Filthy McNasty

goodness gracious, great balls of fire

August 16, 2008

(isso ainda é uma carta de amor, meu)

santacruz.JPG
“que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda”

“A última flor do bócio”, eu gostaria muito de bazofiar no boteco, “quem deflorou fui eu”: porque já-comi talvez seja o mais genuinamente brasileiro dos sentimentos, ainda mais se, como sói acontecer com grande freqüência nos, er, anais do já-comismo, a declaração não tiver base nos fatos. Mas o já-comi dos mano que nunca-comeu carrega deselegante, melancólica lisonja: pô, meu, como eu gostaria de ter comido!

“Essa sua mania de escrever texto metade em inglês, Fuds, é mó inrritante, meu” (ou, se o crítico for metido a engraçadinho, “somewhat aggravating” ho ho ho). É, mesmo. (E melhor nem falar sobre a mania de escrever deliberadamente errado: “populismo, doença infantil do ecumenisno”, argo assim.) Mas permitam-me, brasileiramente, transformar em desculpa o obrigatório mea-culpa: meu pobrema com a última flor do fóssil é simples caso de amor não correspondido. Eu cortejo, argumento, mando frô e caixa de bombom Garoto, e ela sorri brejeiramente uma convidativa desculpa. É sempre “não”, mas “não” similar nacional, repleto de sutílimas nuanças de reversibilidade, dimóddusqui embora eu continue a voltar rejeitado para casa, chutando lata por édito de sua majestade Roberto Carlos I, há sempre uma réstia de esperança (o que indica que a última flor do vício seja roxa e nasça com desconfortável freqüência no coração dos corinthianos. É nóis, mano.)

E a verdade é que eu amo tudinho nela, até mesmo as coisas que detesto: a inconsistência coesa, a inflexibilidade que de repente, embora fórrrtinha e varicosa, saltita pelo tablado qual ginasta que acrobaticamente manipule o pandeiro (o póprio). Eu amo os escritores ruins e chatos que no meio da chorumela aparecem com uma definição inesquecível (Camilo desdenhando um peralvilho com o epíteto “Tenório minhoto”, Quintana propondo “de uns verdes buritis a cismadora tribo” como chave de ouro para um soneto inexistente). Eu amo o que o outro lá definiu inesquecivelmente como “a contribuição milionária de todos os erros”, e amo do mesmo modo a contribuição mesquinha de todos os acertos (e tenho a coleção de recortes de “Questões Vernáculas” se algum dia o meretrício magistrado solicitar provas do-cu-men-tais).


(Houve época em que eu queria escrever uma versão bananil de Hamlet como jogral de vogais. O “A”, pronunciado longo e grave à maneira do “a” de “coitââââdo, (vide post anterior), decepcionado. O “Ê”, pronunciado do grave para o agudo e com um ponto de exclamação inferido, entusiástico. O “É”, acompanhado por reticências não grafadas, precaveria. O “I”, seguido por um som de h ainda que h não tenha som, expressaria mistura de irritação e advertência. O “Ô”, enfático, daria peso a qualquer argumento –“deixa de ser bobo, ô”. O “Ó”, além da acepção exclamativa, também serviria como indicador –“mã, ó lá o vô”. E o “U”: em versão monocórdica, o apupo -UUUUUUUUUU!-, e em versão de centro tonal oscilatório o assustador barúio do fantasma -uúûUúUuûUuûúUUu.)

Mas nunca foi exatamente amor, né, gente? (Ainda que isto aqui, não esqueça, seja também e principalmente outra carta de amor.) Eu não diria que exatamente odiamei os fedífragos encantos da Terra de Santa Cruz (aos pés da cuja qual, ô, você se ajoelhou); mais exatamente desdenhamei, ou adorsprezei –e tudo bem porque, mesmo que palavras-valise sejam especialmente desconfortáveis em português, a gente sempre pode obter os serviços de uma CriançaPobre© para ajudar a carregar, o que, aliás, acarreta como efeito acessório promover a circulação da inexplicável cédula de R$ 2 (e eu explico: você usa a nota de R$ 2 para dar como gorjeta à CriançaPobre©, porque gorjeta de R$ 1 é coisa de pão-duro, meu.)

Vozes: eu ouço, o que poderia servir como um bom adesivo paranormal para o vidro traseiro do TL mas no meu caso merece interpretação literal. O japonês de camisa colorida e dente de ouro que era dono de uma loja na rua da Mooca e atraía freguesas apontando para o vestido na vitrine e dizendo “má êéh sêdâ púrâ, béêláh, pégâh nêlíh pra ocê vê”. Ou o deputado que rebateu ao “vosselência é um ladrão safado” do opositor com um “e vossecelência é um filho da puta”. Ou a voz enfadonha e ridiculamente pretensiosa inferida daquele aviso em que a gente é instado a verificar antes de entrar no elevador Atlas(ado) se “o mesmo” se encontra parado no andar. Ou os Garotos Podres no backing vocal comovidamente ABCDOG de “Papai Noel Velho Batuta”. Ou uma vez mais João Gilberto (se um dia tiverem de escolher mesmo um Papa brasileiro, eu proponho a candidatura de João Gilberto; não, Papa não é o posto correto: Dalai Lama, talvez), na cirurgia radical da letra em sua versão de “Lígia”, na decisão de não pronunciar o nome da indigitada até o final da lamúria –e, claro, naquele milimétrico “benzinho” antes da repetição final de “saudade fez um samba em seu lugar”. Se alguma coisa explica o meu amor jamais correspondido pelo idioma, pelas pessoas que o inventam, pelo país que o emprega com o mesmo admirável/repulsivo descuido que demonstra no consumo de tantos outros recursos ditos inesgotáveis, é esse marrrdito “benzinho”: porque “benzinho”, meu, é irremissivelmente cafona como expressão de afeto e deveria vir acompanhado no dicionário pela ressalva “uso irônico”, mas, mesmo assim, na canção, faz, er, saltitar o coração. (E uma moça que fala só um pouquinho de português me disse ainda outro dia que, se eu tivesse coração, ele seria brasileiro. Pois é, benzinho, você como sempre tem toda razão: saudade fez um solo em seu lugar.)

Posted by noronha at 11:05 AM



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