Filthy McNasty

presenteia os ricos e GÓSPI nos pobres

July 01, 2008

Meu pobrema com Stephen Hawking

hawking.JPG
It is not clear that intelligence has any long-term survival value”.

Vou começar ressalvando que não tenho nada contra Stephen-Hawking-a-pessoa (a idéia inicial desse post, aliás, era comemorar os 20 anos de “A Brief History of Time”, que saiu em 1988, vendeu 10 milhões de cópias em todo o mundo e, reza a lenda, é o best seller menos lido de todos os tempos). Hawking é evidentemente um sujeito de imensa capacidade intelectual que conseguiu realizar uma carreira brilhante apesar de uma doença devastadora, e o fato de que qualquer resfriado já me desanima profundamente de cumprir meus deveres basta para que eu respeite muito o sujeito. Quer dizer, não pretendo proceder aqui a nenhum debunking do, er, mito Stephen Hawking, até porque me faltam competência e conhecimento para debater as contribuições dele ao avanço da ciência.

Mas o “Stephen Hawking” sobre o qual a gente costuma ler não é Stephen Hawking, e sim uma mistura de monstrengo simpático e caricatura que parece criado sob encomenda para um mau roteiro –o gênio da ciência em cadeira de rodas e falando por sintetizador de voz, que persiste em seu trabalho apesar de todos os percalços porque acredita na salvação da humanidade. Só falta colocar o cara em uma nave com tripulação multiétnica e multinacional que sai ao espaço para evitar a destruição da Terra por um cometa ou meteoro marvado. At the risk of sounding rude, pelo menos parte da fama que torna “Stephen Hawking” sinônimo do, er, milagre da ciência aos olhos da rafaméia deriva do encanto perene da humanidade pela freakitude. Um sujeito que fizesse exatamente a mesma contribuição científica que ele e fosse parecido com o meu tio Evilásio seria tão ignorado por nós e pela mídia quanto os outros 10 mil cosmologistas. Na era do ET, é permissível sentir fascínio por qualquer personagem essencialmente porque ele é (visto como) freakas long as he is a nice freak.

Hawking não é bobo e aproveita esse fascínio um tanto mórbido para promover um monte de causas meritórias (e dar cacetada no governo Blair pela incompetência monstro na gestão da pesquisa científica). Mas temo que a contaminação de Hawking-o-cientista (cujas teorias deveriam ser debatidas com exatamente o mesmo respeito -ou falta de- conferido às de qualquer sujeito que não sofra de ALS), por “Hawking”, o mistura-de-Spock-com-Yoda-on-wheels, resulte essencialmente em desconsiderar o seu trabalho. As comparações com Einstein, que o precedeu como cientista louco bonzinho nos anais da cultura pop, e com Isaac Newton, que 340 anos atrás ocupava a mesma cátedra da qual Hawking hoje é titular em Cambridge, são mais um tributo cretino ao embuste da, er, superação do que avaliação realista de seu possível gênio (e outro dos traços respeitáveis de Hawking é que, ao menos em seus trabalhos de vulgarização científica, ele não alardeie nem demais nem de menos sua contribuição pessoal para a ciência). O esforço meio patético, meio calhorda da mídia (ou será da gente?) para agigantar o doentinho na verdade faz com que a doença pareça maior do que ele: uma tremenda sacanagem para com pessoas de qualquer tamanho.

Posted by noronha at 10:09 AM



Comments

"Quantas pessoas sabem que Machado de Assis era mulato? E eu não estou dizendo que ser mulato é um defeito, claro que não."
Está brincando, né? Todo mundo que sabe quem foi Machado de Assis. É como perguntar quantas pessoas sabem que Lenin era russo. E não estou dizendo que ser russo seja defeito (não mais que ser comunista pelo menos).

Posted by: Júlio at July 2, 2008 07:35 PM


Jorge: Pois é, mas no caso dele ainda tem o fator Aleijadinho, o que gera ainda mais pieguice.
Alexandre: Yup. Não é muito diferente de reportagem do canal E sobre, digamos, "a pintura abstrata de Scarlett Johansson".
Nonny: Cê correria o risco de alguém comentar "nossa, que cérebro ENOOOORME". ;-)

Posted by: McNasty at July 1, 2008 06:37 PM


Eu vou aproveitar o santo anonimato e aproveitar prá confessar uma versão disso aí que você fala: eu já fantasiei ser um Hawking: como um cérebro gigante, poderoso, sem corpo, sem ter de me preocupar com o corpo, a casa, as contas, o amor, o sexo, a dieta, o dinheiro. Só um big cérebro pensando coisas complicadas e nobres o tempo todo.

Posted by: anonymous at July 1, 2008 04:47 PM


Não sabia que o livro estava fazendo vinte anos, e por acaso baixei o documentário ontem e comecei a ver - ficando meio impaciente com o tempo que eles dedicam a mostrar a infância e o cotidiano do Stephen Hawking, quando o que eu queria era ver o tal do Universo, né?

Posted by: Alexandre S. at July 1, 2008 04:03 PM


Mas temo que a contaminação de Hawking-o-cientista (cujas teorias deveriam ser debatidas com exatamente o mesmo respeito -ou falta de- conferido às de qualquer sujeito que não sofra de ALS), por “Hawking”, o mistura-de-Spock-com-Yoda-on-wheels, resulte essencialmente em desconsiderar o seu trabalho.

Esse fenomeno, o do gênio estereotipado que é mais conhecido por uma característica do que por seu real talento, não começou com Hawkins. tem muito gênio por aí que é a caricatura de si mesmo. O citado Newton, por exemplo, era o gênio cabação, que morreu virgem, por se dedicar esclusivamente às pesquisas e aos estudos.

Mozart, também, era uma caricatura para consumo das massas, o do garotinho genial que tocava piano melhor que muita gente grande. O Mozart, menino prodígio da música, por muitos anos obscureceu o compositor genial.

Corand, o escritor, era muito citado como um prodígio linguistíco, o roceiro da Ucrânia de origem polaca que aprendeu a falar inglês tão bem que ganhou um diploma de capitão da marinha mercante inglesa, e depois foi autor de Lord Jim, o coração das trevas, entre outros. Ele também foi mais admirado como um prodígio línguistico que como um autor genial, por muito tempo.

Enfim, casos como o de Hawking não são raros na história da humanidade. Se o trabalho dele tiver algum valor, sua doença e sua luta para superar sua doença serão esquecidas. Quantas pessoas sabem que Machado de Assis era mulato? E eu não estou dizendo que ser mulato é um defeito, claro que não.

Posted by: Jorge Nobre at July 1, 2008 01:36 PM


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