Filthy McNasty

pack your kit, choose your hypocrite

April 28, 2008

Jaw-Jaw

oscarwilde.JPG
Dialogue is a necessary evil

Outro dia assisti a uns pedaços da mais recente versão cinematográfica do “Being Earnest” e, ainda que houvesse cenas realmente engraçadas (especialmente as que envolviam Ms. Dench), voltei a sentir o incômodo que muitas vezes me assalta quando leio Wilde, ou mesmo quando vejo o texto dele falado, o que faz diferença, suponho, se o assunto da pendenga é o trabalho de um dramasturbo. (Eu até imagino a impaciente leitora, o relutante leitor, rosnando baixinho e pensando, “ai, lá vai o Fudílson falar mal de um cara que escreve 532 vêiz melhor que ele.) Lá vou, indeed, mesmo que concorde com o selo Certified Genius 1.9 que vem grudado nas capas de livros do dândi de Dublin.

Eu nunca tinha conseguido identificar o que me incomoda nos diálogos engraçadíssimos de Wilde, mas dessa vez percebi: eles funcionam não como uma conversa entre duas pessoas, mas como uma espécie de partida de tênis entre dois livros de citações humorísticas. A impressão que me fica é a de que Wilde concebia aquelas falas perfeitas e depois mais ou menos encaixava personagens em torno delas. Um dos indicadores disso é o fato de que todo mundo fala igual, nas peças dele –a mesma concisão cortante, as mesmas peculiaridades de expressão. Por mais que os aristocratas e a alta burguesia da era vitoriana vivessem em circuito fechado, essa homogeneidade do wit me incomoda um pouco. (Wodehouse, pr’exemplo, que escreve diálogos tão engraçados e reconhecíveis quanto os de Wilde, se preocupa mais em atribuir às diferentes catigorias de personagens características de fala mais distintas –que podem ser caricatas, granted, mas pelo menos representam mais de um modelo de caricatura).

O parágrafo acima já me define como torcedor do esquadrão, er, realista, no campo do diálogo: falas que pareçam se ajustar “naturalmente” a cada personagem e suas origens, situação, idiossincrasias. Mas qualquer pessoa que já tenha tentado escrever diálogos, ou preste atenção a eles, sabe que diálogo em filme, teatro ou livro tem pouco em comum com uma conversa de verdade. Em um filme, diálogos servem a funções estruturais e narrativas (além de precisarem ser bons como diálogo propriamente dito); conversas são mais fluidas, mais dispersas, e talvez mais divertidas porque desembestam mais em direções inesperadas. É difícil capturar isso em um filme, e talvez ainda mais difícil em livro, a começar pela questão das convenções de notação. Sem me arrogar status de literato, mas pra citar um exemplo que conheço, sujeito que prefere escrever diálogo dentro do parágrafo, como eu, ocasionalmente enfrenta dificuldades nas cenas pingue-pongue. Por outro lado, diálogo ao modo da convenção tradicional (travessão e pula linha) dispersa a unidade dos parágrafos. Ainda que eu escreva já faz pelo menas umas duas semanas, ainda não descobri qual é a melhor solução para isso. (E muitos escritores parecem enfrentar o mesmo pobrema.)

Gente que ganha a vida mercadejando narrativas costuma dizer que diálogos são a parte mais difícil do negócio. Eu concordo –se é possível encontrar defeito até em diálogo de Oscar Wilde, a tarefa certamente parece intransponível para os sujeitos muito menos talentosos que continuam a enfrentar o mesmo desafio. Mas descobrir o que sempre senti como errado nos diálogos dele pelo menos me ajudou a definir as (minhas) normas do diálogo ideal: o treco tem que parecer uma espécie de versão paralela, depurada, de uma conversa real, o que inclui certa dose de dispersão, respeito às idiossincracias, apego às peculiaridades de cada uma das falas envolvidas –mas de preferência sem recorrer a recursos odiosos como os bordões; o treco também tem de atender às necessidades narrativas –estabelecer o que precisa ser estabelecido, revelar o que precisa ser revelado, suscitar as inferências requeridas, esconder o que só deve ser contado mais tarde; o treco precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre particularismo e universalidade, entre época e eterno-presente; e, acima de tudo, o treco precisa ser engraçado. Não é à toa que bons diálogos sejam raros. (Pra não dizer que num elogiei ninguém, leiam a cena 1 de “Reservoir Dogs: apesar do excesso de “fucks”, atende a todos os requisitos que listei aí em cima, e continua a ser a única coisa genial que Tarantino fez na vida.)

Posted by noronha at 11:05 AM



Comments

Comentário ousado, amigo. A genialidade do Wilde está registrada em cartório não só nos chistes dos diálogos. A arquitetura e o timing da trama são absolutamente perfeitos. Não há uma cena a mais ou a menos. Corre tão leve que até parece fácil de fazer...
Quanto à sua proposta específica de como fazer diálogos, isso depende estilo e dos objetivos do gênio em questão. Para a proposta do Wilde de retratar a sociedade vitoriana com sua moral dúbia, sendo também uma personalidade indecisa, com cada pé em uma canoa, ser mordaz e frívolo fazia mais sentido do que ser realista.
Enfim, o estilo é o homem. Ou o homem é o estilo.
Além disso, ele estava mais interessado em falar dele mesmo do que dos outros. Daí que os diálogos eram todos "iguais". Aquelas ladies e aqueles sobrinhos entediados eram, todos, ele mesmo.

Posted by: Marcos Kohler at May 3, 2008 08:13 AM


Quem consegue colocar diálogos no texto sem perder a unidade dos parágrafos é o Saramago. Quer dizer, que parágrafos?

Posted by: Cássio at April 30, 2008 05:07 PM


Rodrigo: Concordo quanto ao Earnest -mas foi exatamente naquele questionário de Lady Augusta com Jack que percebi o lado tênis do Wilde pela primeira vez. Aí, generalizei, as usual. ;-)
Matamoros: Eu não vou dar pedrada, basicamente porque de Nélson só conheço o trabalho jornalístico e a magnífica gravação de "Boêmia, aqui me tens de regresso". As peças confesso que nunca li, ou assisti, movido pelo trauma de firme brasileiro ruim em que Lucélia Santos exibia as pudendas. Cê pode perfeitamente ter razão. Dia desses tiro a prova.

Posted by: McNasty at April 29, 2008 11:58 AM


Provavelmente você vai me dar umas pedradas, mas acho que o Nelson Rodrigues, em muitas peças, consegue fazer diálogos muito bons, que funcionam e conseguem "parecer uma espécie de versão paralela, depurada, de uma conversa real". Pronto, já disse. Que venham as pedradas
Um abraço,
Marcos

Posted by: Marcos Matamoros at April 28, 2008 11:59 AM


me parece que as comédias do wilde eram pretextos para os diálogos. tanto que todo mundo cita os witticisms mas ninguém lembra dos enredos.

(mas acho que em "the imprortance..." não é bem assim. até por isso ela é a melhor comédia de wilde. pelo que lembro, os personagens do algernon e do jack têm wits e personalidades bem diferentes. mas é bem verdade que o wit de lady augusta e o do sobrinho são praticamente indiscerníveis um do outro.)

Posted by: rodrigo de lemos at April 28, 2008 11:39 AM


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