Filthy McNasty

presenteia os ricos e GÓSPI nos pobres

July 03, 2008

Terapia de casais

couplescounseling.JPG
The first 50 years are the hardest.

Entre as coisas slightly trashy que não fiz mas admito me causam inexplicável fascinação, terapia de casais vem logo abaixo de blind date. Eu nunca fiz análise, mas não considero que seja necessariamente picaretagem (ao menos no sentido de que a proporção de analistas picaretas não me parece superior à de médicos, adevogados ou consultores financeiros picaretas). Consigo até imaginar as vantagens da prática–que uma amiga outro dia definiu como “um jeito de me ajudar a me traduzir para idioma que eu entenda”. No mínimo, já que egotrip é a forma de turismo predileta dos últimos 50 anos, não me parece absurdo pagar pelos serviços de um bom guia de viagem.

Mas terapia de casais soa mais uh oh. Se os clichês e as cenas de humor que a gente lê ou vê sobre a cousa procedem, é apavorante a ponto de ser engraçado. Mas imagino que esses exageros cômicos não reflitam o que realmente acontece no processo, e duvido que pessoas sensatas se submetessem ao treco por mais de uma sessão caso ele fosse tão cretino quanto a cultura pop o pinta. Ou seja, acredito que talvez haja alguma coisa de válido ou útil em terapia de casal conduzida por gente séria. Mas mesmo assim tenho um pobrema filosófico com a cousa.

Se o terapeuta está lá em certa medida para servir como mediador entre Mr. Self-Righteous e Mrs. Holier-than-Thou, eu duvido um pouco que o processo possa funcionar, porque mediação depende de um campo neutro ao qual as duas partes estejam se referindo. Por exemplo, quando duas empresas estão brigando quanto a um contrato e recorrem a um mediador qualquer, o mediador tem o contrato como referência; se o qüiproquó envolve a Justiça, a lei é o referencial. Mas qual é o termo neutro de referência entre os dois membros de um casal? O contrato que existe entre eles, para além do aspecto legal do contrato de casamento em si, não é regido por um estatuto claro a que o mediador possa se referir. Amor, casamento, relacionamentos afetivos são feitos de um emaranhado de pressupostos, entendimentos tácitos, compromissos formais e informais, usos e costumes, cegueiras estratégicas. Como é que um mediador, por mais competente que seja, pode adjudicar alguma coisa com base nisso?

Resta a possibilidade, então, de que o terapeuta não seja mediador, mas sim uma espécie de cheerleader da compreensão mútua. Pode ser que isso tenha valor para alguns casais, mas eu duvido um pouco que adulto realmente consiga levar a sério um processo que inevitavelmente vai descambar ou em troca de acusações mútuas na qual o terapeuta serve marromenos de paredão de squash, ou em uma sucessão de expressões pias e hipócritas de vontade de mudar -marromenos como adolescentes em encontro de jovens. A sensação que tenho, sem nunca ter passado pelo processo, é a de que terapia de casais talvez seja menos um esforço para resolver o que há de errado no casamento do que um carnê de desculpa para a separação inevitável –“bom, Maria Alice [ou João Alfredo], como você está vendo, fiz tudo que pude”.

(Mas essa bobáj toda na verdade me ocorreu porque outro dia fiquei tentando imaginar o que é que um casal que acaba de passar por uma sessão de terapia conjugal poderia conversar no carro, a caminho de casa. E não consegui imaginar nada além de silêncio ligeiramente ressentido ou uma eclosão da gritaria que os dois talvez tivessem contido no consultório para não causar escândalo. Até que percebi que o único assunto seguro de conversa numa situação como essa seria zombar do ou da terapeuta. E talvez seja isso que uma terapia bem sucedida proporciona: um alvo comum para a zombaria combinada em que as pessoas apaixonadas costumam se envolver contra o resto da humanidade. Detonar o terapeuta em uníssono talvez propicie uma nostálgica viagem cúmplice ao passado, e vai ver que é porque se dispõem a servir de alvo que esses mano têm a coragem de fazer coisas como traçar os contornos de uma caixa invisível no ar com a ponta dos dedos e dizer que "neste espaço você pode dizer tudo que pensa em completa segurança" -desde que pague em dia os duzentão ou trezentão por hora.)

Posted by noronha at 10:14 AM



Comments

Lu: Sez the fastest divorc(e)e in the West. ;-)
Ana: Sei que sua forma preferencial de terapia de casais envolve o uso de lupara (não esqueço aquele post, não.) Real life, as they say, intervened (quanto ao sumiço temporário).

Posted by: McNasty at July 29, 2008 01:21 PM


Oi, Caro,

Como anda você? Sempre um prazer passear pelas suas páginas.

Quanto ao tema...Eu, romântica-incorrigível que sou, acredito que o único mediador possível para um casal que cogita este tipo de terapia é um advogado...Isto, se ainda for possível fazer uma separação não litigiosa :o))

beijos, Ana.

Posted by: Ana at July 28, 2008 10:12 PM


É melhor ficar mal casado do que fazer isso. rs

Posted by: M.Luiza at July 3, 2008 01:38 PM


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