Filthy McNasty

pack your kit, choose your hypocrite

April 25, 2008

Feeling Jabored

rich.JPG
A rich man is nothing but a poor man with money

Eu não tenho muita opinião sobre o caso da menina assassinada (e isso quer dizer que, se o Daniel Dantas ou outro desses empresários maquiavélicos que compram blogs quiser fazer uma oferta, tô disposto a defender qualquer opinião sobre o assunto por aqui –tipo, “a menina era a versão brasileira do Damian”; ou “quem matou foi a ministra Dilma”. Ofertas pela caixa postal serão bem-vindas, e o clã Noronha [quite literally] penhorado agradece).

Em linhas gerais, concordo com o que a percuciente confreira Nariz Gelado tem a dizer sobre o tema: como é que alguém em seu juízo perfeito pode se espantar com a indignação das pessoas diante de um crime como esse? Mas ainda que concorde com ela, não concordo nem um pouco com um vídeo do Arnaldo Jabor que ela recomendou por lá –e nem é porque Jabor, pro meu gosto, seja o mais acabado exemplo de intelecoboçal brasileiro (e é).

Eu antipatizo com o Jabor, admito (se os malas da geração dele fossem submetidos a uma gag order perpétua, sei que eu não reagiria com a minha habitual defesa instintiva da liberdade de expressão). Isso não significa que eu sempre discorde das opiniões de Jabor, ou que me oponha automaticamente a qualquer coisa que ele diga simplesmente porque foi ele que disse. Mas bastam alguns segundos de vídeo para que o lídimo cineasta dispare: “E não há miséria nem ignorância nesse crime. Essa família é rica”. Pronto. Temos aí um jaborismo.

Tem pelo menas três coisas que me aporrinham nesse jaborismo. A primeira é a odiosa mania dos telequituau/artista brasileiro de falar mal dos “brasileiros ricos”, como se eles mesmos não fossem brasileiros ricos (no caso de Jabor com certeza mais rico do que a família cuja suposta riqueza ele estava implicitamente criticando), e como se tivessem um dia feito qualquer coisa de prático pra tornar menos pobres os outros brasileiros, cuja falta de riqueza os isenta de acusações. Mas não: os jabores fingem que não são ricos e posam de bonzinhos, convenientemente escamoteando o fato de que, tipassim, a grana que a Embrafilme usava pra financiar os filmes do Jabor poderia e deveria ter sido investida em qualquer coisa que deixasse a pobraiada brasileira nem que uns merréis menos pobre.

A segunda coisa que me incomoda em “não há ignorância e miséria nesse crime” é o pressuposto de que ignorância e miséria tornariam mais perdoáveis crimes como jogar criança de prédio ou incendiar a nonnigna nonagenária em sua cadeira de rodas. O sêo Aristóteles mesmo parece concordar –“a pobreza é a mãe da revolução e do crime”-, mas há crimes e crimes. É admissível, e até louvável, que miséria seja alegada como atenuante quando um sujeito é apanhado afanando comida porque a família passa fome, mas é completamente ridículo alegar riqueza e grau de educação como agravantes em casos hediondos. O casal que matou a menina –se é que o casal matou a menina- mereceria ser tratado com o mesmo rigor se tivesse primeiro grau incompleto ou Ph.D. em Oxford; de outra forma, a gente estaria simplesmente invertendo aquela ridícula lei brasileira que garante regime de prisão especial com base no grau de educação do criminoso, e não com base na gravidade do crime.

Por fim, a porção mais repugnante do jaborismo du jour: a pressuposição de que pobre seja intrinsecamente mais bruto, e menos capaz de se ater às normas morais que todos os homens de bem deveriam seguir. Quando um suposto humanista e (social-)democrata como Jabor dá a entender que a “riqueza” da família torna o que eles fizeram ainda mais inaceitável, ele na verdade está dizendo que o mesmo crime seria mais aceitável se cometido por pobres –porque os pobres são menos iguais, claro, e menos capazes de exibir discernimento moral ou de evitar o recurso à brutalidade. Em suma, o suposto ataque de Jabor aos ricos é, na verdade, um tremendo insulto aos 99,99999% de pobres que não agridem e assassinam, e nunca jogaram por janela alguma os filhos deles ou os filhos dos outros. Os pobres brasileiros continuam pobres em larga medida porque os sujeitos que os defendem são todos parecidos com Arnaldo Jabor: adoram enfatizar a perfídia dos ricos e as virtudes dos pobres, mas mal conseguem ocultar a opinião de que jogar criança pela janela é coisa de pobre.

Posted by noronha at 10:45 AM



Comments

Obrigado. I stand corrected.

Mas, pô, "sedition" é uma tradução bem melhor que "revolution"...

Posted by: Pedro Sette Câmara at April 29, 2008 01:42 PM


Lorde ASS, os jênhös da geração do Jabor acham que qualquer pessoa que tenha banheiro dentro de casa é rica. ;-)

Posted by: McNasty at April 27, 2008 11:43 PM


De acordo quanto ao Jabor ser uma besta, mas o casal lá é rico mesmo? Tinham uma cara de classe média-baixa quando eu vi.

De qualquer forma eu perdi a simpatia por eles quando uma repórter perguntou "O que você acha das acusações de que você jogou a menina pela janela", e ele respondeu "Isso não existe". Sempre que alguém diz "Isso não existe" querendo dizer "Isso é absurdo" eu deixo de sentir pena na hora.

Posted by: Alexandre S. at April 27, 2008 11:13 PM


Humberto: "Deformidade moral", boa definição. Vou afanar qualquer dia desses.
Samuel: Pois é. Difícil julgar intenção. A interpretação que você sugere é plausível.
Helena: Tem gente que posa de inteligente mas ocasionalmente parece meio jaburro. :-)
Pedro: Tá em Política, livro 2, parte VI. Na tradução Jowett: "The neglect of this subject, which in existing states is so common, is a never-failing cause of poverty among the citizens; and poverty is the parent of revolution and crime". Na tradução Ellis, ele dá "and to neglect this, as is done in several cities, is to bring certain poverty on the citizens; and poverty is the cause of sedition and evil".

Posted by: McNasty at April 26, 2008 07:19 PM


Creio que Aristóteles jamais escreveu essa frase... Isso se estivermos falando do Aristóteles de Estagira, e não de algum Aristóteles relacionado ao caso Isabella que a minha prodigiosa incultura em relação às atualidades me faça desconhecer.

Posted by: Pedro Sette Câmara at April 26, 2008 03:58 PM


Clap, clap, clap. Muito boa sua análise do jabourismo.

Posted by: Helê at April 26, 2008 03:17 PM


Ah, claro, Nariz, as idéias tacanhas. O maior sucesso do Bolsa Família é mesmo a sutentação de uma pobreza (in)digna (se bem que, já que os beneficiários do programa são eleitores de seu baLULArte, tal pobreza, tal troca, o voto pela esmola, é merecida). Mas eu posso ter sido injusto, embora ache que não, com o Jabor (eu nem cheguei a ver o vídeo que eu só poderia ter visto - meu PC está sem áudio). A frase "E não há miséria nem ignorância nesse crime. Essa família é rica" pode servir também, embora seu uso seja temerário, pra contestar o preconceito subjacente em algumas mentes de que atos hediondos só são praticados por pessoas pobres. A obviedade de que isso é falso é que me leva a crer que a frase não foi usada com esse intuito.

Posted by: Samuel at April 26, 2008 11:08 AM


É interessante analisar esse caso por outro ângulo, sem essa superexploração que o acontecido tem sofrido há três semanas. Mérito. O Jabor, creio, é sintoma de uma espécie de deformidade moral que me traz à lembrança um texto do Slavoj Zizek - "Bem-vindo ao deserto do real!" - onde há a sugestão de que a violência é encarada conforme o local de nascedouro. No 11 de setembro americano, as câmeras filmam tudo de longe, sem exposição, nem sofrimento. Já no Oriente Médio, é possível encontrar tomadas de corpos em putrefação. No segundo caso, atribuiu-se a violência como algo natural, enquanto no primeiro as coisas só escaparam à pitoresca normalidade.

Posted by: hcampos at April 25, 2008 04:01 PM


Nariz: Pois é. Locupletemo-nos todos, como propunha o saldözö Jênio Quadros.
Samuel: Não é o preconceito dos jabores que conserva os pobres pobres, mas as idéias econômicas tacanhas que eles passaram décadas defendendo, no poder ou na oposição. O melhor jeito de resolver o pobrema da pobreza sempre foi facilitar que os pobres enriqueçam, e não tentar prover a eles uma pobreza díguína. Mas intelectual de esquerda adora pobreza díguína. ;-)

Posted by: McNasty at April 25, 2008 02:26 PM


Corrente, né? Diogo que indica Janaína que indica Filthy. Gostei do texto. "E não há miséria nem ignorância nesse crime. Essa família é rica" é de lascar! Só não sei como se demonstraria que "Os pobres brasileiros continuam pobres em larga medida porque os sujeitos que os defendem são todos parecidos com Arnaldo Jabor (...)". Quer dizer que o preconceito de nossos pretensos intelectuais (um cinesta, pelamor de Deus!) é que mantém "em larga medida" os pobres pobres?

Posted by: Samuel at April 25, 2008 02:10 PM


Noronha, este "percuciente" me deixou fina pacas.
E eu concordo com o que você diz sobre o Jabor e seus companheiros intelectuais. Mas vamos combinar que o "linchamento das evidências" é uma senhora de uma expressão. :-)

Beijo e bom findi.

Ps.: eu já tinha pensado numa campanha coletiva do tipo "Dantas, estamos levando a fama; queremos deitar na grana". Será que funciona? :p

Posted by: Nariz Gelado at April 25, 2008 11:31 AM


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