Filthy McNasty

pack your kit, choose your hypocrite

April 30, 2008

We're not gonna take it

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Atriz japonesa se preparando para cena de sexo PG-13

Nos felizes anos em que Uncle Filthy trabalhou como acólito de Satanás numa agência de publicidade, evidentemente princípios não eram preocupação essencial (minha campanha predileta sempre foi a de uma bebida para bebês feita de napalm). Mas mesmo assim saí derrotado de algumas batalhas cuja lembrança ainda incomoda. A principal delas foi a grande Guerra da Refrescância. O freguês, em um acesso de cretinice que só quem já trabalhou com zécutivo de marketing conseguirá imaginar, decidiu que a nova campanha de um creme dental incluiria a hedionda palavra “refrescância”. Ousadamente, decidi oferecer um neologismo: “Ô, seu criente, e se a gente inventasse uma palavra menas feia que poderia significar a mesma coisa que refrescância? Tipassim, frescor?” O cliente fez cara de nojinho e, apesar dos meus 25 protestos, o neologismo “frescor” foi rejeitado em nome da elegante “refrescância” –e assim nasceu um monstro. (Tenho certeza de que o motivo para a rejeição de “frescor”, que o cliente não podia revelar para não ferir a correção política, era que “frescor” obviamente deve ser coisa de fresco. E, se bem refrescância seja coisa de mongo, no confronto entre fresco e mongo, mongo sempre vence.)

Tem também o caso do nojento termo “inicialização”, infligido aos pobres usuários brasilófonos por obra daquela outra entidade satânica, a Microsoft. Algum idiota no mundo da informática decidiu que o verbo “initiate” só se aplicava em inglês no sentido de “informar(-se), instruir(-se) nos segredos de uma técnica ou de uma arte”, ainda que tecnicamente initiate seja sinônimo pleno de “begin” ou “start”. Aí, algum outro idiota microsoftiano decidiu que o português devia sofrer a mesma tortura, e tascou o “inicializar” no ruíndows. Por força do uso, o termo acabou até incluído no dicionário, embora seu Houaiss o defina como forma “n. pref. de iniciar”. No matter: Satanás venceu travêiz.

Levei outra goleada em mais um dos meus ramos de atuação quando uma sagaz agência de notícias para a qual eu trabalhava ocasionalmente decidiu que o termo “sniper”, então em uso por conta daquele sujeito que tinha matado sei lá quantas pessoas em Washington, devia ser traduzido por “franco-atirador”. Uncle Filthy obtemperou: “Mas, dona editora, franco-atirador não quer dizer isso; franc-tireur era, na origem, um civil que combatia voluntariamente para defender o país de invasão, na era da Revolução Francesa e na guerra franco-prussiana”. E sugeri que “atirador de tocaia”, “atirador de precisão” ou, wow, só “atirador”, mesmo, seriam traduções bem miló para “sniper”. Que nada. Ficou “franco-atirador” (e ainda tive de ouvir que “atirador de tocaia” era “coisa de nordestino”). Só adispois me toquei que a fonte da brilhante tradução era aquele filme ruinzinho que em inglês se chama “The Deer Hunter” e em português virou “O Franco-Atirador”. Ou seja, uma empresa que fornece texto a um zilhão de veículos jornalísticos preferiu ignorar o que diz o dicionário e basear sua tradução no trabalho dos mesmos jênhös que transformaram “After Hours” em “Depois de Horas”.

E tem também a questão das cenas de sexo em que o homem pode aparecer sem camisa, mas de calça, e a mulher pode aparecer sem calça, mas de sutiã, pra satisfazer os requisitos da censura. “Mas, gente, quem etc. 75% vestido o tempo todo, for cryin’ out loud? Se é pra colocar cena de sexo assim, melhor não colocar nenhuma*”. Tsc-tsc generalizado: “O pobrema, jovem Fudílson, é que mudança de catigoria de censura pode custar 17% da audiência, e cenas de sexo atraem o público-alvo”. Então tá. Vai ver que eu é que sou idiota. (Esse post sobre irritação tanto explica quanto anuncia minhas férias, como sempre imerecidas. Volto daqui a algumas semanas. Behave.)

* E de qualquer jeito seria melhor colocar nenhuma, anyway.

Posted by noronha at 11:18 AM



Comments

Filthy, trabalhar em tradução técnica é ser pago para ser "sniper" da língua portuguesa. Quantas vezes não tive que escrever frases como "o escopo crítico da tarefa" (o que não quer dizer nada, claro). Não que eu não sugerisse coisas melhores, mas o contato da Grande Empresa do Ramo de Petróleo ficava até irritado com meus "neologismos". Afinal, "task" é sempre "tarefa", não importando o contexto; e "scope" pode ser traduzido mais graciosamente como "âmbito", mas who cares. E "crítico" em português não tem esse sentido de "crucial" - exceto na cabecinha "acrítica" do zécutivo.

Posted by: Simone at May 8, 2008 02:05 PM


Me parece que esse era exatamente o ponto do post, Mevisto e Humberto. Por que inventar uma palavra feia como refrescância, no primeiro caso? E por que inventar um verbo inútil como initialize, no segundo, quando em uso técnico já existia o initiate com o sentido de começar? (P. ex. initiate the ignition sequence.) O inventor inventou initialize no sentido de começar porque achou que initiate só queria dizer iniciar no sentido de introduzir a alguma coisa, como um rito. Ergo, duplamente idiota.

Posted by: Craudjo at May 7, 2008 12:50 PM


Pena que inicialização não tem nada a ver com "início" (exceto, talvez, por ser uma coisa que acontece durante o início). O verbo original no inglês (da década de 60 pelo menos, muito pré-Microsoft) é _initialize_ ...

Posted by: Humberto Massa at May 7, 2008 11:14 AM


'refrescância' não é o mesmo que 'frescor'

refrescância é a qualidade ativa daquilo que refresca

frescor é uma característica daquilo que está fresco

você brinca com as palavras (adorei 'zécutivo') mas... não deixa os outros brincarem?

mas 'inicializar' é mesmo do cão

Posted by: Mevisto at May 6, 2008 06:46 PM


We're note gonna take it, no caso, é lógico que significa: nós não vamos pegar isso. Seja lá o que "isso" for. :P
E só Jesus salva das palavrinhas do demo. Socorro.

Posted by: Monix at May 5, 2008 05:26 PM


Sweet vacation, sweetheart! Elas não tem como não ser ótimas, pois são com Ms. Smelly McDirty.

Preciso linkar isso. Não vou perguntar se posso.

Eu sempre te encontro. All my luv from your stalker.

Posted by: belly at May 5, 2008 04:33 PM


Pra ver como a gente não conhece bem os vizinhos.
Quer dizer que você já trabalhou como acólito de Satanás? :-)

Acho que “Ô, seu criente, e se a gente inventasse uma palavra menas feia" só perde para uma outra, que não é minha mas que eu presenciei: "Seu cliente, não é chamada que é ruim. É o senhor que é brocha".

Boas férias.

Posted by: NG at April 30, 2008 05:28 PM


Noronha, boas férias. Aproveita pra rever The Deer Hunter - o filme merece mais uma chance. A cena do casamento, com aquela banda horrivel tocando "I can't take my eyes off of you", e o Robert De Niro olhando, apaixonado, a Meryl Streep, que é namorada do seu melhor amigo, putz, que cena.
Abs!

Posted by: FDR at April 30, 2008 12:59 PM


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