Spitfires Mk I do Esquadrão 19*, RAF, em voo sobre Cambridgeshire
Setenta anos atrás, em agosto e setembro de 1940, a Real Força Aérea britânica infligiu a primeira derrota grave às forças armadas nazistas; na Batalha da Grã Bretanha, que se estendeu de julho a novembro daquele ano, os britânicos impediram que a Luftwaffe conquistasse superioridade aérea sobre seu território, e com isso tornaram impossível qualquer tentativa de invasão alemã. Os dois lados exageraram as perdas infligidas ao adversário e minimizaram o cômputo das próprias baixas, ao longo da campanha. Mas o fato incontestável é que o número de aviões alemães abatido pelos britânicos foi sempre mais alto do que o número de aparelhos perdidos (as estimativas mais objetivas quanto ao diferencial variam de 25% a 50% em favor dos britânicos, a depender das datas de corte e dos métodos de cálculo). E ao final do período a RAF tinha mais aviões do que no começo da batalha, se bem sofresse certa escassez de pilotos experientes.
(O início da minha, er, paixão pela Segunda Guerra Mundial foi o Spitfire, quando por acaso assisti a Battle of Britain na TV; eu era novo demais para sentimentos românticos ou pensar em sacanáj, mas ainda lembro da minha sensação de deslumbramento diante da beleza do caça. Anos mais tarde, encontrei por acaso, no trabalho de um picareta cujo nome não citarei só de birra, toda uma teoria sobre a, er, libidinização de aviões, carros etc. pelos marmanjos. O cara citava o Spitfire explicitamente, aduzindo que os pilotos usavam o pronome “she” quando falavam do avião, em lugar de “it” [e porque eram um bando de pós-adolescentes com a vida em risco e sob fervura hormonal constante, provavelmente faziam piadinha do tipo “entrei nela e ela ronronou hehhehheh”]. Se é imaturo sentir um solavanco no coração quando me deparo com a beleza absoluta, Deus permita que eu continue a ter 12 anos para sempre. Libidinize that, dude.)
Os dois lados eram parelhos na qualidade dos aviões e pilotos. No campo da tática aérea, a vantagem era dos caças da Luftwaffe, que operavam em formações mais flexíveis (Werner Mölders, piloto que combateu na batalha da Grã-Bretanha comandando o JG 51, inventou o “schwarm”, a formação básica que os caças de quase todos os países passariam a usar durante a guerra). Mas os britânicos eram superiores em um quesito mais importante, que –com alguma hesitação- vou definir como software. O sistema britânico de defesa aérea abarcava não só duas cadeias de estações de radar** como toda uma rede integrada de controle, incluindo observadores, artilharia antiaérea e centrais de comando que avaliavam a ameaça aérea inimiga de maneira centralizada e atribuíam às unidades regionais do sistema o controle específico de cada batalha. O sistema britânico*** permitia que os comandantes da RAF tivessem uma visão geral sobre as operações inimigas e o status de suas forças, e que controlassem o fluxo da batalha de maneira a minimizar surpresas e concentrar recursos.
(No começo eu me interessava pelas engenhocas –aviões, tanques- e sabia de cor um quaquilhão de estatísticas. Com o tempo descobri que o fascínio por números, ou desempenho numérico, era um dos atributos dominantes das figurinhas mais desagradáveis da era [dizem que Hitler era capaz de recitar os números sobre penetração de blindagem de todos os canhões antitanques alemães; e isso não impediu que ele tomasse uma longa, longa série de decisões ridiculamente idiotas ao longo da guerra]. Vencer um conflito como aquele requeria não apenas uma diferença de quantidade ou qualidade estatística de equipamentos, mas uma diferença de qualidade moral; e não o afirmo no sentido de que os bons sempre hão de vencer, mas no sentido de que uma sociedade aberta –given time- sempre encontrará soluções melhores para seus problemas do que uma ditadura, se bem as ocasionais demoras e barganhas possam irritar os sujeitos que preferem objetividade a abrangência.)
Hurricane Mk I e aviadores poloneses do esquadrão 303
Nos anos 20 e 30, a teoria estratégica dominante sobre as guerras do futuro pode ser resumida citando o líder político e primeiro-ministro britânico Stanley Baldwin: “The bomber will always get through”. Neville Chamberlain, o futuro appeaser, que substituiu Baldwin na chefia do governo em 1937, discordava de que “the only defence is offence, which means that you have to kill more women and children more quickly than the enemy if you want to save yourself”; porque a ideia lhe parecia repulsiva, pediu a Sir Thomas Inskip, a quem encarregou de revisar a política britânica de defesa, que procurasse maneiras de bancar um sistema de defesa contra ataques aéreos (um dos motivos, já que moral não é tudo, era o fato de que caças custavam menos do que bombardeiros). É gratificante, e talvez um pouquinho irônico, que a decisão responsável pela primeira grande derrota do regime mais imoral de todos os tempos tenha tido nascido essencialmente da decência; e é igualmente admirável que a decisão de continuar na guerra apesar da derrota de todos os aliados e das ofertas de paz dos nazistas tenha surgido de uma combinação de certeza moral e rejeição emocional: Churchill sabia com uma certeza superior a qualquer lógica que não havia acomodação possível com os nazistas, e convenceu o país a segui-lo, ainda que àquela altura os piores excessos da Alemanha ainda estivessem no futuro e que muitos sujeitos supostamente sensatos e racionais considerassem que a paz fosse preferível.
(Nos anos 30, democracia ao modo tradicional do Ocidente não era a mais prestigiada das formas de governo. Comunismo e nazifascismo pareciam muito mais fortes, vivos, e só velhinhos de cartola continuavam a acreditar nas virtudes tradicionais. Mas, nos meses sombrios da segunda metade de 1940, foi um daqueles velhinhos de cartola que salvou o mundo, ou ao menos o convenceu de que salvação era possível. Passados 70 anos, em um cenário no qual a democracia tradicional parece vitoriosa, é fácil esquecer que ela um dia já foi considerada obsoleta pelos bem pensantes. [E persiste a tentação de jogar no lixo aquilo que funciona apesar dos percalços –vide a celebração infantoinfantil pela suposta “morte do capitalismo”, nos últimos anos.] Sou um dos sujeitos que se abespinham com o uso um tanto calhorda e sempre irritante do termo “freedom” para justificar restrições à liberdade ou aventureirismo bélico –cousa que acontecia com frequência dos anos 50 aos 80 e voltou a acontecer de 2000 em diante. Mas se o período 1929-1945 nos ensinou alguma coisa, foi que one should never take freedom for granted.)
Bf-109 abatido e sob vigilância de soldado britânico, 08/1940
A guerra traria batalhas maiores e de resultados mais decisivos; e seria lícito argumentar que o resultado final não foi exatamente um triunfo da liberdade (já que metade da Europa ficou sob o jugo de uma ditadura tão insalubre quanto o nazismo). Mas se a RAF tivesse sido derrotada, ou se Churchill tivesse renunciado e seu sucessor optasse por uma paz negociada, o mundo inteiro sairia perdedor. (Basta comparar a França de Pétain à França de De Gaulle para perceber a diferença.) Por mais que os revisionistas malas insistam em, er, desmitificar a Batalha da Grã-Bretanha, ela não foi pouco mais que um empate técnico, e deve ser lembrada como vitória, e vitória incontestável, de cujos frutos todos continuamos a desfrutar nos “broad, sunlit uplands****” do futuro.
(E para mim, 35 anos depois que comecei a me interessar pelo assunto, o som da liberdade será sempre o de um motor Rolls-Royce Merlin, e a voz da liberdade será sempre a dele*****.)
* Escolhi o esquadrão 19 porque foi o primeiro a usar o Spitfire; a foto mostra parte do esquadrão em voo depois do começo da guerra (por conta das insígnias padrão B) mas antes de novembro de 1939 (quando o código do esquadrão mudou de WZ para QV.) Fotos autênticas (e bunitignas) do período não são tão fáceis de achar.
** A invenção do radar costuma ser atribuída a Sir Robert Watson-Watt, e a vantagem britânica na campanha aérea de 1940 é muitas vezes associada a isso; mas os alemães tinham sistemas de radar experimentais em operação em 1935, um ano antes do primeiro protótipo de Watson-Watt; e seus aparelhos estavam em uso na defesa dos portos do Mar do Norte desde o início da guerra, em 1939; o que lhes faltava era a organização abrangente dos britânicos.
*** O chamado “Dowding System” –Sir Hugh Dowding liderou o Comando de Caças da RAF de sua criação, em 1936, até o final da Batalha da Grã-Bretanha, e é o principal responsável pelo desenvolvimento do sistema- continua a servir de base conceitual para as redes de defesa aérea contemporâneas.
**** “Aquela que o general Weygand chamou de Batalha da França está encerrada. Minha expectativa é de que a Batalha da Grã-Bretanha esteja para começar. Desta batalha dependerá a sobrevivência da civilização cristã. Dela dependerá nossa vida britânica, e a longa continuidade de nossas instituições e de nosso império. Toda a fúria e poderio do inimigo devem em breve se voltar contra nós. Hitler sabe que terá de fazer com que esta ilha se dobre, ou perderá a guerra. Caso sejamos capazes de resistir a ele, toda a Europa poderá ser libertada e a vida do mundo poderá avançar para amplos e ensolarados planaltos. Mas caso fracassemos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo aquilo que conhecemos e apreciamos, afundará ao abismo de uma nova Era das Trevas, tornada ainda mais sinistra, e talvez mais duradoura, pelas luzes da ciência pervertida. Que estejamos preparados para nossos deveres, e nos comportemos de tal forma que, caso o Império Britânico e sua Commonwealth venham a durar mil anos, os homens ainda assim continuem a dizer, ‘aquele foi seu mais belo momento’”: taí um discurso que não consigo traduzir bem; caso a gentil leitora, o amável leitor, tenham versão melhor, favor encaminhar que eu substituo.
***** Historiadores revisionistas, liderados as usual pelo nauseabundo nazistão David Irving, tentam há anos propagar o boato de que na verdade quem leu o discurso no rádio foi o ator Norman Shelley, e não Churchill; a patranha fica esclarecida aqui. The facts: o discurso original de Churchill no Parlamento, em 4 de junho de 1940, não foi gravado; e ele tampouco o gravou para o rádio, naquele dia. A versão que uso aqui foi gravada por ele depois da guerra, para a BBC.










