1 de fevereiro de 2010

Crime de guerra é esse livro

It is now life and not art that requires the willing suspension of disbelief

Leitor contumaz de genre fiction em geral abre o livro com uma combinação de expectativas e tolerâncias –um western sem pistoleiros não satisfaz às primeiras, e o fato de que westerns sempre tenham pistoleiros é relevado pelas segundas. O leitor está disposto a perdoar os clichês em nome da diversão, especialmente se o autor for habilidoso o bastante para criar plot e personagens interessantes a ponto de nos levar a esquecer todos os clichês que estão em uso ou para brincar com eles e torná-los aceitáveis. Mas escritor que trabalha com essas categorias especializadas de ficção tem a obrigação de acertar os detalhes, porque de outra forma a irritação do leitor se torna forte demais para permitir a suspension of disbelief necessária, ou para permitir a tolerância gerada pelo humor compartilhado quanto ao tratamento da fórmula.

Isso eu tô dizendo porque o thriller da vez na minha lista de leituras desrespeita praticamente tudo que estipulei acima, e a minha irritação, à altura da página 100 (e com mais 325 por ler), já avançou da categoria “queimem o livro” para a categoria “queimem o autor” (imagino que por volta da página 300 eu deva estar em “queimem Minneapolis”, ou seja lá onde mora o criminoso responsável por essa colossal perda de tempo). Normalmente eu não escrevo sobre thrillers, ou sobre plot points de thrillers, porque não quero correr o risco de estragar a surpresa para o cidadão que venha a encontrar minha opinião sobre o assunto ao desavisadamente procurar no Google; mas no caso de “Raven”, a porcaria em questão, o único spoiler alert requerido seria “reading this crap will spoil your evening”.

Não tem assunto mais pesquisado, ou comparativamente fácil de pesquisar, do que a Segunda Guerra Mundial; e se o autor pretende um plot de época (no caso, uma operação secreta britânica assassina Hitler em 1940 e o substitui por um ator, o que explica as decisões idiotas que o supremo líder viria a tomar posteriormente, e custaram à Alemanha parte considerável das suas chances de vitória na guerra), a obrigação de acertar os detalhes se torna ainda maior, porque não só é fácil obtê-los como um caminhão de gente (yours truly included) vai perceber imediatamente que estão errados. Mas isso não parece incomodar muito o Sr. Michael Murray: ele viola cronologias, entorta a organização de unidades militares e comete centos erros sobre aviões –a operação de assassinato de Hitler, conduzida em agosto de 1940, envolve um Short Stirling, um bombardeiro cuja produção havia sido iniciada naquele mês e que só entraria em operação quase um ano depois; também há menções ao Bristol Beaufighter (que só entrou em operação em outubro de 1940); a um bombardeio com De Havilland Mosquitoes (que só entrariam em operação em 1942); e a caças alemães FW-190 participando da Batalha da Grã-Bretanha, mais de um ano antes de o modelo chegar aos esquadrões alemães.

E tem mais: o Stirling, um bombardeiro quadrimotor, é usado para lançar 37 paraquedistas (quando na verdade só tinha capacidade para 20), e o plano é que ele pouse em uma pradaria e fique esperando os soldados britânicos que retornam do ataque (vide foto aí em cima para avaliar qual a probabilidade de um avião desse tamanho pousar em um gramado em plena Alemanha e passar algumas horas escondido à espera do retorno dos paraquedistas). Há muitos outros erros técnicos (os alemães estão armados com metralhadoras MG42, por exemplo, quando o nome mesmo do modelo já informa que elas entraram em operação em 1942), e todos esses que mencionei acontecem nas primeiras 50 páginas do livro (depois disso parei de anotar e comecei a abstrair, a bem da minha saúde mental). O amável leitor, a gentil leitora, pode bem estar pensando, a essa altura, que eu deveria deixar de ser chato, e que o consumidor médio do livro nem vai perceber esses defeitinhos. Mas pesquisa cocô em geral indica cérebro cocô, e se o escritor decidiu acrescentar todos esses detalhes para emprestar mais credibilidade à narrativa de época, bom, errá-los todos torna a coisa ainda mais implausível (e com isso o cara viola o compromisso tácito que citei no primeiro parágrafo, porque torna impossível a suspension of disbelief –e em história com trama tão estapafúrdia como essa, uma dose imensa é requerida).

Como eu, cês devem ter amigos médicos ou advogados que rolam de rir diante da representação que o cinema ou televisão faz sobre suas atividades -B., um amigo advogado, por exemplo, calcula que mais ou menos 95% dos advogados do cinema e televisão vençam seus casos não porque conhecem bem o Direito, mas porque trabalham bem como investigadores policiais substitutos. Eu sei que isso não faz com que o espectador médio aprecie menos a coisa; mas quem se incomoda com o espectador médio? Os caras gostam de BBB e do programa da Oprah, for cryin’ out loud. Um dos charmes da boa cultura pop sempre foi combinar diversão com alguma erudição, misturar plausível e implausível de maneira inconsútil ou pelo menos agradável; de outra forma, o que temos são aquelas novelas de época da Grobo nas quais escravos têm sotaque de pagodeiro; e, no caso desse infame “Raven”, o resultado não é engraçado nem mesmo involuntariamente. Veredicto: fuzilamento sumário.

Comentários

  1. João Marcos disse:

    Leia então sobre uma época um pouco mais dificil de se entender.

    Lords of the Bow do Iggulden (uma narrativa romanceada do Genghis Khan e sua invasão da China) é um bom livro. Gostei muito.

    No non-fiction realm, to lendo agora o The Ascent of Money (Nial Ferguson). Tem uma proposta parecida com o Every Mans a Speculator, mas é muito menos embromado e muito mais bem explicado. Tb to recomendando.

    Agora.. ô Tio Fil.. fica tanto tempo assim sem postar não, vai… nos orfãos de bons posts ficamos tristes.

  2. soaressilva disse:

    Obrigado pela resposta, Noronha. Não vai fazer um formspring? Eu te encheria de perguntas sobre thrillers e whatnot.

  3. noronha disse:

    Thiago: li KG 200, e concordo com você. Pelo menos os autores acertam a parte aeronáutica da coisa; a precisão não incomoda os leigos e satisfaz os aficionados.
    Lorde ASS: Eu deixei de ler o Clancy há tempos, porque os livros se tornaram propaganda muito escancarada de algumas causas direitistas (não que eu discorde das causas, ou de algumas delas, mas ficção a serviço de política raramente presta). Com base na minha experiência com os títulos mais antigos, e na opinião de amigos que entendem muito mais que eu de tecnologia bélica moderna, Clancy era muito preciso no começo e foi decaindo, até porque ele usa technobabble em defesa de causas políticas (por exemplo, um certo sistema de defesa antimísseis que foi cancelado pelo Congresso mas tem protótipo instalado em um navio de guerra salva o mundo da destruição atômica, etc.) Caçada ao Outubro Vermelho, dizem, é muito preciso, mas os detratores de Clancy costumam alegar que a parte técnica do livro na verdade é mérito de Larry Bond. Não tenho competência para julgar.

  4. soaressilva disse:

    Nesse ponto, especificamente, Tom Clancy é bom?

  5. Thiago disse:

    A premissa até não parece ruim (aliás, seria um jeito divertido de explicar algumas decisões imbecis mesmo), mas, de fato, essas “inaccuracies” são irritantes pra quem conhece um pouco do assunto. Se o cara acerta nisso, o resto nem precisa ser tão bom. Um exemplo com uma historinha menos ambiciosa mas com mais acertos é um livro chamado KG200, de J.D. Gilman e John Clive. É entretenimento barato, mas cumpre o que promete.

Deixe um comentário