“But O that I were young again and held her in my arms!”
Uma amiga se queixou outro dia de que tinha tentado puxar papo sobre o protesto de exilados cubanos contra o apoio de Lula ao regime da famiglia Castro e que ninguém tinha dado bola, tanto no bar quanto online. E resmungou: “Se eu tivesse puxado conversa sobre sexo, todo mundo teria participado”.
Eu mesmo gosto muito pouco do PT e nada do regime cubano; Lula sempre parece especialmente cretino ao falar de relações internacionais, e seu apoio a expoentes da democracia como o Sr. Ahmadinejad e os irmãos Castro é especialmente azedo em ano no qual a candidata à presidência pelo partido dele certamente vai bater na tecla do “fui torturada pela ditadura” (tortura só num presta se praticada pela direita, aparentemente). Mas tendo a concordar com os companheiros de mesa da amiga retromencionada: muito mais divertido falar de sexo.
(Não só eu, aliás. Pouco antes de morrer, em 1939, ano um tantinho complicado, Uncle W. B. escreveu “”Politics”:
“How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?”)
Quando as pessoas preferem falar sobre sexo (ou futebol; ou os vestidos do Oscar) de preferência a falar sobre política (ou aquecimento global; ou a reforma da saúde) é comum que surjam acusações explícitas ou implícitas de leviandade. Mas o fato é que muito mais gente faz (ou gostaria de fazer) sexo do que política, e isso é prova de sensatez, não leviandade: política é uma perversão altamente especializada, e em geral muito, muito chata. E, em ocasiões sociais, o assunto tenderá ao denominador comum, qualquer que seja. Em uma mesa com 10 pessoas, duas talvez se interessem por política; as outras terminarão por emitir opiniões perfunctórias ou por falar bobáj (e os dois interessados em política, claro, fulminarão imediatamente os pobrecitos pela ousadia) –e esse é o best case scenario.
Se as 10 pessoas realmente gostarem de política, ou bem elas todas concordarão entre si, e a conversa logo vai se tornar um tedioso festival de assentimento (“apoiado, camarada Agenor!”), ou bem haverá duas alas fortemente antagônicas e a coisa desandará para resultado não muito diferente de uma discussão sobre futebol entre dois grupos de torcedores rivais –se bem que provavelmente com muito menos senso de humor. Não é que discutir política seja, er, inútil: mas decerto não é agradável, ou pelo menos raramente o foi, na minha experiência. (E as conversas políticas que me divertiram em geral envolvem pessoas consideravelmente cínicas que descem a lenha em todos os partidos, mais ou menos como eu faço em meus silenciosos monólogos de banheira sobre o assunto.)
Por algum motivo incompreensível persiste a ladainha de que as pessoas precisam se conscientizar, sobre seja lá o que for; e os sujeitos que usam o termo “conscientizar” de modo hediondamente despudorado em geral querem dizer, com isso, que as pessoas precisam concordar com a opinião deles sobre uma causa qualquer que lhes seja cara; quando Al Gore me “conscientiza” sobre o aquecimento global na verdade quer que eu aceite como verdade irrefutável a visão catastrofista que lhe serve de plataforma. A questão é muito mais complicada do que ele pinta, mas nenhum ativista deseja que suas vítimas se conscientizem tanto assim. E nenhum cidadão comum tem tempo para se dedicar com afinco às 20 mil causas sobre as quais precisaria se, er, conscientizar para levar uma vida cívica respeitável. Trabalho 55 ou 60 horas por semana, e no resto do meu tempo prefiro me informar sobre as muitas coisas que me interessam bem mais que as grandes causas do dia; uma vez mais, isso é sensatez, não leviandade. E quando enfim chego ao bar, é claro que prefiro conversar sobre sexo –porque, se alguma coisa tem de ser fodida, melhor que não seja a minha paciência.




