Filthy McNasty

pack your kit, choose your hypocrite

March 03, 2008

Sem vergonha do cocô

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The art of progress is to preserve order amid change

Uma das graças salvadoras da Internet é o poder avassalador de despejar bobagem. Tem aquela famosa citação (atribuída a uma penca de gente, entre as quais o bi-derrotado Adlai Stevenson), de que cabe aos editores de jornal separar o joio do trigo, e aí publicar o joio (aliás, por falar nisso, o que é exatamente o, ou um, joio? Uma gosma? Uma caquinha? Uma criatura perebenta?) Na Internéte, a rede mundial de computadores supermoderna, joio, trigo e complementos ainda mais insalubres (tipassim salgadinhos Ebicen) não são separados, e a promiscuidade que enlaça graça inefável e tosquice indelével continua a ser motivo para que eu relute em abandonar a Web como abandonei tantas outras mídias.

A case in point é a uma minimanchete que durou cerca de 24 horas na homepage de um dos 27 sites que dizem ser o maior portal do Brasil: “Não tenha medo ou vergonha de olhar seu cocô”, recomendava um nutricionista. É um conselho indispensável, amável leitor, gentil leitora, se bem eu não consiga imaginar muitas situações em que a gente possa de fato ter medo do cocô (ele vai fazer o que, sair do vaso como uma mistura entre Mr. Hankey e Bruce Lee, e cobrir a gente de dropkicks amarrãozados?) Mas olhar o cocô e não ter vergonha dele é um perfeito resumo dos pendores da civilização hodierna. (A distância entre “não ter vergonha de” e “sentir orgulho” por, afinal, é a mais curta que existe, e não deve demorar muito para que as pessoas passem a preservar cocô na privada sem dar descarga a fim de mostrar aos amigos: “Olha, Maria Alice, fui eu que fiz”.)

Tem gente que me conhece razoavelmente bem e dá risada quando insisto em me classificar como conservador; e, se a definição de conservadorismo utilizada estiver relacionada estritamente a assuntos políticos ou sociais, mea culpa: não sou exatamente o mais ortodoxo dos direitecas. Mas tenho a mais completa certeza de que sou conservador da maneira que talvez mais (me) importe: não considero que mudança seja intrinsecamente benéfico, ou positivo, e tendo a desconfiar sempre de que muito bebê vai pelo ralo com a água do banho da mudança, muito trigo termina se juntando ao joio na caçamba da reciclagem. Mudar, em suma, me incomoda, não tanto pelo medo do novo (que eu decerto sinto) mas também porque detesto deixar para trás as coisas que me são caras e sei não poderei recuperar; a cada vez que abro uma porta da esperança, o faço sabendo que inúmeras outras serão fechadas (e, afinal, eu posso estar trocando um jogo estofado da Tamakavy por um reles Brasilino).

Assim, minha decisão de deixar os Wunderblogs, um grupo que me acolheu com imensa gentileza e no qual sempre fui muito bem tratado por todo mundo (com exceção do Marcelo Rota, aquele viadinho), e estacionar meu Dodge Polara 1974 no frondoso jardim dos Apostos (que abriga alguns amigos e outros tantos blogs que admiro), envolve as duas coisas que mencionei aí em cima: meu medo de mudar (e meu medo talvez ainda maior de change for the sake of change), e a contemplação desavergonhada do cocô, no caso minha deserção atrabiliária de um grupo que vou continuar admirando e respeitando de longe, como fazia antes de ser convidado a integrá-lo. "Cê enrolou, enrolou e não explicou nada, Fuds", a gentil leitora e o amável leitor poderiam aduzir (e se o fizessem não seriam tão gentis ou amáveis, I might add). Pois é. Não expliquei e não vou explicar. Assim, com um obrigado aos mano de lá e um “yo, dudes” aos mano daqui, let’s get it started. (Prometo postar quase todo mês.)

Posted by noronha at 07:22 PM



Comments

Nossa. Primeiro, antes de olhar o cocô é preciso que ele saia e, caramba, esse pareceu difícil. Mas tá. Aonde você for eu vô tamém. Ainda mais se for pra perto do Ruy. Tá limpeza.

Posted by: san at March 14, 2008 03:55 PM


Mas você sempre foi um caso em que a conservação é extremamente bemvinda. Conserve-se assim mesmo, dude.

Posted by: Hermenauta at March 6, 2008 03:07 PM


E o joio é a parte do trigo que te faz ficar dodói até fenecer. Mas não se aflija, a genética já removeu o joio do trigo em definitivo, contribuindo para o fim de mais uma frase feita circulando na face da terra (ops, outra).

Posted by: Leonardo at March 6, 2008 05:38 AM


ô, que gente difícil.

:)

Posted by: olivia at March 4, 2008 06:29 PM


Vejo que estou lendo cada vez mais Apostos. Parabéns ao portal e a você pela "aquisição".

Posted by: Marcus at March 4, 2008 06:10 PM


Eu tenho um estofado da Fábrica de Móveis Brasil (Tá?), lá no meu espaço também. Às vezes coloco plástico para que os convidados que têm a péssima mania de pisar no sofá fiquem constrangidos. Geralmente não se constrangem, titio. A gente tenta. Feliz ingresso (hummmm) nos Apostos. O que era bom no Wunder é bom aqui também.

Posted by: marie tourvel at March 4, 2008 10:31 AM


Vou ter que atualizar minha lista de links de novo! Mas tudo bem...

Posted by: Claudio at March 4, 2008 09:32 AM


Bom ressalvar que nem todos os conservadores temos fixação na primeira fase froidiana, né?

Posted by: mauro at March 4, 2008 09:19 AM


Como vizinho e conservador também, dou as boas vindas!

Posted by: Antonio Fernando Borges at March 4, 2008 03:43 AM


Pois sim, e espero que continue o mesmo Mcnasty de sempre, porque também sou conservador. Abração.

Posted by: Danilo mattos at March 4, 2008 01:09 AM


Bem vindo, camarada! Abraços, Márcio Guilherme.

Posted by: Márcio Guilherme at March 3, 2008 09:36 PM


Bem-vindo, companheiro.

Posted by: david at March 3, 2008 09:32 PM


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