneiras de bancar um sistema de defesa contra ataques aéreos (um dos motivos, já que moral não é tudo, era o fato de que caças custavam menos do que bombardeiros). É gratificante, e talvez um pouquinho irônico, que a decisão responsável pela primeira grande derrota do regime mais imoral de todos os tempos tenha tido nascido essencialmente da decência; e é igualmente admirável que a decisão de continuar na guerra apesar da derrota de todos os aliados e das ofertas de paz dos nazistas tenha surgido de uma combinação de certeza moral e rejeição emocional: Churchill sabia com uma certeza superior a qualquer lógica que não havia acomodação possível com os nazistas, <a href="http://www.fiftiesweb.com/usa/winston-churchill-fight-beaches.htm">e convenceu o país a segui-lo</a>, ainda que àquela altura os piores excessos da Alemanha ainda estivessem no futuro e que muitos sujeitos supostamente sensatos e racionais considerassem que a paz fosse preferível.</p>
<p>(Nos anos 30, democracia ao modo tradicional do Ocidente não era a mais prestigiada das formas de governo. Comunismo e nazifascismo pareciam muito mais fortes, vivos, e só velhinhos de cartola continuavam a acreditar nas virtudes tradicionais. Mas, nos meses sombrios da segunda metade de 1940, foi um daqueles velhinhos de cartola que <a href="http://www.fiftiesweb.com/usa/winston-churchill-finest-hour.htm">salvou o mundo</a>, ou ao menos o convenceu de que salvação era possível. Passados 70 anos, em um cenário no qual a democracia tradicional parece vitoriosa, é fácil esquecer que ela um dia já foi considerada obsoleta pelos bem pensantes. [E persiste a tentação de jogar no lixo aquilo que funciona apesar dos percalços –vide a celebração infantoinfantil pela suposta “morte do capitalismo”, nos últimos anos.] Sou um dos sujeitos que se abespinham com o uso um tanto calhorda e sempre irritante do termo “<em>freedom</em>” para justificar restrições à liberdade ou aventureirismo bélico –cousa que acontecia com frequência dos anos 50 aos 80 e voltou a acontecer de 2000 em diante. Mas se o período 1929-1945 nos ensinou alguma coisa, foi que <em>one should never take freedom for granted</em>.)</p>
<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/me109down.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/me109down.jpg" alt="" title="me109down" width="434" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9188" /> </a> <a href="http://www.vectorsite.net/avbf109.html"><span style="font-size:85%;"><strong>Bf</strong></span></a><span style="font-size:85%;"><strong>-</strong></span><a href="http://www.spitfireperformance.com/spit1vrs109e.html"><span style="font-size:85%;"><strong>109</strong></span></a><span style="font-size:85%;"><strong> abatido e sob vigilância de soldado britânico, 08/1940</strong></span> </span></p>
<p>A guerra traria batalhas maiores e de resultados mais decisivos; e seria lícito argumentar que o resultado final não foi exatamente um triunfo da liberdade (já que metade da Europa ficou sob o jugo de uma ditadura tão insalubre quanto o nazismo). Mas se a RAF tivesse sido derrotada, ou se Churchill tivesse renunciado e seu sucessor optasse por uma paz negociada, o mundo inteiro sairia perdedor. (Basta comparar a França de Pétain à França de De Gaulle para perceber a diferença.) Por mais que os revisionistas malas insistam em, er, desmitificar a Batalha da Grã-Bretanha, ela não foi pouco mais que um empate técnico, e deve ser lembrada como vitória, e vitória incontestável, de cujos frutos todos continuamos a desfrutar nos “<em>broad</em>, <em>sunlit uplands</em>****” do futuro.</p>
<p>(E para mim, 35 anos depois que comecei a me interessar pelo assunto, o <a href="http://www.alexisparkinn.com/photogallery/Videos/merlin%5b1%5d.wav">som da liberdade</a> será sempre o de um motor <a href="http://www.aviation-history.com/engines/merlin.htm">Rolls-Royce Merlin</a>, e a voz da liberdade será sempre <a href="http://www.fiftiesweb.com/usa/churchill-finest-hour.mp3">a dele</a>*****.)</p>
<p><span style="font-size:85%;">* Escolhi o </span><a href="http://www.historyofwar.org/air/units/RAF/19_wwII.html"><span style="font-size:85%;">esquadrão 19</span></a><span style="font-size:85%;"> porque foi o primeiro a usar o </span><a href="http://www.youtube.com/watch?v=AliRjhH6fsU"><span style="font-size:85%;">Spitfire</span></a><span style="font-size:85%;">; a foto mostra parte do esquadrão em voo depois do começo da guerra (por conta das insígnias padrão B) mas antes de novembro de 1939 (quando o código do esquadrão mudou de WZ para QV.) Fotos autênticas (e bunitignas) do período não são tão fáceis de achar.<br />
** A invenção do radar costuma ser atribuída a </span><a href="http://www.radarpages.co.uk/people/watson-watt/watson-watt.htm"><span style="font-size:85%;">Sir Robert Watson-Watt</span></a><span style="font-size:85%;">, e a vantagem britânica na campanha aérea de 1940 é muitas vezes associada a isso; mas </span><a href="http://www.radarworld.org/germany.html"><span style="font-size:85%;">os alemães tinham sistemas de radar experimentais em operação em 1935</span></a><span style="font-size:85%;">, um ano antes do primeiro protótipo de Watson-Watt; e seus aparelhos estavam em uso na defesa dos portos do Mar do Norte desde o início da guerra, em 1939; o que lhes faltava era a organização abrangente dos britânicos.<br />
*** O chamado “</span><a href="http://margetfreebush.tripod.com/id5.html"><em><span style="font-size:85%;">Dowding System</span></em></a><span style="font-size:85%;">” –Sir </span><a href="http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/2WWdowding.htm"><span style="font-size:85%;">Hugh Dowding</span></a><span style="font-size:85%;"> liderou o Comando de Caças da RAF de sua criação, em 1936, até o final da Batalha da Grã-Bretanha, e é o principal responsável pelo desenvolvimento do sistema- continua a servir de base conceitual para as redes de defesa aérea contemporâneas.<br />
**** “Aquela que o general Weygand chamou de Batalha da França está encerrada. Minha expectativa é de que a Batalha da Grã-Bretanha esteja para começar. Desta batalha dependerá a sobrevivência da civilização cristã. Dela dependerá nossa vida britânica, e a longa continuidade de nossas instituições e de nosso império. Toda a fúria e poderio do inimigo devem em breve se voltar contra nós. Hitler sabe que terá de fazer com que esta ilha se dobre, ou perderá a guerra. Caso sejamos capazes de resistir a ele, toda a Europa poderá ser libertada e a vida do mundo poderá avançar para amplos e ensolarados planaltos. Mas caso fracassemos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo aquilo que conhecemos e apreciamos, afundará ao abismo de uma nova Era das Trevas, tornada ainda mais sinistra, e talvez mais duradoura, pelas luzes da ciência pervertida. Que estejamos preparados para nossos deveres, e nos comportemos de tal forma que, caso o Império Britânico e sua Commonwealth venham a durar mil anos, os homens ainda assim continuem a dizer, ‘aquele foi seu mais belo momento’”: taí um discurso que não consigo traduzir bem; caso a gentil leitora, o amável leitor, tenham versão melhor, favor encaminhar que eu substituo.<br />
***** Historiadores revisionistas, liderados <em>as usual</em> pelo nauseabundo nazistão David Irving, tentam há anos propagar o boato de que na verdade quem leu o discurso no rádio foi o ator Norman Shelley, e não Churchill; a patranha fica esclarecida </span><a href="http://www.winstonchurchill.org/learn/myths/myths/an-actor-read-his-speeches"><span style="font-size:85%;">aqui</span></a><span style="font-size:85%;">. <em>The facts</em>: o discurso original de Churchill no Parlamento, em 4 de junho de 1940, não foi gravado; e ele tampouco o gravou para o rádio, naquele dia. A versão que uso aqui foi gravada por ele depois da guerra, para a BBC.</span></p>
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		<title>Gunslinging Bird: Honk</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Aug 2010 00:00:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Os animais parecem estar começando a confiar de novo na gente. E não vão demorar a se arrepender.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/bird.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/bird.jpg" alt="" title="bird" width="500" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9180" /></a> <strong><span style="font-size:85%;">Técnica: Mouse quase sem pilha sobre Lenovo IdeaPad</span></strong></p>
<p>Desde a manhã de domingo, um passarinho vem me acordando a cada dia, uns 15 minutos antes do horário do despertador –qualquer que ele seja. Bucólico? Seria, se o trinado dele não fosse um terço sopranino Tetê Espíndola, um terço <strong>HONK</strong> e um terço barulho de descarga em encanamento da safra &#8220;opa, chumbo nunca foi veneno&#8221;.</p>
<p>(<em>Full disclosure</em>: tenho a mó birra de alvorada anunciada por passarinho cantando na janela, porque meu horário preferido para ir dormir é exatamente meia horinha antes de o sol nascer, ou por aí, e tem sempre uns <em>tweeties</em> desavisados que acordam mais cedo, provavelmente em obediência ao preceito de que passarinho precoce cata mais minhoca, e cismam de saudar o dia exatamente no momento mais confortável da minha noite.)</p>
<p>Hoje vi a criatura pela primeira vez. Abri a persiana devagar, no canto esquerdo da janela, e o vi, na diagonal, sobre a grade do pequeno terraço, em flagrante delito de <strong>HONK</strong>. A cabeça encimada por um tufo de penas encardidas era pequena demais para o corpo gordo e redondo, castanho e cinzento, e as asas pretas franzinas pareciam inadequadas para erguer aquele peso, da mesma forma que as pernas finas e pretas sobre as quais ele saltitava precariamente. O passarinho pareceu desviar o olhar, diante da reprovação que perder os 15 minutos finais de sono deve ter desenhado no meu rosto, mas tantos anos de canal Discovery serviram para alguma coisa e lembrei que, quando o pássaro que aparentemente está te encarando desvia a cabeça em 45 graus, é aí que o bastardinho está olhando. Pensei em abrir a porta do terraço e pregar um susto no despertador involuntário, mas hesitei, e depois do último dos 37 <strong>HONKS</strong> regulamentares ele decolou como um <a href="http://www.aviastar.org/helicopters_eng/fiat-7002.php">helicóptero italiano</a>, e voou feiamente embora.</p>
<p>Pedalando, e depois a caminho do trabalho, fiquei pensando no sujeitinho, imaginando se algum ocupante anterior do apartamento costumava servir quiche de minhoca no terraço às 6h45min -ou quatro horas mais tarde aos domingos. (Improvável, mas coisas muito mais bizarras acontecem na cidade.) Terminei concluindo que não: o feioso provavelmente presume, com razão, que a cidade é muito mais dele* do que nossa, minha. E quem sou eu para decidir o expediente, ainda mais o do proprietário?</p>
<p>(Nas áreas restauradas pelo projeto de recuperação ecológica do rio Bronx, começaram a surgir animais. Pássaros, depois esquilos, e um dia alguém fotografou uma família ou pequena manada de cervos pastando nos gramados ressurgidos. Há não muito tempo, flagraram um lobo** bebendo água do rio em um lugar que até 2007 era depósito de pneus velhos. A graça da coisa é menos a presença dos animais que o fato de que tenham aparecido voluntariamente; não eram parte do projeto. Coisas semelhantes estão acontecendo em outros lugares. Em LA, um casal de coiotes teve uma ninhada de coiotinhos no barranco por trás de uma loja de bolsas. Um porco selvagem apareceu sem explicação em um parque de Viena. Um amigo que parou de beber e voltou a se exercitar disse ter visto “tipassim uma paca” no Parque da Aclimação em SP. Hipopótamos do antigo zoológico particular de Pablo Escobar proliferam em um rio da Colômbia. Os animais parecem estar começando a confiar de novo na gente. E não vão demorar a se arrepender***.)</p>
<p>O passarinho tem cara de <em>urban brawler</em>, coloração multiétnica e voz de sujeito que reclama alto em fila de repartição: está perfeitamente em casa na metrópole –tanto quanto eu, ou um pouco mais que eu, porque quando pisam nos calos dele, ou mesmo quando não pisam, não hesita muito em voar cambaleando como helicóptero italiano de safra infame e pousar em horário incongruente sobre a grade do terraço alheio. E <strong>HONK</strong>. Difícil evitar certa inveja, e não exatamente a dos tímidos perante os desenvoltos, ou a dos vacilantes perante os decididos. É uma inveja da categoria nó górdio: quando a escolha envolve silêncio ou falar demais, e nenhum dos dois parece satisfatório, o passarinho feio que provavelmente rouba batatinha no dumpster da lanchonete ali adiante serve para lembrar que, yo, em caso de impasse o sujeito sempre pode fazer barulho em território alheio e horário inconveniente, e depois voar sem vergonha nenhuma por sobre o Pacífico. Portanto, deixo a quems de direito o meu mais sincero <a href="http://soundcloud.com/filthymcnasty/johncoltrane-feelinggood"><strong>HONK</strong></a>; e até amanhã cedo, feioso.</p>
<p><span style="font-size:85%;">* “Meu bisavô decidiu se mudar para cá porque preferia Ho-Ho [ou Ana Maria, ou profiteroles] a brotos de castanheiro”.<br />
** E o Grande Concurso de Consciência Ecológica 2010/1 vai começar quando alguém flagrar o lobo a caminho de devorar um <em>deerburger</em>: se interceder em defesa do cervídeo, o cidadão vai deixar claro que não acata a sabedoria da Mãe Natureza. (“Ah, Filthy, <em>you cold-hearted baahstard</em>, mas o veadinho é tãããão bunitigno”.)<br />
*** Como disse Ms. C. outro dia depois de um espirro peculiarmente <em>disgusting</em>, “deixa de ser fresco, mano: até os meus germes são limpinhos”.</span></p>
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		<title>Pandemônio</title>
		<link>http://filthymac.apostos.com/2010/08/07/pandemonio/</link>
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		<pubDate>Sat, 07 Aug 2010 17:37:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[No entanto, a minha tara mais recôndita, mesmo, envolve palavras formadas por prefixo de negação mas que não existem na forma afirmativa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/words.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/words.jpg" alt="" title="words" width="350" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9175" /></a> <span style="font-size:85%;"><strong>“<em>Have faith, or pandemonium is liable to </em></strong></span><a href="http://soundcloud.com/filthymcnasty/robertjohnson-hellhoundonmytrail"><span style="font-size:85%;"><strong><em>walk upon</em></strong></span></a><strong><span style="font-size:85%;"><em> the scene</em>”</span><br />
</strong><br />
Quando John Milton cunhou a palavra “Pandemonium”, o objetivo era designar o palácio infernal no qual viviam Satanás e todos os seus demoniozinhos subalternos. Confusão ou balbúrdia, os significados que hoje em dia atribuímos mais comumente ao termo, só foram associados a ele em 1865, mais ou menos dois séculos depois que “<em><a href="http://www.online-literature.com/view.php/paradiselost/10?term=pandemonium">Paradise</a> <a href="http://www.online-literature.com/view.php/paradiselost/1?term=pandemonium">Lost</a></em>” foi publicado.</p>
<p>Vida de nerd é uma miércoles. Por exemplo, mano usa a expressão “pandemônio” em um texto, razoavelmente seguro de que a forma de emprego é correta; mas encafifa. Meia dúzia de dicionários e pelo menos <a href="http://www.ciberduvidas.pt/index.php">um belo site</a> mais tarde, com a dúvida sanada em seu favor e o bônus de uma historinha bacana que ele ainda não conhecia, o nerd percebe que, opa, vai ver que foi o seu, er, subinconsciente que escolheu “pandemônio”, porque um gostinho do primeiro sentido talvez sobreviva por sob o uso moderno.</p>
<p>(Lembrei não sei bem por que de uma correspondência antiga com uma moça fascinada por bizarrias morfológicas. “Por exemplo, já que iterar é fazer ou dizer novamente, reiterar deve ser fazer pela terceira vez”, eu arrazoava com discreto toque de cabotinismo; e ela respondia com pérolas como “você ciproca que eu reciproco, bêib”. (É, eu sei, nerd realmente se diverte com muito pouco.))</p>
<p>No entanto, a minha tara mais recôndita, mesmo, envolve palavras formadas por prefixo de negação mas que não existem na forma afirmativa –a insípida declaração de uma recusa irrefragável, por exemplo, ou uma perda inelutável causada por pessoa irascível* que eu defenestraria incontinênti**. (E em inglês o passatempo é ainda mais divertido, porque uma pessoa dessas merece <em>debunking</em>, <em>for his/hers uncouth,</em> <em>reckless behavior</em>, <em>which causes dejection and elicits disdain on account of such nonchalant and insidious inanity</em>. <em>Or maybe it’s just love</em>, <em>unrequited</em>.)</p>
<p>(E se vocês ainda precisam de prova de que nós, os nerds, somos mesmo esquisitos, as palavras positivas que não há prefixo que transforme em caca me interessam bem menos. Não é melhor ser inalegre que ser triste, por exemplo, se bem “Opalão inzero” me pareça descrição bem mais honesta do que “Fiat Oggi seminovo”.)</p>
<p><span style="font-size:85%;">* Tá, eu trapaceei, nessa, mas que parece, parece.</span><br />
<span style="font-size:85%;">** Nem adianta reclamar, porque o Aulete registra.</span></p>
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		<title>Perchance to snore</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Aug 2010 23:05:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Uma das coisas que invejo nas crianças, ou recordo com saudade da infância, é a capacidade de dormir em qualquer lugar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/sleepingchild.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/sleepingchild.jpg" alt="" title="sleepingchild" width="500" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9167" /></a> <strong><em><span style="font-size:85%;">&#8220;Sleep is pain&#8217;s easiest salve, and doth fulfill all the offices of death, except to kill&#8221;</span></em></strong></p>
<p>Uma das coisas que invejo nas crianças, ou recordo com saudade da infância, é a capacidade de dormir em qualquer lugar –dentro de um armário, embaixo da cama, pendurado a meio caminho do porta-malas do carro por sobre o encosto do banco traseiro. Lili, filha de uma amiga, tem sete anos e invejável <em>sang froid</em>, porque dormiu na montanha russa (enquanto a mãe uivava como um espectro panamenho). Um amigo, R., conta que morava tão longe e acordava tão cedo para ir à escola que andava dormindo até o ponto de ônibus. E lembro nebulosamente de uma daquelas festas da baixa classe média paulistana no reino de Dom Manuel, o Venturoso, nas quais as pessoas deixavam casacos e camas sobre a cama de algum dos quartos, ao chegar; e que minha prima C., com uns três ou quatro anos de idade, quase matou a família do coração porque parecia ter desaparecido, e só foi encontrada na hora de ir embora porque estava roncando sob uma dessas pilhas de casacos.</p>
<p><em>Vecchiaia</em> significa a mó chatice pra dormir –virado pro lado esquerdo mas não pro direito, com exatamente dois travesseiros, um fino e um médio, as cobertas dispostas em ordem precisa, apertão extra na torneira do banheiro que pinga uma vez a cada 57 segundos, escolha da <a href="http://soundcloud.com/filthymcnasty/fitzgeraldbasie-imbeginningtoseethelight">música certa</a> pro despertador. (E aparentemente eu nem sou o mais chato dos dorminhões: tenho amigos e amigas que não tomam chá, não veem filmes de suspense, não começam a ler livro novo, não assistem ao noticiário, não atendem telefonema da mamma, não dormem de creme, não dormem sem creme, usam máscara, usam aqueles ridículos dilatadores de narina, põem <em>underwear</em>, tiram <em>underwear</em>, rezam, meditam, evitam pensar em safadeza com a morenona/o morenão do escritório, etc.am, evitam etc.ar, chamam o gato pra cama, expulsam o cachorro da cama, e depois de tudo isso levantam e vão ver se os filhos estão dormindo direitinho e provavelmente começam tudo outra vez.)</p>
<p>Essa semana, um episódio de pandemônio domiciliar me exilou da cama titular e me enviou a paradeiro residencial inédito, <em>slumber-wise</em>. E depois de apagar a luz ao lado da porta de entrada da biblioteca, ver o colchãozinho fininho e estreito, o lençol xadrez tirado sei lá de que gaveta, os travesseiros empilhados na posição errada, tudo isso iluminado pela luz azulada da tela do laptop posicionado do lado da protocama, lembrei da infância e de dormir todo torto no colo da nonna em viagem de ônibus a Curitiba, de me esconder dentro do baú de brinquedos pra dar um susto na minha irmã e em lugar disso cair dormindo, de sonecas na banheira das quais eu só acordava por conta do arrepio da água fria, da luta ferrenha pra me manter acordado até o fim do capítulo de um livro do Salgari. O resultado normal teria sido melancolia –“ô, como a vida era mais simples e mais bela então” (se bem os colchões fossem muito piores)-, mas que nada: o que eu senti mesmo foi o maior sono. (E acabei perdendo a hora de manhã, ainda que o Dexter Gordon tenha me chamado a cada cinco minutos pelo menos umas nove vezes.)</p>
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		<title>Freddy, o Hamster (II)</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 17:11:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Pensou sobre a chatice das festas, sobre dançar música horrível abraçado com a menina que tinha sido sua melhor amiga por 10 anos e todo mundo –e quem sabe até ele- via como sua primeira namorada compulsória.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/freddythehamster02.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/freddythehamster02.jpg" alt="" title="freddythehamster02" width="386" height="290" class="alignnone size-full wp-image-9158" /></a> <strong><em><span style="font-size:85%;">“I love computers and hot tamales”</span></em></strong></p>
<p>Nos meses necessários para que <a href="http://filthymac.apostos.com/2010/08/03/freddy-o-hamster-i/">a lápide de cartolina cor de rosa </a>primeiro desbotasse e depois se decompusesse de todo, a amizade de Márcio e Carol mudou mais ou menos tanto quanto os dois mudaram. De ligeiramente gorducho, baixinho e tenor C3, ele subitamente se tornou pernalta, anguloso e barítono F4 (e o apelido irritante que Nando sempre reservava ao irmão mudou de “Bochecha” para “Garibaldo”). Carol, magrela e até ali não muito chegada ao que chamava de “roupinha de menina”, ganhou curvas, um arsenal de batons e esmaltes de tons esdrúxulos, e repentino apreço por minissaias (e Nando, ao vê-la sair da piscina em uma tarde de fim de verão, ameaçou o irmão: “Big Bird, se você não se resolver logo com a Carol, vai aparecer algum malaco que resolva”.)</p>
<p>Oitava série era ano de rito de passagem: no segundo grau, os alunos do colégio estavam autorizados a trocar por jeans e camiseta da escola o uniforme canhestro formado por calça de moletom cor de uva e agasalho da mesma cor, e escapavam a algumas outras das obrigações e restrições chatinhas de colégio religioso –principalmente a proibição a namoro nas áreas comuns da escola. E por isso os dois últimos bimestres do ano eram basicamente uma corrida para ganhar posição, engatilhar um namoro e começar o colegial com roupa de gente e namorada/o no braço. Porque a escola era rigorosa com a disciplina e a molecada não se deslocava muito sozinha nos horários de folga, o processo transcorria por meio de uma sucessão de festas, organizadas com ou sem pretexto a cada final de semana nas casas e prédios dos colegas de turma.</p>
<p>Nando era baterista de uma banda que vivia ganhando em terceiro ou sétimo os festivais de rock que eram comuns nos colégios paulistanos da época, e a posição de irmão caçula da aristocracia do rock levava Márcio a torcer o nariz para a trilha sonora das festas, especialmente a sessão de músicas lentas que era o ponto central de cada noitada; e por uma ou duas vezes tinha rejeitado insinuações de Carol quanto a dançarem juntos. Isso queria dizer que ele em geral se refugiava em algum canto com a panelinha roqueira e zombava impiedosamente dos bailantes, sem conseguir evitar uma ponta de ciúme ao ver a amiga nos braços de conviva mais esperto.</p>
<p>A última festa da oitava série estava marcada para a casa nova da Pri, que tinha se mudado para a Chácara Flora e deixaria o colégio no final do ano, e Carol insistiu muito em que Márcio fosse; ele fez doce sem saber direito o motivo (já que costumava ir a todas as festas), dizendo que era longe, e que não sabia se teria carona. (“Não seja tonto, Má. Minha mãe leva a gente”.) Naquele dia, Carol foi embora zangada com a enrolação, e Márcio voltou para casa zangado com a zanga da amiga. Pensou sobre a chatice das festas, sobre dançar música horrível abraçado com a menina que tinha sido sua melhor amiga por 10 anos e todo mundo –e quem sabe até ele- via como sua primeira namorada compulsória. Decidiu não ir.</p>
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		<title>Freddy, o Hamster (I)</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Aug 2010 18:06:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ Am I the happy loss?
Até os 14 anos, o acontecimento mais traumático na vida de Márcio havia sido a morte de Freddy, o hamster, dois anos antes –não que ele gostasse tanto assim do roedor, que havia entrado para a família como resultado de uma das soluções pedagógicas de compromisso que sua mãe sempre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/freddythehamster01.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/freddythehamster01.jpg" alt="" title="freddythehamster01" width="288" height="278" class="alignnone size-full wp-image-9147" /></a> <strong><span style="font-size:85%;"><em>Am I the happy loss?</em></span></strong></p>
<p>Até os 14 anos, o acontecimento mais traumático na vida de Márcio havia sido a morte de Freddy, o hamster, dois anos antes –não que ele gostasse tanto assim do roedor, que havia entrado para a família como resultado de uma das soluções pedagógicas de compromisso que sua mãe sempre encontrava para deixar todo mundo miseravelmente insatisfeito (Márcio queria um sheepdog, o irmão Nando queria um husky, o pai achava que o cão ideal para um apartamento seria um salsicha, e portanto dona Sandra salomonicamente adjudicou que a família teria um hamster –que, por sugestão de Nando, o batizador oficial, logo ganhou o nome do Sr. Krueger, por conta de uma perturbadora semelhança de feições.)</p>
<p>No comparativo dos pets, hamsters só perdem em sem-gracice para as tartarugas, e o único momento cintilante de <em>bonding</em> entre Márcio e Freddy havia acontecido em uma feira de ciências do colégio, na qual ele e Carol, sua melhor amiga e parceira de laboratório perpétua, haviam usado a roda de exercício e a correria do hamster para acionar uma lâmpada. Seja pela qualidade da cenoura usada como incentivo, seja por insuspeitado amor à ribalta, o ratinho usualmente indolente havia corrido como Carl Lewis, ou pelo menos o bastante para lançar uns 10 watts de luz na sala de aula escurecida. Enquanto o pessoal aplaudia, Carol e Márcio trocaram um abraço amistoso e sem graça na penumbra: com menos de 13 anos, os dois ainda eram capazes de expressar carinho sem necessariamente pensar em sacanagem.</p>
<p>E não muitos dias depois do momento de triunfo, Freddy havia escapado da gaiolinha por uma porta mal fechada, e encontrado morte inglória no banheiro de serviço meia hora mais tarde, ao roer um fio de extensão ligado. Nando, que encontrou o corpo e descobriu as marcas escuras do choque elétrico nos dentes do bicho, foi o responsável pelo epitáfio: “Meu, como esse rato era burro”. Márcio chorou um pouquinho, mais pelo inesperado da morte do que por afeto, e Carol um tantinho mais. Com a ajuda de uma gorjeta estratégica, o zelador permitiu que o hamster fosse sepultado em um dos canteiros do prédio, sob um pequeno cartaz de cartolina que trazia uma imagem do animal, desenhada por Carol, e a inscrição “aqui jaz Freddy, o hamster mais burro do mundo”, escrita por Márcio.</p>
<p>Os dois ficaram de mãos dadas diante do sepulcro, dividindo os canais do fone de ouvido para ouvir <a href="http://www.youtube.com/watch?v=eIWBA8laiEM"><em>Tainted Love</em></a> como marcha fúnebre. (Pela data, <a href="http://soundcloud.com/filthymcnasty/echoandthebunnymen-thecutter"><em>The Cutter</em></a> seria uma escolha mais apropriada, mas Perdizes no começo dos anos 80 não vivia exatamente <em>up-to-date</em> com os lançamentos do Echo and the Bunnymen.) Depois, quando se deram conta ao mesmo tempo de que estavam de mãos dadas, se afastaram delicada e parcialmente, como siameses ligados pelo fone de ouvido. “Meu, esse Freddy era mesmo muito burro”, disse Márcio. “Mas muito fofo”, acrescentou Carol –os dois tentando sem sucesso disfarçar uma vergonha que nem sabiam bem por que sentiam.</p>
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		<title>We could (not) be heroes</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Aug 2010 16:21:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Transformar qualquer bobagem em exemplo de heroísmo não é exatamente feminização da cultura, mas sua emasculação.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/slammarshall.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/slammarshall.jpg" alt="" title="slammarshall" width="343" height="271" class="alignnone size-full wp-image-9139" /></a> <strong><span style="font-size:85%;">Slam Marshall (esq.) entrevistando soldado no Vietnã</span></strong></p>
<p>O general <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/S.L.A._Marshall">Samuel “Slam” Marshall</a> ganhou fama como um dos primeiros historiadores oficiais do exército americano, na Segunda Guerra, e em décadas posteriores seu trabalho mais famoso, “<a href="http://www.amazon.com/Men-Against-Fire-Problem-Command/dp/0806132809"><em>Men Under Fire</em></a>” (1947), baseado em entrevistas pós-combate realizadas no campo de batalha com soldados dos Estados Unidos, geraria controvérsias com a tese de que a maioria dos combatentes americanos hesitava em atirar contra o inimigo durante as batalhas.</p>
<p>Como é normal nos EUA, a controvérsia adquiriu tons políticos estridentes o bastante para dificultar uma conclusão objetiva, mas o consenso entre os historiadores militares sensatos posteriores é a de que a metodologia de Marshall era bacana e pioneira; suas conclusões, <em>not so much</em>. No entanto, mesmo consideradas as possíveis ressalvas, poucos estudiosos da guerra tiveram tanto contato direto com os combatentes, e poucos estiveram em campo por tanto tempo (Marshall serviu na Primeira Guerra Mundial, aos 18 anos, e 50 anos mais tarde, no Vietnã, ainda mantinha contato regular com os soldados no campo de batalha.)</p>
<p>Uma das observações interessantes (e não controversas) que ele faz se refere a uma mudança nos padrões de condecorações por heroísmo. Na Primeira Guerra Mundial, os soldados que tendiam a ser recomendados para as mais elevadas medalhas eram aqueles que causavam mais estrago ao inimigo (o exemplo clássico é o sargento <a href="http://www.gwpda.org/bio/xyz/york.html">Alvin York</a>, que armado com apenas uma escova de dente e um abridor de latas capturou 15 mil alemães, ou algo assim). Já na Segunda, as recomendações para medalhas passaram a destacar a abnegação de soldados dispostos a se sacrificar para salvar os companheiros (o exemplo clássico é o dos inúmeros militares que abafaram a explosão de granadas com os próprios corpos, perdendo a vida para proteger os amigos).</p>
<p>A diferença de ênfase na definição de herói é reveladora das mudanças de sentimento e percepção que aconteceram entre 1918 e 1945; mas o herói protetor da Segunda Guerra e o herói agressivo da Primeira ainda assim se encaixam facilmente à definição clássica de herói –<em>heros</em>, o semideus grego, ou <em>heros</em>, o homem dotado de força sobreumana no latim, dedicado a proteger os seus, quaisquer que sejam as consequências, em situações de conflito bélico. Já o uso posterior do termo foi se alargando de forma a afastá-lo completamente do sentido original*. (O quadro de sucessivas definições de “herói” no Houaiss é revelador: começando com “filho da união de um deus ou uma deusa com um ser humano” na acepção um, por volta da sete –&#8221;derivação, por extensão de sentido&#8221;- o dicionário já caiu a “pessoa que, por ser homenageada ou por qualquer motivo [nobre ou pouco digno], se distingue ou é centro de atenções”.)</p>
<p>Uma amiga letrada diz que a tendência é parte da feminização da cultura -a substituição das virtudes belicosas pelas virtudes relacionais- e que nada tem de perversa, “depois de milênios de admiração injustificada pela brutalidade” mimimimi. Mas eu silenciosamente discordo. Definir como herói uma pessoa que tenha dois empregos para sustentar a família, deixe de fumar ou, er, supere a dislexia e escreva comoventes memórias sobre “como eu venci o alfabeto” é tanto banalizar o heroísmo (o que nem seria problema) quanto elevar à condição de façanha realizações completamente acessíveis (e, por outro lado, servir de desculpa aos sujeitos que não conseguem arranjar emprego ou ir ao banheiro sem “manhê, acabei” ao final do processo).</p>
<p>Transformar qualquer bobagem em exemplo de heroísmo não é exatamente feminização da cultura, mas sua emasculação. E mesmo que os homens estejam de fato a caminho de se tornarem desnecessários em suas funções reprodutoras e de abertura de vidro de palmito, as velhas virtudes másculas continuarão necessárias no futuro. Se um dia eu precisar de um herói que me defenda, espero que a tarefa não caiba ao sujeito que bordou mais quadradinhos no quilt da solidariedade.</p>
<p><span style="font-size:85%;">*<em>A case in point</em>, “<em>guitar hero</em>”, que deveria ser definido como “sujeito dado a estragar canções por meio de exibições ruidosas de seu pênis substituto”.</span></p>
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		<title>Rain</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Aug 2010 05:08:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[(“A gente entediou o deus do trovão, mano”.)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/summerrain1.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/08/summerrain1.jpg" alt="" title="summerrain" width="500" height="516" class="alignnone size-full wp-image-9131" /></a> <span style="font-size:85%;"><strong>Everything’s the same (I can show you)</strong></span></p>
<p>Cinco minutos e o céu até agora azul fades to black; a conversa era sobre <a href="http://soundcloud.com/filthymcnasty/milesdavis-bluesforpablo"><em>Blues for Pablo</em> master</a> vs <em>Blues for Pablo</em> alt1, e as virtudes comparativas do solo 1:40 do Miles vs o solo 2:43. (“A gente entediou o deus do trovão, mano”.)</p>
<p>Corridinha na chuva fazendo splaft em poça. Livro embaixo da camisa. Café–refúgio com direito a fanfleto de espetáculo morbidamente fascinante. (Not quite o grande inquisidor em marionetes, mas algo como o grande irmão com trilha sonora do Abba.) “Sarjeta é muito diferente de gutter”. Sob as normas da lógica, o dia devia ter sido horrível. Só que nem. Se existe um meio do caminho entre “it’s better to burn out than it is to rust” e “if I could tell you I would let you know”, passaria pela chuva, o céu na calçada, o chiado vinil dos carros atravessando de faróis acesos o crepúsculo improvisado.</p>
<p>Choveu durante cinco horas. Foi bom, meu bem.</p>
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		<title>Xadrêiz, Travêiz</title>
		<link>http://filthymac.apostos.com/2010/07/24/xadreiz-traveiz/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 00:20:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA["And yields his throne to ruin, and Checkmate."]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/07/chessdaumier.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-9124" title="chessdaumier" src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/07/chessdaumier.jpg" alt="" width="473" height="354" /></a><span style="font-size:85%;"><strong>“<em>Timing has a lot to do with the outcome of a rain dance</em>”</strong></span></p>
<p>Minha teoria pessoal sobre o xadrez, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ecrE80rnjhw"><em>my</em></a><em> dear</em> <a href="http://www.youtube.com/watch?v=-6x12Qz21pg">L.</a> <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BaXZhlJK_Vw">S.</a>, é a de que o momento certo é mais importante do que o lance certo –o que talvez explique por que vou perder todas aquelas futuras partidas.</p>
<p>(Em jogo de posição, pouco importa o movimento, <em>let’s say for the sake of argument</em> -o que remete ao incomparável <a href="http://www.deselby.com/">De Selby</a>, que decompôs o movimento estudando um filme e propôs a teoria de que ele é formado por uma sucessão de instantes estáticos: mora na lisofofia.)</p>
<p>((No mesmo livro também tem um sujeito que lentamente se transforma em bicicleta.))</p>
<p>Que sirva só pra dizer que eu sei, <em>and it’s OK</em>. <em>Je ne </em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=K-lWM0N99MU"><em>regrette</em></a><em> rien</em>.</p>
<p><em>Your move</em>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Diário da Copa</title>
		<link>http://filthymac.apostos.com/2010/06/23/diario-da-copa/</link>
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		<pubDate>Wed, 23 Jun 2010 18:07:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>noronha</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Futebol tem alguma coisa de esperanto: um ideal bacana meio mongo na prática...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://filthymac.apostos.com/files/2010/06/robotdogs.jpg"><img src="http://filthymac.apostos.com/files/2010/06/robotdogs.jpg" alt="" title="robotdogs" width="412" height="290" class="alignnone size-full wp-image-7505" /></a><strong><span style="font-size:85%;">“Toda desvantagem tem sua vantagem” (J. C.)</span><br />
</strong><br />
Manhã gélida mas ensolarada de sábado, e 03 amigos que se conhecem há pelo menos 02 décadas saem para levar 01 cachorro (“como é que é mesmo o nome dele? Pretexto?”) a passear no parque. Nostálgico assiste rindo à troca de insultos permanente entre Sarcástico e Solícito, e os três, engalfinhados em uma discussão sobre Copa, Culpa e Cadeia (chave de), perdem Pretexto de vista. Nostálgico é o primeiro a perceber que o cachorro está mancando; ou melhor, saltitando sobre três patas; e embora Pretexto não pareça estar sentindo dores e continue a farejar os pés dos bancos, raízes de árvore e todos os canteiros do parque, os amigos, depois de um exame perfunctório (ao modo “quebrou o carro; preciso erguer o capô pra fingir que sou macho”), decidem levar o cachorro a um pronto-socorro veterinário.<br />
Depois de 15 minutos de espera são atendidos pela plantonista, uma morena cujo sorriso inevitavelmente faz pensar em perder peso; ganhar cabelo; voltar 20 anos no tempo; criar cachorros. Ela sobrevive à baba quádrupla, e devolve o cachorro 10 minutos depois, caminhando normalmente. (Diagnóstico: “Acho que ele cansou de passear”.) Descendo a escada para o estacionamento, Sarcástico solta um latido, repetido logo depois pelos dois amigos. Os três latem o caminho todo até em casa, em meio a acessos pueris de riso. Antes de deixarem o cachorro no apartamento e partirem pro almoço, Nostálgico se agacha, coça a cabeça do bicho e diz: “<em>Good boy</em>, Pretexto. <em>Good boy</em>”. Uûf.</p>
<p>*</p>
<p>Saindo do hortifruti da Humberto I na manhã de uma segunda-feira, vejo dois repositores de frutas trocando uma cotovelada sarcástica quando o narrador menciona o nome “Coentrão”: Portugal está ganhando da Coreia do Norte por dois a zero, e o televisor atrai todos os olhares masculinos (e os de pelo menos metade das mulheres). Comprador, manobrista e empacotador logo se envolvem em discussão sobre o jogo, a copa, as chances do Brasil; zombam da França, lastimam pela Itália mas acreditam que como sempre vai conseguir passar; um segundo freguês, o segurança e o japa proprietário ou gerente adensam o coro, e a conversa se estende mais ou menos pelo tempo de que Portugal precisa para saltar do um a zero para os quatro a zero (uns 15 minutos).<br />
Futebol tem alguma coisa de esperanto: um ideal bacana meio mongo na prática que permite a desocupados de todo o mundo encontrar terreno comum, se bem para nenhum propósito merecedor de elogio. (E enquanto manobro para ir embora, ouço mais um grito vindo da TV e dou risada sozinho: “<em>How many ages hence</em>/ <em>In states unborn and accents yet unknown</em>/ nêguinho vai perguntar ‘gol de quem?’”)</p>
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<p>The banter is not particularly witty –or at all. And everyone has heard that riff. But there’s still something special, unique: bonfire warmth matched by equally warm feelings, fond memories, a billion worthless moments worth so much when put together. Maybe that was the best time of my life, in hindsight. Or maybe this is –not being here, but being here after once having been there. (Or it’s most likely the booze.) Anyway, here’s the truth: it’s never what you say, but who you’re with. </p>
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