July 02, 2009
O Fico
“X-rays are the only see-through thing I like”
Uma moça que eu conheço arrumou briga monstro com o marido porque decidiu ir a uma festa usando um vestido que era ao mesmo tempo curtíssimo, transparente e decotado, e o marido, quando a viu com o figurino escolhido para o convescote, imediatamente exerceu a prerrogativa pétrea e disse ao povo que ficava (em casa). Para resumir uma discussão que aposto deve ter sido muuuuuito mais longa, dona Seminua alegou que “você não tem o direito de me dizer o que devo vestir, Adamastor”, e sêo Possessivo rebateu com “pode ser, Cunegundes, mas pelo menas tenho o direito de não ir”. (E no dia em que eu conseguir criar o meu muito sonhado movimento pelo Men’s Lib, uma das causas, er, seminais que eu e meus oprimidos manos defenderemos será o sagrado direito de não ir e não vir, que qualquer homem casado ou similar nacional decerto reconhecerá como imprescindível.)
Os partidos se dividiram, como seria de prever, em linhas sexuais. Eu e a maioria dos marmanjos aplaudimos (se bem que em alguns casos silenciosamente) a imperial decisão do marido; muitas moças simpatizaram de imediato com a causa da esposa. (E a sensata dama com quem divido o colchão ponderou que “bom, tudo depende do vestido”). Quando mais informações emergiram sobre a disputa, a questão voltou a esquentar. Alguém contou que o Sr. Possessivo declarou que achava injusto que 350 marmanjos que ele nunca viu mais gordos pudessem contemplar panorama que ele mesmo só vislumbrava uma vez a cada 15 dias; e também surgiu o rumor de que Ms. Seminua aduziu o bizarro argumento de que, se o marido não servisse de escolta, seria perigoso sair na rua com um vestido daqueles. Por fim, ela foi à festa e ele ficou em casa assistindo basquete (o que pode ter ou não influenciado o chilique inicial –a bem da objetividade, acrescento que, informadas quanto ao basquete, 73% das XX consultadas imediatamente exclamaram um triunfante “Ah Ha!”).
Eu nunca me apaixonei por moça que gostasse de exibir à rafaméia o acervo que me parece mais apropriado a uma galeria privativa –acho, aliás, que decoro (onde requerido) é um desses fatores inconscientes que separam as damas que me atraem daquelas que até posso olhar com agrado mas não convidaria para uma groselha vitaminada Milani. Mas ainda assim consigo facilmente me colocar no lugar de um sujeito que vai a uma festa com mulher vestida de Messalina do Funk, and it ain’t pretty, dude. E, já que é vedado proibir o escândalo ou sacar da cimitarra e degolar os convivas zôiudos e engraçadinhos, que vantagem haveria em participar de uma roubada como essa? Melhor aceitar o epíteto de machista, ranzinza ou troglodita e ficar em casa torcendo em vão contra o Kobe Bryant. O lado repulsivo da história, craro, é que os XY andam tão por baixo na hierarquia que perderam até o direito à resistência passiva – e o sujeito que não quer acompanhar a patroa ao concurso Miss Quase Topless 2009 é tratado como uma espécie de Lindomar Castilho. Melhor deixar a última palavra ao Sr. Possessivo, o qual teria supostamente declarado que “na riqueza e na pobreza, na doença e na saúde, para o bem e para mal, tudo bem. Mas ‘você nua e eu de fraque’ eu num prometi, não”.
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June 26, 2009
Breaking News
Michael Jordan, 1959-2009
Fontes que preferem permanecer anônimas acabam de informar à NoronhaNews que o entertainer Michael Moore, conhecido por sucessos pop como “Dancing Queen”, “Ebony and Ivory” e “Like a Virgin” morreu esta noite em um hospital de San Francisco, vítima de enfermidade não identificada. Doações para o Rancho da Empada Nevermore, fundação que Bolton criou para abrigar criancinhas sem pais ou responsáveis, podem ser encaminhadas ao titular da coluna. Douglas deixa viúva a atriz Catherine Zeta-Jackson e os filhos Prince, Little Richard e Justin Timberlake.
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June 20, 2009
Monstros

“You can’t create a monster, then whine when he stomps on a few buildings”
Meu amigo K. foi apanhado pela mulher em flagrante delito de assustar o filho do casal, que tem quatro anos, com história ameaçadora de monstro (à maneira das onipresentes histórias sobre o Homem do Saco que, er, traumatizaram minha infância). A pedagogia mudérna, claro, desaprova terrorismo comportamental pra cima dos fedelhos, e todo mundo parece concordar com a ideia de isolar as crianças contra aquilo que a ciência designa “o estado apavorante da matéria”. Tá. Todo mundo está provavelmente certo, mas eu acato o argumento central da defesa: as crianças precisam ter medo de alguma coisa, caceta.
Eu lembro bem da minha infância, ao contrário de muitos adultos. Medos irracionais eram parte dela, mesmo que eu não fosse o tipo de menino a quem a ameaça do Homem do Saco ou do Bicho-Papão causasse pesadelo (o modo bravata sempre foi dominante, na minha psicologia, e quando alguém falava em Bicho Papão eu logo imaginava dar umas cadeiradas na criatura e devolvê-la às trevas com o rabo entre as pernas). E ainda que despertar medos irracionais para usá-los como ferramenta de controle de chiliques da petizada seja escrotinho, medo é necessário. E talvez medo despertado assim, er, em laboratório, ajude as crianças a se acostumar com a sensação e, exatamente porque as ameaças proferidas jamais se concretizam, a desenvolver autocontrole.
Além disso, mais uma vez porque eu me lembro bem do que sentia na infância, descobrir que esses medos todos são patranhas me parece parte essencial da evolução da personalidade. Descobrir que o Bicho Papão não existe resulta em um sentimento de superioridade secreta diante da tirania dos adultos, e duvidar dessas coisas é passo importante no caminho que conduz a duvidar de outras patacoadas que os adultos virão a proferir sobre sexo, drogas, envenenamento por tatuagem e a necessidade incontornável de um deproma em Direito, medicina ou engenharia. Porque os pais, pelo menos os pais da minha geração, sabem –ou deveriam saber- que todas essas ladainhas são bem menos verdadeiras do que as obrigações da paternidade impõem sustentar, história de Bicho Papão talvez seja a maneira mais amorosa de fazer com que um filho saiba que, “ó, dude, vou mentir muito pior pra você daqui a uns 10 anos”. Useful to get that learnt.
Posted by noronha at 11:55 AM | shut up and deal (5) | TrackBack (0)
April 28, 2009
On the road to nowhere...
... but the view is nice
Entre as muitas abominações que somadas constituem a, er, civilização moderna, uma das que sempre mais me irritou foi a de fazer exercício em bicicleta que não anda, especialmente aquelas que ficam instaladas diante de telões que mostram, sei lá, paisagens alpinas. A única virtude que vejo nas marditas maquinetas é que permitem que a pessoa se exercite lendo, e suponho que bicicleta ergométrica seja um sucedâneo razoável da cousa-em-si nos dias de chuva e neve, ou se o/a pobre ciclista mora em Bagdá, Beirute ou outras metrópoles em guerra urbana permanente, tipassim São Paulo.
“Lugar de bicicleta é na rua”, eu costumo resmungar sempre que o pobre interlocutor cai na besteira de me contar que usa bicicleta estacionária, especialmente se o faz em academia de ginástica, e até a semana passada nenhum deles tinha conseguido aduzir argumentos que me convencessem do contrário. Até que uma amiga identificou virtude insuspeita dessa modalidade filistéia de exercício: se o/a usuário/a se posicionar estrategicamente nas fileiras de bicicletas imóveis de uma academia, vai estar montado/a no único veículo em que seguir o atraente pandeirão da divindade sentada ali em frente não justifica acusação de assédio sexual (e o risco de se distrair com as delícias do panorama e tomar um tombo diminui bastante quando a engenhoca num anda).
Posted by noronha at 01:00 PM | shut up and deal (0) | TrackBack (0)
April 20, 2009
Do nascimento da tragédia no espírito de porco
Ou: pensando fora da caixa sobre a sinergia proativa lateralizada
Sempre que encontro o vocábulo “proativo” em um texto que esteja lendo, eu rosno um pouquinho. E não é só pelo clichê, pelo modismo, pela imprecisão terminológica e pela falta de eufonia que o caracterizam, mas porque o bastardinho costuma vir acompanhado por uma coterie de termos igualmente repulsivos –“incentivize”, “low-hanging fruit”, “turnkey solution”, para oferecer apenas três exemplos colhidos na mesma página de um documento que deixei pendurado ali na outra tela enquanto faço uma refrescante pausa de alguns minutos para um rant segunda-feiral. (And don’t get me started sobre idiotias como “deliver benefits”, que já soam suficientemente estúpidas no idioma original e são adotadas em tradução literal e completamente cretina pelos jênhös da gestão bananil: “entregando benefícios”, cousa que já li e já ouvi usada a sério, é crime de lesa-idioma merecedor de investigação pelo paladino do Small Unwashed, o delegado Probóscide.)
Essa mania me irrita irracionalmente já há tempos, mas só hoje percebi a causa exata: em teoria, no mundo moderno as fileiras da gestão são ocupadas por the best and the brightest –os sujeitos mais bem preparados, mais competentes, mais inteligentes, mais criativos. No entanto, quase todos eles se submetem alegremente à vulgaridade e burrice infindas desse jargão. A justificativa psicológica óbvia é que adotar o jargão é uma maneira de se integrar, um atalho que as pessoas tomam no começo da carreira para facilitar o caminho profissional. No entanto, o uso do jargão persiste bem depois que deixa de ser necessário para fins de aceitação na tribo. E só me ocorrem duas explicações quanto a isso, as duas pertinentes para explicar ao menos em parte a desgraceira que se abateu sobre as economias e mercados.
A primeira e menos grave é que os best and brightest não são assim tão melhores ou tão brilhantes; o talento deles não está em gerir ou liderar, mas em descobrir como manipular as idiossincrasias de uma organização para galgar a pirâmide; um bom exemplo disso seria Chuck Prince, o ex-CEO do Citigroup, cujo nome viverá em eterna infâmia por ter declarado, em julho de 2007, que “as long as the music is playing, you've got to get up and dance. We're still dancing”. Por “still dancing” ele queria dizer “continuamos a operar com derivativos de altíssimo risco que daqui a seis meses vão dar um preju de dezenas de bilhões de dólares aos acionistas”. Prince, que certamente merece a classificação “best of breed” por seu talento no uso do jargão, nos últimos meses vem encontrando espaço em rankings do tipo “10 idiotas que não anteciparam a crise” ou “20 líderes financeiros diretamente responsáveis pelo desastre”. Ele continua a ganhar US$ 1,74 milhão por ano em pensão e honorários de consultoria pagos pelo Citigroup (o que equivale a contratar o capitão do Exxon Valdez como consultor de navegação ou Maílson da Nóbrega como analista econômico. Ops).
A segunda é ainda pior: os best and brightest são mesmo capazes e inteligentes (e sou testemunha pessoal disso pelo menos quanto a alguns deles), mas usam o jargão de maneira completamente cínica para, er, monetizar o potencial do capital humano individual . De todas as desgraças que Orwell previu para o futuro, a que mais se confirmou foi a tirania do doublethink e do newspeak, e disfarçar pensamentos e ações por meio de terminologia supostamente neutra ou benévola se tornou a maneira mais conveniente de praticar o mal, ou no mínimo de mascarar a mais completa indiferença a tudo que não o lucro ou sucesso pessoal, sob a capa da correção. É como se usar “corporate outplacing”, “making redundant”, “offboarding”, “rebalancing the level of human capital” e “smartsizing” (e, sim, empresas que mandaram multidões de funcionários embora nos últimos meses usaram –de verdade- esses termos) fosse de alguma maneira menos, er, violento do que “demitir”, ainda que, para os demitidos (muitos dos quais em empresas cujos executivos continuam recebendo bonificações apesar de demonstrações monstruosas de incompetência), o eufemismo não reduza em nada o sofrimento infligido.
O jargão corporativo é só uma modalidade porcocapitalista de correção política, e exerce sobre a economia exatamente os mesmos efeitos que a correção política exerce sobre o debate cultural e político: oculta as divergências, sufoca a discussão e permite que os assassinos continuem assassinando, desde que o façam sob o rótulo “unlawful termination of life” (ainda que eu prefira “redução terceirizada compulsória da expectativa de vida”).
Posted by noronha at 11:36 AM | shut up and deal (6) | TrackBack (0)
April 16, 2009
Cassandros
“If you keep saying things are going to be bad, you have a good chance of being a prophet”
Giampaolo Giuliani, o pesquisador italiano que teria supostamente previsto o terremoto de Aquila, conseguiu alguma milhagem na mídia faniquítica, cousa que em nada me surpreende. Sujeito que previu catástrofe e não foi ouvido é personagem essencial de qualquer relato em tom de indignação e melodrama, e os últimos meses engordaram bastante o elenco dos profetas desdenhados: por exemplo Jim Vos, da Aksia, uma consultoria que presta serviços de avaliação de risco a fundos de hedge, aconselhou sua freguesia a não investir com a empresa de Bernard Madoff meses antes do estouro; Nouriel Roubini há muito tempo vinha prevendo o colapso dos mercados, e as estimativas de prejuízo que ele propunha, sempre descartadas como absurdas ou alarmistas pelos supostos insiders, se provam mais verdadeiras a cada dia; e George Soros há alguns anos vem alertando sobre a falácia da idéia de que o mercado é autocorrigível.
Não foram só eles. Sujeitos como Simon Johnson e Kenneth Rogoff, os dois ex-economistas chefes do FMI, já vinham alertando sobre alguns aspectos da crise, e Martin Wolf, também ex-FMI e o mais erudito dos colunistas econômicos, há anos escreve sobre a necessidade de reequilibrar a economia mundial. Historicamente, não lhes falta companhia –Thorstein Veblen, que formulou o conceito de consumo conspícuo, previu (ainda que indiretamente) o Crash de 1929, e o mesmo se aplica a Roger Babson de maneira bem mais direta (em discurso feito no dia 5 de setembro de 1929, ele alertou explicitamente sobre o colapso do mercado, que viria a acontecer no dia 24 do mês seguinte, e ninguém levou a sério). O banqueiro polonês Ivan Bloch e o diplomata britânico Norman Angell, separadamente, previram a escala da destruição que a Primeira Guerra Mundial geraria com uma presciência que os generais e políticos envolvidos na carnificina nem de longe reproduziram. O demógrafo francês Emmanuel Todd profetizou em 1976 que a União Soviética, então aparentemente no auge de sua força e influência, desapareceria dentro de 15 ou 20 anos (e agora prevê decadência, ainda que menas hedionda, para os Estados Unidos).
O pobrema é que nenhum desses profetas e profecias estava, está, completamente certo. Giuliani previu um terremoto, mas em cidade diferente e uma semana antes do abalo real; Vos apontou para os problemas da empresa de Madoff mas não para a escala e iminência do colapso; Roubini gritou “é o lobo” umas 14 vezes antes de acertar; Soros propôs e retirou sua teoria que refuta a hipótese do mercado eficiente umas duas ou três vezes; Rogoff, Johnson e Wolf lançaram alertas da catigoria “parece que vai chover”, mas não exatamente previram o dilúvio; Veblen fez uma crítica ética a certas práticas do capitalismo mas não demonstrou o mecanismo pelo qual elas resultariam em colapso; Babson desde 1922 vinha fazendo discursos do tipo “o mercado vai implodir na semana que vem”. Bloch e Angell previram a escala monstruosa que a guerra tomaria e, talvez por isso, profetizaram que ela não poderia durar mais que um ano. E Todd é basicamente um sujeitinho que nasceu para ser do contra (afirmação que faço em tom do mais profundo elogio).
O ponto fraco de vaticínios da catigoria “there is a shitstorm coming” é que milhões deles são feitos a cada ano, e os deuses da estatística dispõem que alguns se confirmem (marromenos como a Mãe Dináh prevendo que uma celebridade morrerá em desastre envolvendo veículo). Se o profeta não nos informa onde e quando o cocô vai cair, e como exatamente deveríamos fugir dele, tendemos a não acreditar na calamidade iminente, até porque tem sempre gente demais augurando desgraça. Acreditar que pior é possível é sentimento dos mais humanos (e eu não usaria “pior é possível” como dístico no meu brasão se discordasse); mas é igualmente humano assobiar e fingir que não ouvimos quando ainda tem alguma moçoila catável na festa.
Posted by noronha at 05:52 PM | shut up and deal (5) | TrackBack (0)
April 14, 2009
Myself when I’m reading (IV)
“... books are seldom read with complete impartiality”
O mesmo tipo de sujeito que costuma gritar “padres pedófilos! Padres pedófilos!” sempre que a Igreja se pronuncia sobre qualquer assunto também costuma oferecer veredictos sumários como “a Bíblia” [ou “o Corão” ou “Das Kapital”] “matou mais gente que”... [“o Holocausto”, “a Peste Negra”, “a esfiha do Habib’s”]. O fato é que não, não matou. Parece-me altamente improvável que até mesmo o mais odiento e desprezível dos livros (“Mein Kampf” ou qualquer romance da Fernanda Young, por exemplo) tenha matado alguém (não arrisco afirmativa mais categórica porque uma combinação entre terremoto e Petit Robert em prateleira alta já causou concussão a um amigo na Califórnia). Livros escritos para promover a discórdia, a discriminação e a sanha homicida da súcia existem, claro, e aos montes. Mas também existem outros livros que rebatem de maneira irrefutável cada uma das bobagens que os primeiros defendem. Que muito mais gente prefira acreditar na peçonha prova que o problema não está nos livros, mas nos leitores.
Como exemplo basta o infame e mais que ligeiramente ridículo “Protocolo dos Sábios do Sião”, o equivalente antissemita do “Caminho Suave”. Todo mundo sabe que o livro foi escrito por Mathieu Golovinski, um jornalista picareta, por encomenda de Piôtr Rachcóvski, o chefe da Okhrana em Paris, na virada do século XIX para o XX. Todo mundo também sabe que o livro é uma mixórdia plagiada de “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, de Maurice Joly, e de “Biarritz”, do picareta antissemita alemão Hermann Gödsche. Philip Graves, em uma série de artigos publicados pelo “Times” de Londres em 1921, provou que o livro era não só plágio mas mau plágio, já que Joly atribuía o complô a Napoleão III, e Eugène Sue, de quem ele copiou a trama, o atribuía aos jesuítas. Mas o que realmente importa nisso tudo é que, quase 90 anos depois que o monstrengo foi exposto como fraude, ainda tem gente que acredita na trapaça e, diante de qualquer prova de que o falso é mesmo falso, atribui as provas à mesma conspiração judaico-japa-jesuíta que o livro denuncia, para começar. Ou seja, é impossível evitar a suposição de que não é o livro que, er, transforma o leitor em antissemita; desconfio que o processo funcione na direção oposta: o cara que já abriga sentimentos anti-whatever sai em busca de material que os justifique, e, com isso, de pessoas que compartilhem da mesma variedade de cretinice.
Quando eu era mais moço e ainda mais bobo, imaginava que a solução para essa modalidade de picaretagem fosse ler imparcialmente, o que permitiria que os melhores argumentos e as melhores provas vencessem; agora, confesso desconfiar que ler imparcialmente seja impossível, e que de qualquer maneira fazê-lo equivale a permitir que o esgoto das idéias pútridas compartilhe do encanamento da água potável. De certa maneira, os leitores dos “Protocolos” triunfaram –como eles, há certas idéias, argumentos, teorias ou narrativas que me recuso a considerar, que me recuso a tratar imparcialmente. Minha esperança é que o cerne ético ou moral que formei antes ou apesar da leitura seja capaz de distinguir sem muita ajuda racional aquilo que merece leitura imparcial –ainda que contrarie minhas opiniões- daquilo que merece desaparecer com a descarga. Como dizia minha tia Hilda, “mau caráter que lê a Bíblia continua mau caráter”.
