Filthy McNasty

goodness gracious, great balls of fire

July 12, 2005

Tonight at Noon

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Central Avenue, o coração de Watts, nos riots de 1965

Tô lendo o mais recente Walter Mosley, Little Scarlet, protagonizado por um Easy Rawlins* mais velho e mais cauteloso, no meio do quebra-quebra de 1965 em Watts, a seção black de Los Angeles. (É engraçado não ter uma palavra em brasileiro que corresponda exatamente a “riot”.) Eu estava em Los Angeles em 29 de abril de 1992, quando estourou a rebelião popular em South Central contra a absolvição dos policiais que espancaram Rodney King**. A cidade é grande, e não cheguei a me ver envolvido diretamente em confusão nenhuma. Mas nunca vou esquecer da completa cacofonia daqueles dias. Que é uma das coisas que Mosley evoca com maestria em seu livro novo –a cacofonia urbana de uma metrópole sitiada.

Mas o post não é sobre Mosley, ou sobre Little Scarlet (cês vão se entediar de ouvir elogios a ele quando eu acabar o livro, se as primeiras 150 páginas servem de amostra). Quando arruparei, ontem, eram três da manhã, eu tinha tomado uns 14 espressi e estava ouvindo The Black Saint and the Sinner Lady, do Mingus, em volume que –se eu fosse meu vizinho- justificaria chamar o policial Poncherello (reparem, aliás, no título da foto linkada) pra me cobrir de pórrada.

Mingus nasceu em Nogales, Arizona, cidade que todo mundo que viu mais de dois westerns conhece intimamente, mas cresceu em Watts nos anos de confrontos entre a puliça e as gangues de pachucos. Ao contrário do blues, o jazz é essencialmente urbano. Nos anos formativos da música, New Orleans era a terceira maior cidade e o segundo maior porto dos Estados Unidos, e depois o gênero migrou preferencialmente para as metrópoles (King Oliver e depois Satchmo para Chicago, por exemplo). Talvez a cacofonia urbana, o choque de raças e de idiomas que Mingus ouvia pela janela quando moleque, tenham influenciado a música que viria a compor. Sei lá. Mas tem pouca gente capaz de compor um soundscape urbano*** com a graça dele (provavelmente só Bernstein, Varèse e o Clash, cada qual a seu modo).

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Duke, o baterista Max Roach e Mingus (l to r)

O grande herói musical de Mingus sempre foi Duke Ellington, e depois de muito batalhar para entrar na banda de Duke como baixista, Mingus acabou durando apenas algumas semanas no posto. Reza a lenda que ele mudou o andamento de “Perdido”, composição do trombonista Juan Tizol, e que ameaçou socar o baixinho invocado quando este reclamou. Tizol, porto-riquenho e cheio de matcheza, puxou uma faca para Mingus, e foi contido pela turma do deixa disso. Mingus abandonou o palco, furioso. Voltou cinco minutos depois com um machadinho que era parte do equipamento de emergência do teatro e went medieval on Tizol. Por sorte, Mingus era gordo e lerdo, e Juan era ágil. Harry Carney interceptou Mingus com um carrinho digno de zagueiro argentino. Duke trocou de baixista. (E a história, como todas essas, provavelmente é apócrifa.)

Mingus passou anos tentando manter e renovar a tradição representada por Ellington, mas raramente teve dinheiro para bancar uma big band ou pagar grande solistas (ele é um dos raros , er, gigantes do jazz que gravou música de primeira com saxofonista de churrascaria –o melhor solo de um dos melhores discos de Mingus é trabalho de Booker Ervin, por exemplo). As peças mais brilhantes que Mingus compôs combinam cacofonia modernista e polifonia tradicional –improvisação coletiva à maneira do jazz primevo de Jelly Roll Morton- na mais delicada e barulhenta tapeçaria.

Quando cidades explodem, eu sempre ouço e penso em Mingus (the real gunslinging bird)****, no gênio, na machadinha, na cacofonia e na polifonia inextricavelmente misturadas. São quatro da manhã. Fico imaginando que o dia pode perfeitamente amanhecer fumaça, enquanto cinco metros abaixo da minha janela alguém insiste no motor de arranque de um carro que chia asmaticamente. Isso provavelmente é um clichê digno da neurolingüiça, baby, mas onde existe amor existe medo. E enquanto that rough beast, its hour come round at last, slouches towards Bethlehem to be born, eu vou não dormir pensando em você.

* O feioso Easy Rawlins dos livros virou Denzel Washington (o Tom Hanks negão) no cinema, em 1995, mas ainda assim Devil in a Blue Dress é bom, graças a Carl Franklin, emérito diretor de thrillers (e a Don Cheadle kicking butt como Mouse, gun for hire).
** Tem um
filme ruim com alma boa sobre o grande quebra-quebra de 1992, baseado em história de James Ellroy (o roteiro original era sobre o quebra-quebra de 1965, e foi atualizado pra ganhar valor tópico).
*** A versão de “A Foggy Day”, de Gershwin, que
Mingus gravou em 1956, é um exemplo perfeito do que quero dizer com urban soundscape.
**** “If Charlie Parker were a gunslinger, there'd be a whole lot of dead copycats”, explicou Mingus sobre “Gunslinging Bird”, o título de uma de suas grandes composições.

Posted by noronha at 04:11 PM



Comments

foi NA tampa mesmo e "negão" é adjetivo, ora céus.

Posted by: Marcelo Rota at July 13, 2005 04:21 PM


Óquei, Tio. Traje sumário e decote decote abissal. Mais alguma coisa? Seria sábio aproveitar esses momentos de benevolência, eles são raros...

Posted by: Gre(a)ta at July 12, 2005 11:02 PM


Eu tava pensando em churrascaria na Lennox Ave, comendador. ;-)
Só pra constar, eu gosto tanto de Ervin quanto de John Handy. Mas retórica barata é uma governante maligna.

Posted by: McNasty at July 12, 2005 06:32 PM


Com a foto da capa do "Money Jungle" -muito bom, Uncle Filthy. Mingus ruleia. Agora, Booker Ervin, saxofonista de churrascaria? Injustiça, rapaz. Se ele é isso, como você classifica o inominável Kenny G? (Buzinador de sax de churrascaria, talvez.) :) Abração.

Posted by: Ruy at July 12, 2005 05:48 PM


Coincidência ou não tá tocando Mingus na Sky FM - "Solo Dancer".
http://64.236.34.4:80/stream/1019

Eu gosto de Booker Ervin.

Posted by: Braulio at July 12, 2005 04:58 PM


Espero que seja verídico o que contam sobre o pianista que teve as mãos guilhotinadas na tampa do piano pelo destempero balofo e negão de Mingus.

Posted by: Marcelo Rota at July 12, 2005 04:51 PM


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