Filthy McNasty

goodness gracious, great balls of fire

March 21, 2008

Pendura, Sebastião


(Análise intelectual impecável da crise, cortesia do Paulo.)

Alan Greenspan, cujos anos finais de gestão do Fed são provavelmente a causa mais direta da bolha dos imóveis e da conseqüente caquinha financeira que ameaça varrer o planeta, escreveu um artigo para o Financial Times esta semana defendendo que os governos sejam moderados na adoção de medidas de regulamentação, depois da crise, porque isso poderia, er, sufocar o mercado. É uma posição clássica, usualmente expressa por chavões como “quem causa recessão é o governo, não o mercado”, e eu tendo a concordar com ela, ainda que meu apego ao fetiche do livre mercado se vincule mais ao “livre” do que ao “mercado” (em resumo, eu gostaria de ter menos governo em todo lugar; mas quanto ao mercado muito mais gente concorda comigo do que sobre outras áreas).

Tendo em vista o que aconteceu nos últimos meses, é evidentemente ridículo reclamar de excesso de regulamentação, ainda que muita gente nas finanças estivesse envolvida em um movimento para derrubar a Lei Sarbanes-Oxley, adotada em 2002 nos EUA para enrijecer a fiscalização depois da leva de escândalos relacionados ao estouro da bolha da Internet (Enron, WorldCom, etc.). A Lei Sarbanes-Oxley pode ter lá seus defeitos (ainda que a tentativa do deputado Ron Paul de fazer campanha presidencial usando essa questão como tema lhe tenha valido um magistral 915° lugar entre os pré-candidatos republicanos), mas, dude, alegar que regulamentação demais é o pobrema requer cojones de titânio (o que muitos desses caras devem ter, já que o dinheiro dos insiders está todo correndo para as commodities).

Entender a crise não é fácil (vide as tentativas de David Leonhardt, em um excelente artigo para o NYT), mas permitam-me oferecer um similar nacionar pesquisado pelo nosso intrépido correspondente Fudílson Noronha. É assim: o seu Sebastião tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça “na caderneta” aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o preço que os pinguços pagam pelo crédito). O gerente do banco do seu Sebastião, um intrépido administrador formado em curso de emibiêi, decide que, yo, a caderneta das dívidas do bar constitui, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia. Uns seis zécutivos e bancos mais tarde, a caderneta do seu Sebastião se transformou em CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer, e está sendo negociada como se fosse título sério nos mercados de 33 países. Até que alguém descobre que os bêubo da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar a conta do boteco.

Quando Greenspan acautela contra regulamentação excessiva, ele efetivamente está dizendo que uma intervenção regulatória qualquer que tivesse impedido a caderneta do seu Sebastião de chegar a Wall Street representa agressão ao princípio do livre mercado. No entanto, a exemplo de conceitos como “zero absoluto de temperatura” ou “gravidade zero”, “livre mercado” é uma abstração. E se a abstração tem lá sua utilidade como referencial, ela de jeito nenhum pode ou deve ser transformada em dogma. O fato mesmo de que regulamentação seja necessária para garantir, pr’exemplo, a livre competição, que é uma das pedras fundamentais do livre mercado, demonstra a distância entre teoria e prática. Dizer que o mercado vai tomar conta do mercado, o que pode até ser verdade em longo prazo, é prova de espantoso cinismo da parte de caras diretamente responsáveis por trilhões em prejuízos que agora serão direta ou indiretamente bancados pelos contribuintes. Se eu ainda tivesse crédito no boteco do seu Sebastião, juro que tentava esquecer tomando uma cachaça.

Posted by noronha at 11:00 AM



Comments

Você viu que no FT o Martin Wolf, que está para os jornalistas econômicos assim como... como... não me ocorreu nenhum exemplo onde o expoente esteja a tantos anos-luz da média, disse exatamente o contrário do Greenspan? Que depois da operação salvamento do Bear Stearns o lobby da desregulamentação financeira pode continuar funcionando, mas que, "intellectually, their position is now untenable".

Posted by: F.Arranhaponte at March 26, 2008 11:13 PM


O exemplo dos recebíveis do bar do seu Sebastião é a melhor explicação para a crise que eu já li. Até os bêbados que freqüentavam o boteco que um tio meu tinha no Largo de Pinheiros há uns 25 anos conseguiriam entender :).
Um abraço,
Marcos

Posted by: Marcos Matamoros at March 23, 2008 08:27 PM


Paulo, thanks. (Com a sua licença, tasquei a sugestão no post.) ;-)
San: Fiado passaminhã.
Fix: Pois. Muitos dos participantes do mercado foram, digamos, insuficientemente informados sobre os riscos, e muito banco grande se comportou desonestamente na crise. (O Bear, por exemplo, tinha índice de inadimplência de 15% nas hipotecas de sua carteira ou garantidas por ele, ante 8,4% para o mercado em geral, e ninguém soube por meses.) Ou seja, tinha muita gente gambling sem saber que estava no cassino. Segundo, tem o chamado moral hazard -as autoridades não podem deixar ninguém falir por conta do tal risco sistêmico, e picaretas como Jimmy Cayne, do Bear, vão escapar incólumes e biliardários. Os contribuintes vão pagar a esbórnia do mercado, as usual. Nos anos 80, na crise das junk bonds (e os títulos hipotecários atuais deveriam se apresentar dizendo "the name is Bond. Junk Bond") as otoridad não só deixaram a Drexel quebrar como tascaram Michael Milken na cadeia. (Tudo bem que tinha pista de golfe. Mas.)

Posted by: McNasty at March 21, 2008 11:49 PM


Gostaria de colocar na conversa, a discussão sobre os mecanismos de controle embutidos no sistema, que teriam o papel de demonstrar a natureza desses produtos financeiros. Porque eles não funcionaram? Empacotar essas dívidas de risco em produtos chamando-os de CDOs para então revender as dívidas no mercadão internacional é suficiente para mascarar a qualidade de papel podre das mesmas? Mesmo sendo misturada a papéis bons, seria isso o suficiente para mascarar a natureza do risco? Me parece que o problema não esta no processo de endividamento em si, ora, se empresas querem fazer empréstimos de risco para aumentar seu lucro, que façam. Se investidores querem então fazer um “gamble” , beleza. Sabendo que se trata de um produto de alto risco, o cara vai dosar na carteira dele, expondo-se mais ou menos de acordo com sua estratégia. Investidores certamente tem um método, que deveria impedir apostas somente em papeis ruins, afinal a sobrevivência de suas firmas depende de dar lucro, e faz parte do jogo não arriscar tudo de uma vez só. Eu não sei se me faço claro, mas meu ponto aqui é: Num mercado onde existe abundancia de informações a respeito dos produtos. A possibilidade de quebrar a cara seria suficiente para impedir uma euforia aposta generalizada em papeis de alto risco. Olha, o esquema do boteco do Seu Sebastião é divida de alto risco, vamos emprestar somente 20% da nossa grana em negócios dessa natureza, porque se os bêbados não pagarem ao seu Sebá, fodeu a garga. Não existem leis claras de transparência que obrigam quem vende os tais CDOs dizer oque catzo compõe esse produto?

Posted by: FIXtheMAD at March 21, 2008 10:10 PM


É, Claudio, sempre nóis. Pior que foi um nêgo lá na Miriam Leitoa e disse que, patati patatá, essa crise é igual ou pior que a de 29.

Quesque? Mas isso não é ruim pacará? Como é que tudumundo parece diboa? Tá tudo under the influence? Só virando uma pra esquecer mesmo.

Ô, Bastião: um hi-fi e dois ôvo rosa, faz favor. Na pendura.

Posted by: san at March 21, 2008 09:48 PM


A explicação mais exata da crise ainda é a de George Parr:

http://youtube.com/watch?v=SJ_qK4g6ntM

Posted by: paulo at March 21, 2008 07:00 PM


Mas o problema não é emprestar dinheiro ao boteco, Humberto -é securitizar o empréstimo e empacotar o resultado em quatro gerações de derivativos diferentes sem que ninguém saiba exatamente o que o pacote contém, até que um bagulho que era evidentemente ativo de risco (ou seja, digno de classificação como junk bond) termina papel AAA. Um dos motivos da paralisia do mercado, além do medão dos investidores, é o fato de que é impossível formar preço para os derivativos porque ninguém sabe o que eles realmente representam -the house that Jack built (ou pelo menas comprou, como no seu exemplo), a caderneta do seu Sebastião, as intenções de Ano Novo negociadas na ICE, as próteses mamárias do sindicato das dançarinas exóticas de Las Vegas... ;-)

Posted by: McNasty at March 21, 2008 05:32 PM


Que coisa, hein? Até de economia você comenta. Fiquei instigado com esse artigo e dediquei alguns minutos a este tema, então peguei a “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”(col. Os economistas, Abril Cultural), do Keynes, aqui na estante do meu quarto e pus-me a pesquisar alguma coisa a respeito da expectativa do produtor em receber. Bom, no capítulo 5, intitulado “A expectativa como elemento determinante do produto e do emprego”, Keynes tenta empregar um sentido mais lógico a esse negócio tão particular e subjetivo que é a expectativa. Como bom economista, não serve pra nada definir um conceito pelo que ele é, mas sim explicar pra que o dito cujo serve. É o que ele faz.

No primeiro parágrafo, temos:
“Toda produção se destina, em última análise, a satisfazer o consumidor. Normalmente decorre algum tempo – às vezes bastante – entre o momento em que o produtor assume os custos (tendo em vista o consumidor) e o da compra da produção pelo consumidor final. Enquanto isso, o empresário (aplicando-se esta designação tanto ao produtor quanto ao investidor) tem de fazer as melhores previsões que lhe são possíveis sobre o que os consumidores estarão dispostos a pagar-lhe quando, após um lapso de tempo que pode ser considerável, estiver em condições de os satisfazer (direta ou indiretamente); e não lhe resta outra alternativa senão guiar-se por estas previsões, se sua produção tem de ser realizada, de qualquer forma, por processos que requerem tempo.” (p.46)

O autor sofistica o discurso e afirma que existem dois tipos de expectativa: a de curto e a de longo prazo. A expectativa de curto prazo está relacionada com o agente econômico que quer ver logo sua produção revertida em lucro. Detém os produtos já acabados e quer revendê-los. Usando seu exemplo, é o caso do “seu” Sebastião, que precisa vender as bebidas do estoque. Já a expectativa em longo prazo é manifestada pelo empresário desejoso em extrair rendimentos futuros. Então ele pode esperar. Como exemplo, são as financeiras que transformaram a dívida do “seu” Sebastião em títulos aplicáveis no mercado financeiro.

O interesse do Keynes é pensar como essas coisas se relacionam para produzir mais ou menos emprego. Mas o autor lança uma observação que nos ajuda a deduzir alguma coisa. Ele diz que o Sebastião continua vendendo fiado com a expectativa de receber porque “resultados mais recentes desempenham papel predominante”(p.48) em sua iniciativa. Ele esquece o passado – tudo certo, perdoa quem deu calote, fazer o quê? – e continua com a caderneta porque tem gente que paga. Ou seja, ele não manteria o serviço se ninguém pagasse. Só que alguns pagam.

Daí que os homens do mercado financeiro enxergam uma pontinha de confiabilidade no boteco do Sebastião e lhe emprestam dinheiro pra ele continuar com a brincadeira. Como diz o próprio Lord Keynes, ainda na página 48: “...as expectativas passadas que ainda não se dissolveram por completo estão incorporadas no equipamento de capital atual...”. E não é questão de “espantoso cinismo” dos caras lá da diretoria não. Eles acreditam no bar do Sebastião porque estão lucrando com isso (o óbvio) e porque tem gente pagando o que deve.

A crise do mercado imobiliário nos EUA precisa ser explicada com outro exemplo, creio eu. Ok, temos uma classe média americana endividada, aí vem o Fed e reduz a taxa de juros para estimular o consumo. Mesmo sem grana no bolso, o “John” vai lá e entra no financiamento de um apartamento. As empresas de construção civil, setor elétrico, etc., olham aquilo tudo e dizem o seguinte: “Beleza, vamos lucrar mais no ano que vem. Aumenta a produção dessa joça.” Cria-se a expectativa de vantagens crescentes, quando na verdade o “John” já ta com a corda no pescoço pra pagar as mensalidades. Como o financiamento de um imóvel costuma ser demorado, é mais complicado identificar que o camarada está mal das pernas. Mas está e um dia ele vai deixar de pagar o negócio. Depois continuamos a conversa. Essa foi longa.

Posted by: humberto at March 21, 2008 05:15 PM


Sempre nois, os etilicos da V. Carrapato,

Posted by: claudio at March 21, 2008 02:44 PM


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