August 15, 2008
(isso é uma carta de amor, yo)
“Quelque chose que sans un pli, sans une tache
J’emporte, malgré vous, et c’est... mon panache!”
the kind lady whose gift it was was certainly oh so aware of the irony in choosing the Cannondale Bad Boy Ultra as my ride. Bad Boy. And Ultra. That’s how I roll. Cencicleta. Manociclo. Variegados pedaços da minha pele espalhados por ainda mais variegados pavimentos. (Calói Berlineta com pneus brancos. Monark Aro Circular. Schwinn Varsity com o guidão ao contrário. Mercier 300 e o banco “mas quem se importa com câncer testicular”, seguida por Peugeot PX-10 “eu achei minha coluna no lixo”. “Devinci” (really?) “Magma” (reeeeally?). Trek SoHo. E agora Bad Boy. Ao lodo retorn(ei)areis. Ao asfalto. Se o acaso não tivesse escolhido Captain Has-Been como minha alcunha super-heróica, eu bem poderia ser o Homem Pavimento. (Afinal, “do chão não passa” é lema quase tão convidativo quanto o elegante “pior é possível” que enfeita o escudo de chita do clã Noronha-McNasty.)
First we feel, then we fall, and then fight, flail, falter, fake, fold, fail. But we never fly. Hardly ever: uma vez, em conjunção astral que envolveu a Calói berlineta aro 20, pintura vermelha metálica já bem descascada, pneu preto na dianteira (freável) e o branco original careca e calombudo na traseira com pára-lama removido (sem freio), e logo abaixo do guidão bambo a sirene a pilha que morrera com engasgo pífio em um dos 14 batismos flumíneos que a manobici havia recebido na sagrada seita de Evel Knievel, famous daredevil lastyear dead, e no canto oposto, pesando 945 quilos e vestindo um azul que não era nem calcinha e nem marinho, e que se a Volkswagen fosse honesta em lugar de ser a velha piranha nazista que sempre foi descreveria como “azul-cocô” (cousa que eu nunca vi mas, aposto, existe, pelo menos em algum episódio de House niquiq cantor moderninho provavelmente deve ter regravado versão cabeça de “bluer than blue, sadder than sad”), I personally flew, for once. (No terceiro córner do combate, invisível mas insidiosa, dona Gravidade, no caso sob o pseudônimo “Ladeira da Matriz” da alvissareira Monteiro Lobato -another misnomer, that, dado o fato de que a cidade abrigava apenas uma igreja, e portanto não fazia sentido distinguir, ali, entre “matriz” e “filial”, se bem o contraste, no caso, implícito sirva ao menos para remeter a outro clássico do cancioneiro universal, aquele do Lúcio Cardim em que, sobre um acorde de dó aumentado, ele lastima não poder sustentar os sonhos dela. But I –claro que involuntariamente- digress.) Então, dramatis personae: o binômio Fudilneta descendo a ladeira sem óculos, e o TL azul-cocô avançando com o cauteloso rangido do clássico motor aspirado VW 1.600, conhecido carinhosamente como “Adolf”. E, como deus ex machina: a Gravidade, papel para o qual eu escalaria Henriqueta Brieba ou Linda Hunt (se o roteiro for vendido no exteriô).
Eu nem vi direito o TL, porque vinha descendo a ladeira “na vula”, como se dizia no Brasil colônia, e quando vi, de susto, cometi o lastimável erro de carcar as mão no freio, esquecendo que só tinha um, e o errado para a ocasião. Imaginem aí o gráfico vetorial: a Calói berlineta se espatifando contra a porta traseira esquerda do TL azul-cocô e yours truly voando por sobre o teto do veículo e pousando alegremente na calçada do lado oposto, diante de um dos cinco bares da cidade que se chamavam Nossa Senhora da Aparecida. (Ou vai ver que estou confundindo porque vi Nossa Senhora da Aparecida.) First I flew, then I fell. (E as pessoas que recolheram os diversos pedaços de Fudílson deixados pela queda todas concordam em que, logo depois que minha trajetória balística completou sua parábola, eu estava rindo o tempo todo.) Take that, Neil Armstrong, you cunt: no rocket required. (O que remete a ainda outro exemplo de magistral humor que só fica realmente engraçado se o punch line for pronunciado em falso argentino: “Míra, mamacita, sin los dientes!”)
Míra, mamacita, sin absolutamente tudo (menos a cuequinha de franela, por motivos que o inverno torna –ho ho ho- menos evidentes). Primeiro comiseramos, depois caímos. (E esta é uma carta de amor, viu, vê se não esquece.) “Comiserar”: palavra imensamente brasileira, ainda que exista em uma resma de idiomas. (Show de João Gilberto no TomBrasil, 10 anos atrás. Ele como sempre uma hora atrasado, chegando ao palco para enfrentar platéia paulista e portanto ainda mais hostil. Primeiro tentou uma convoluta história sobre aviões congestionados girando em círculos sôfregos sobre Congonhas, mas, diante dos rosnados remanescentes dos espectadores, contou uma história sobre o Ivan Lessa. “Eu tenho um amigo, um escritor brasileiro que mora em Londres, o Ivan Lessa. Pois é. Na secretária eletrônica dele, a mensagem diz: ‘Alô, aqui é o Ivan Lessa. Coitâââdo’” [com um mergulho de oitava e meia nas duas sílabas finais do “coitado”]. Míra, mamacita, eu não estou reclamando da pele que deixei nos pavimentos, porque meu testamento estipula que eu seja transformado em piche (de preferência post-mortem) e usado para recapear alguma via sobremodo hedionda –o Minhocão, a FDR Drive. E muito menos estou reclamando do asfalto na pele, because a bitumen body becomes me: it makes me tougher, and the rain that comes in through the cracks, mamacita, tastes fresher, tastes sweeter, than any other water. Então é mais ou menos isso, mon sincère lecteur, meu dessemelhante desirmão: Aqui é o Noronha, coitââââdo. Por favor não deixe sua mensagem. (And to those few of you who so richly deserve it, fica o meu cordial fuck you so very much.)
