26 de dezembro de 2009

Quartered Safe Out Here

9thborderprobynhorsemeiktila1945b9th Border e tanques do Probyn’s Horse a caminho de Meiktila, 1945

A melhor coisa que eu li em 2009, um ano em que li muita coisa boa, foi o trecho que traduzo abaixo de Quartered Safe Out Here, as memórias de guerra do romancista George MacDonald Fraser (1925-2008), que serviu na frente da Birmânia durante nove meses em 1945. O contexto do trecho envolve um ataque contra um bosque fortemente defendido pelos japoneses, próximo da cidade de Pyawbwe, no qual a seção da qual Fraser fazia parte, no 9° Batalhão do Border Regiment, perdeu quatro de seus 11 soldados –entre os quais o cabo que a comandava- em menos de um minuto:

“Era parte da guerra; alguns homens haviam morrido, outros mais viriam a morrer, e isso era passado; o que importava a partir dali era concluir a tarefa que tínhamos em mãos; aqueles que sobrevivessem levariam o trabalho adiante. Não fazia sentido falar ou refletir sobre o pesar que porventura sentíssemos, e muito menos ostentá-lo apenas por exibicionismo. Era melhor e mais saudável esquecer, e pensar no amanhã.

A celebrada fleuma britânica [stiff upper lip], a determinação de ocultar emoções que seria não apenas embaraçoso e inútil mas também prejudicial demonstrar, é simples bom senso.

Mas isso foi há meio século. Agora as coisas são diferentes, porque a mídia parece sentir que é seu dever expor extensamente as emoções – quanto mais dolorosas, melhor-, e encorajar as pessoas a expressá-las. As câmeras filmam em close as famílias em luto durante um funeral, entrevistadores futucam incessantemente para revelar pesar, dor, medo e choque, não demonstram reticência ou mesmo decência em seus esforços para causar arrepios aos telespectadores, e chafurdam em clichês sentimentais (as vítimas são sempre ‘inocentes’, os parentes são obrigatoriamente ‘entes queridos’). E a obscena intrusão é justificada como ‘caridosa’ e ‘compassiva’ quando na verdade é o exato oposto.

O lastimável é que o público adapta seu comportamento às demandas da televisão. Os parentes em luto sentem a obrigação de chorar e se lamentar diante das câmeras (e aceitam sua atenção como lisonjeira). Até mesmo os jovens soldados, em plena ação no Golfo Pérsico, confessam, diante de uma inquisição nauseabunda empreendida para forçá-los a revelar seus medos, que estão assustados –é claro que estão assustados, da mesma forma que nós estávamos, mas nenhum entrevistador em nossa época era desavergonhado, cruel ou impatriótico a ponto de nos manipular a admitir nossas fraquezas humanas para consumo público, e com isso solapar o moral público, e o nosso. Em clima como o atual, não admira que um general expresse hesitação pública quanto aos medos e as dúvidas que exercer o comando causa –Slim, Montgomery e MacArthur também os sentiam, mas prefeririam ser fuzilados a admiti-los. Conheciam o valor da fleuma.

É incalculável o dano causado ao espírito público pelas atitudes em voga, refletidas e causadas pela televisão. Ele se enfraqueceu de tal forma que qualquer pessoa que tenha sofrido perdas ou dificuldades é vista como necessitada de ‘aconselhamento’, e soldados inevitavelmente sofrem de ‘estresse traumático pós-combate’ e necessitam de assistência psiquiátrica. É difícil compreender como os londrinos sobreviveram à Blitz sem a interferência de ‘terapeutas’ desqualificados e seu cantochão de jargões, ou como a maioria esmagadora daqueles que serviram às forças armadas nos anos 40 retornaram com sucesso à vida civil sem necessidade de lavagem cerebral. É certo que uma pequena minoria deles necessitou de assistência –a guerra pode deixar cicatrizes mentais terríveis-, mas esse número se ampliará, e as cicatrizes se agravarão, em proporção à insistência de uma sociedade em invocar espectros que faríamos melhor em ignorar. Caso se diga às pessoas que elas devem sentir alguma coisa, elas não apenas a sentem mas consideram que senti-la seja tanto uma obrigação quanto um direito.

A distância entre o bosque do templo [na Birmânia] e Sheffield é imensa –e não apenas em milhas. Conheço um jovem de Liverpool que, depois do desastre em Hillsborough, decidiu abandonar o trabalho em função do pesar que sentia pelos torcedores de seu time que morreram nas arquibancadas. Ele não os conhecia, e não esteve no estádio, mas estava perturbado demais para trabalhar. (Imaginem se Grandarse ou os pilotos da Batalha da Inglaterra, que tinham muito mais motivos, houvessem se considerado perturbados demais para continuar combatendo.) Não devemos ser rigorosos demais para com o jovem em questão; ele foi condicionado a acreditar que ceder às emoções é aceitável, ou até mesmo o caminho certo, e provavelmente se sente virtuoso por tê-lo feito.

Felizmente para o mundo, a minha geração não sofria de hipocondria espiritual –mas é claro que não podíamos nos dar ao luxo de fazê-lo. Pelos padrões modernos, nós, bem como toda a população que suportou a guerra, teríamos necessidade de terapia, mas para nossa sorte não existiam terapeutas. Preciso lamentar, no entanto, que não existam ‘jornalistas’ de televisão modernos que possam voltar no tempo para perguntar a Grandarse: ‘Mas o que você sentiu quando o cabo Little foi morto?’ Eu teria gostado de ouvir a resposta”.

Notinha: O Apostos migrou do MovableType para o WordPress, que parece bem mais bacana como ferramenta, mas infelizmente não permite, por exemplo, postar músicas (ou eu não descobri como). Portanto, quem quiser ouvir Sinatra cantando The Road to Mandalay, a canção extraoficial (música de Oley Speak, letra de Rudyard Kipling) do 14° Exército britânico na Birmânia, clique aqui. A transição também causou uma certa baderna no blog –posts duplicados, problemas de alinhamento, perda de links, buscas sem resultado, etc. Com o tempo, espero resolver os problemas. Feliz 2010 a todos.

Comentários

  1. Olá, uncle Fudz. Feliz 2010!

    Bom o texto sobre a pornografia emocional da mídia.

    Pelo fim dos divãs nas trincheiras e por mais salitre no rancho.

  2. bruno disse:

    muito bom mesmo.

    lembro de ter lido o obituário do mcdonald fraser na economist e fiquei bastante curioso pra ler alguma coisa do flashman. acabei esquecendo.. você já leu, filthy?

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