May 10, 2008
Marcha com Deusdéti pela Maconha e pela Liberdade
Gandhi passeando em sua plantação de maconha, 1931
O pessoal do fumacê queria marchar pela legalização da maconha, e foram impedidos porque, à luz das cretiníssimas leis brasileiras, isso é considerado apologia ao crime. O FDR tratou magistralmente do assunto em um post oportuno, que terminou causando controvérsia com um sujeito cujas idéias em geral me agradam mas, nesse caso, falou bobáj. (Confiram lá, se quiserem, que o meu assunto aqui é um pouco diferente).
O que despertou minha curiosidade é que ainda exista uma lei para cercear a, er, apologia ao crime. Eu não sei exatamente de quando data essa idéia magnífica, mas é evidente que seu propósito é menos reprimir o crime do que restringir a liberdade de expressão, já que a lei proíbe qualquer manifestação publica pela legalização de alguma atividade que seja circunstancialmente considerada crime. Interpretada literalmente, uma lei dessas significaria que o sujeito que diz que tal coisa não deveria ser crime pode ele mesmo ser considerado criminoso, ainda que ele não pratique –ou tenha sido apanhado praticando- a tal coisa. Quer dizer, a lei essencialmente cerceia o direito de o cidadão dizer o que pensa.
Óia, tem um monte de coisa que já foi crime e deixou de ser –basta ler a sagaz definição de sodomia tal qual aplicada sob as leis do Estado da Geórgia até 1998, ou a lei do sal imposta pelos britânicos que gerou a famosa marcha ao mar de Mohandas Gandhi, em 1930. Se as pessoas não tivessem o direito de protestar publicamente contra dispositivos como esses, o mundo seria ainda mais escrotinho. Para mencionar um exemplo hipotético, sonegar imposto é crime, right? Mas suponhamos que os brazucas um dia enfim percam a paciência com os impostos abusivos que pagam em troca de serviço público nójento e resolvam organizar um movimento que incentive os mano a não declararem ou pagarem imposto. Os proponentes de um movimento como esse estariam cometendo apologia ao crime da mesma maneira que o pessoal do fumacê. Defender as leis que cerceiam a tal apologia ao crime é defender a mordaça.
Estou ciente dos contra-argumentos –por exemplo, o de que essas leis só valeriam se impostas por um Estado de direito e democrático (o que invalidaria o exemplo Gandhi que citei acima). Mas o processo de formação das leis em um Estado democrático não é uniforme. As leis que tornavam o homossexualismo crime e vigoraram por muito tempo em Estados democráticos são um bom exemplo. Ou, no caso de países que viveram regimes de exceção, a restauração da democracia não quer dizer que absolutamente todas as leis impostas sob regime autoritário sejam jogadas no lixo. (O Código Penal brasileiro, que prevê essa esdrúxula figura de “apologia ao crime” em seu artigo 287, é datado de 07/12/1940, ou seja, em pleno Estado Novo, e leva a grife do ditador e assassino Getúlio Vargas.)
Porque todo mundo associa a palavra “maconheiro” a sujeitos que desgostam de banho na mesma medida em que gostam de Raúl Seixas, defender o direito deles à livre expressão de seu amor ao cânhamo (ou até à desobediência civil) nunca vai parecer tão bacaninha quanto defender um movimento de contribuintes contra o governo, colonizados contra o império, etnias discriminadas contra os opressores, mas os princípios que estão em jogo em todos esses casos se assemelham: essencialmente, o direito de discordar das leis vigentes e de batalhar por mudá-las. Fact is, defender as leis que proíbem a tal apologia ao crime é como defender o xerife de Nottingham quando ele proíbe que os aldeões de Sherwood aplaudam Robin Hood: não só errado como um tantinho ridículo.
Posted by noronha at 01:50 PM | shut up and deal (6) | TrackBack (0)
April 30, 2008
We're not gonna take it
Atriz japonesa se preparando para cena de sexo PG-13
Nos felizes anos em que Uncle Filthy trabalhou como acólito de Satanás numa agência de publicidade, evidentemente princípios não eram preocupação essencial (minha campanha predileta sempre foi a de uma bebida para bebês feita de napalm). Mas mesmo assim saí derrotado de algumas batalhas cuja lembrança ainda incomoda. A principal delas foi a grande Guerra da Refrescância. O freguês, em um acesso de cretinice que só quem já trabalhou com zécutivo de marketing conseguirá imaginar, decidiu que a nova campanha de um creme dental incluiria a hedionda palavra “refrescância”. Ousadamente, decidi oferecer um neologismo: “Ô, seu criente, e se a gente inventasse uma palavra menas feia que poderia significar a mesma coisa que refrescância? Tipassim, frescor?” O cliente fez cara de nojinho e, apesar dos meus 25 protestos, o neologismo “frescor” foi rejeitado em nome da elegante “refrescância” –e assim nasceu um monstro. (Tenho certeza de que o motivo para a rejeição de “frescor”, que o cliente não podia revelar para não ferir a correção política, era que “frescor” obviamente deve ser coisa de fresco. E, se bem refrescância seja coisa de mongo, no confronto entre fresco e mongo, mongo sempre vence.)
Tem também o caso do nojento termo “inicialização”, infligido aos pobres usuários brasilófonos por obra daquela outra entidade satânica, a Microsoft. Algum idiota no mundo da informática decidiu que o verbo “initiate” só se aplicava em inglês no sentido de “informar(-se), instruir(-se) nos segredos de uma técnica ou de uma arte”, ainda que tecnicamente initiate seja sinônimo pleno de “begin” ou “start”. Aí, algum outro idiota microsoftiano decidiu que o português devia sofrer a mesma tortura, e tascou o “inicializar” no ruíndows. Por força do uso, o termo acabou até incluído no dicionário, embora seu Houaiss o defina como forma “n. pref. de iniciar”. No matter: Satanás venceu travêiz.
Levei outra goleada em mais um dos meus ramos de atuação quando uma sagaz agência de notícias para a qual eu trabalhava ocasionalmente decidiu que o termo “sniper”, então em uso por conta daquele sujeito que tinha matado sei lá quantas pessoas em Washington, devia ser traduzido por “franco-atirador”. Uncle Filthy obtemperou: “Mas, dona editora, franco-atirador não quer dizer isso; franc-tireur era, na origem, um civil que combatia voluntariamente para defender o país de invasão, na era da Revolução Francesa e na guerra franco-prussiana”. E sugeri que “atirador de tocaia”, “atirador de precisão” ou, wow, só “atirador”, mesmo, seriam traduções bem miló para “sniper”. Que nada. Ficou “franco-atirador” (e ainda tive de ouvir que “atirador de tocaia” era “coisa de nordestino”). Só adispois me toquei que a fonte da brilhante tradução era aquele filme ruinzinho que em inglês se chama “The Deer Hunter” e em português virou “O Franco-Atirador”. Ou seja, uma empresa que fornece texto a um zilhão de veículos jornalísticos preferiu ignorar o que diz o dicionário e basear sua tradução no trabalho dos mesmos jênhös que transformaram “After Hours” em “Depois de Horas”.
E tem também a questão das cenas de sexo em que o homem pode aparecer sem camisa, mas de calça, e a mulher pode aparecer sem calça, mas de sutiã, pra satisfazer os requisitos da censura. “Mas, gente, quem etc. 75% vestido o tempo todo, for cryin’ out loud? Se é pra colocar cena de sexo assim, melhor não colocar nenhuma*”. Tsc-tsc generalizado: “O pobrema, jovem Fudílson, é que mudança de catigoria de censura pode custar 17% da audiência, e cenas de sexo atraem o público-alvo”. Então tá. Vai ver que eu é que sou idiota. (Esse post sobre irritação tanto explica quanto anuncia minhas férias, como sempre imerecidas. Volto daqui a algumas semanas. Behave.)
* E de qualquer jeito seria melhor colocar nenhuma, anyway.
Posted by noronha at 11:18 AM | shut up and deal (8) | TrackBack (0)
April 29, 2008
É Nóis
Poste ou apóstolo, leia os blogs do Apostos.
Posted by noronha at 11:59 PM | shut up and deal (0) | TrackBack (0)
An Outcast by Nature
“Learning hath gained most by those books by which the printers have lost”.
Um jovem amigo e bom escritor anda encalacrado com o dilema tradicional da catigoria: a dificuldade de publicar o primeiro livro. Eu li o texto e, ao menos para o meu gosto, acho que resultaria em um bom livro, embora eu não faça idéia das perspectivas comerciais que o trabalho poderia ter. Se tivesse de arriscar um palpite, though, diria que não é o tipo de livro que se transforma em best seller. O amigo marromenos concorda, e diz que estava preocupado em escrever um bom livro, e não em escrever um best seller. E aí a gente esbarra na dicotomia básica do livro qua arte (ou pelo menos qua labour of love) vs. o livro como produto (ou artefato comercial): ninguém escreve um best seller. O autor escreve um livro; os leitores criam o best seller. E as duas coisas pouco têm em comum.
Minha impressão é que todo escritor gostaria de ser autor de um best seller –mesmo que o cara não precise do dinheiro ou não ligue para ele, quanto mais gente estiver lendo o texto, melhor. A atenção e o afeto dos leitores pelas palavras do escritor são o payoff emocional que ele recebe pelo esforço. (Nojentinho que diz que escreve para ninguém deveria guardar o texto na gaveta e desfrutar das virtuosas recompensas que cabem aos amigos das árvores.) Mas acho que nem mesmo o mais formulaico desses fabricantes de best sellers em linha de montagem –digamos, John Grisham- pode garantir com 100% de certeza que não vá produzir um Edsel, dia desses.
O amigo está moderadamente furioso com as editoras, que realmente publicam coisa bem pior que o livro dele, e com o fato de que uma recomendação vinda de um figurão literário ou celebridade qualquer possa valer mais que a qualidade do texto. O amigo não vai gostar de ouvir isso, mas esse sistema de compadrio das editoras tem lá sua razão (comercial) de ser; não é pura panelinha. Se o livro é um tremendo investimento emocional e de tempo para o autor, para a editora ele é um considerável investimento de grana –especialmente as editoras de menor porte, as mais propensas a abrir espaço a autores inéditos. Por isso, uma recomendação serve, digamos, como escadinha comercial; um autor que chega indicado tem mais chance de ser criticado positivamente, resenhado ou percebido e, porque raras editoras têm verba para divulgar livro de estreante, esse fator influencia as decisões editoriais. Não é o mais justo dos sistemas. Mas sua existência tem algum motivo concreto.
Escritores, especialmente os novatos, tendem a torcer o nariz para questões de mercado; faz sentido, porque a única coisa que propicia retorno financeiro inferior ao oferecido pelo tempo dedicado a escrever um livro é passar dois anos trancado no quarto fumando maconha e ouvindo Led Zeppellin. (Pô, Filtê, seja menas autobiográfico, for cryin’ out loud.) Isso leva muitos autores inéditos a tentar forçar entrada no mercado com trabalhos que não funcionam comercialmente. Se o mano insiste em publicar contos ou poesia, ou escrever em gêneros que não tenham muita procura, estará reduzindo ainda mais as chances já escassas de publicação. Um bom contista provavelmente vai se indignar diante da miopia das editoras que rejeitam seu trabalho com o chavão “short stories don’t sell”. Mas o chavão tem alguma razão de ser, se a gente levar em conta o comportamento dos leitores. Digamos que 5% dos livros de ficção lançados no mercado sejam livros de contos; eu, como leitor, não dedico 5% das minhas compras de ficção a contos; mais, os livros de contos que termino comprando costumam ser obras de escritores cujo trabalho conheci inicialmente por meio de romances. Se o autor me é desconhecido, eu hesito muito menos em comprar um romance do que um livro de contos. Não há motivo racional para o meu comportamento. É gosto, puro e simples –e suponho que muita gente compartilhe dessa idiossincrasia. As editoras sabem disso, estatisticamente –ou seja, seus motivos para recusar determinados gêneros ou formas não são necessariamente calhordas.
Nada do que escrevi serve de consolo a alguém que tenha escrito um bom livro e não consiga publicar. Suponho que restem duas escolhas ao lunático que realmente deseje ser escritor. A primeira é encontrar uma maneira de se adaptar mais ao mercado, trabalhando em formatos mais palatáveis, encontrando um agente ou descobrindo maneiras alternativas de divulgar o trabalho (me disseram que agora existe um tléco chamado Internéte niquiq o mano pode escrever e publicar qualquer bobagem). Ou ele pode se consolar com as palavras do reverendo Fuller que citei lá em cima, “os livros que mais ganhos propiciaram ao saber foram aqueles que mais perdas causaram aos editores”. Melhor não usar a citação como epígrafe, though.
Posted by noronha at 11:44 AM | shut up and deal (1) | TrackBack (0)
April 28, 2008
Jaw-Jaw
“Dialogue is a necessary evil”
Outro dia assisti a uns pedaços da mais recente versão cinematográfica do “Being Earnest” e, ainda que houvesse cenas realmente engraçadas (especialmente as que envolviam Ms. Dench), voltei a sentir o incômodo que muitas vezes me assalta quando leio Wilde, ou mesmo quando vejo o texto dele falado, o que faz diferença, suponho, se o assunto da pendenga é o trabalho de um dramasturbo. (Eu até imagino a impaciente leitora, o relutante leitor, rosnando baixinho e pensando, “ai, lá vai o Fudílson falar mal de um cara que escreve 532 vêiz melhor que ele.) Lá vou, indeed, mesmo que concorde com o selo Certified Genius 1.9 que vem grudado nas capas de livros do dândi de Dublin.
Eu nunca tinha conseguido identificar o que me incomoda nos diálogos engraçadíssimos de Wilde, mas dessa vez percebi: eles funcionam não como uma conversa entre duas pessoas, mas como uma espécie de partida de tênis entre dois livros de citações humorísticas. A impressão que me fica é a de que Wilde concebia aquelas falas perfeitas e depois mais ou menos encaixava personagens em torno delas. Um dos indicadores disso é o fato de que todo mundo fala igual, nas peças dele –a mesma concisão cortante, as mesmas peculiaridades de expressão. Por mais que os aristocratas e a alta burguesia da era vitoriana vivessem em circuito fechado, essa homogeneidade do wit me incomoda um pouco. (Wodehouse, pr’exemplo, que escreve diálogos tão engraçados e reconhecíveis quanto os de Wilde, se preocupa mais em atribuir às diferentes catigorias de personagens características de fala mais distintas –que podem ser caricatas, granted, mas pelo menos representam mais de um modelo de caricatura).
O parágrafo acima já me define como torcedor do esquadrão, er, realista, no campo do diálogo: falas que pareçam se ajustar “naturalmente” a cada personagem e suas origens, situação, idiossincrasias. Mas qualquer pessoa que já tenha tentado escrever diálogos, ou preste atenção a eles, sabe que diálogo em filme, teatro ou livro tem pouco em comum com uma conversa de verdade. Em um filme, diálogos servem a funções estruturais e narrativas (além de precisarem ser bons como diálogo propriamente dito); conversas são mais fluidas, mais dispersas, e talvez mais divertidas porque desembestam mais em direções inesperadas. É difícil capturar isso em um filme, e talvez ainda mais difícil em livro, a começar pela questão das convenções de notação. Sem me arrogar status de literato, mas pra citar um exemplo que conheço, sujeito que prefere escrever diálogo dentro do parágrafo, como eu, ocasionalmente enfrenta dificuldades nas cenas pingue-pongue. Por outro lado, diálogo ao modo da convenção tradicional (travessão e pula linha) dispersa a unidade dos parágrafos. Ainda que eu escreva já faz pelo menas umas duas semanas, ainda não descobri qual é a melhor solução para isso. (E muitos escritores parecem enfrentar o mesmo pobrema.)
Gente que ganha a vida mercadejando narrativas costuma dizer que diálogos são a parte mais difícil do negócio. Eu concordo –se é possível encontrar defeito até em diálogo de Oscar Wilde, a tarefa certamente parece intransponível para os sujeitos muito menos talentosos que continuam a enfrentar o mesmo desafio. Mas descobrir o que sempre senti como errado nos diálogos dele pelo menos me ajudou a definir as (minhas) normas do diálogo ideal: o treco tem que parecer uma espécie de versão paralela, depurada, de uma conversa real, o que inclui certa dose de dispersão, respeito às idiossincracias, apego às peculiaridades de cada uma das falas envolvidas –mas de preferência sem recorrer a recursos odiosos como os bordões; o treco também tem de atender às necessidades narrativas –estabelecer o que precisa ser estabelecido, revelar o que precisa ser revelado, suscitar as inferências requeridas, esconder o que só deve ser contado mais tarde; o treco precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre particularismo e universalidade, entre época e eterno-presente; e, acima de tudo, o treco precisa ser engraçado. Não é à toa que bons diálogos sejam raros. (Pra não dizer que num elogiei ninguém, leiam a cena 1 de “Reservoir Dogs”: apesar do excesso de “fucks”, atende a todos os requisitos que listei aí em cima, e continua a ser a única coisa genial que Tarantino fez na vida.)
Posted by noronha at 11:05 AM | shut up and deal (5) | TrackBack (0)
April 25, 2008
Feeling Jabored
“A rich man is nothing but a poor man with money”
Eu não tenho muita opinião sobre o caso da menina assassinada (e isso quer dizer que, se o Daniel Dantas ou outro desses empresários maquiavélicos que compram blogs quiser fazer uma oferta, tô disposto a defender qualquer opinião sobre o assunto por aqui –tipo, “a menina era a versão brasileira do Damian”; ou “quem matou foi a ministra Dilma”. Ofertas pela caixa postal serão bem-vindas, e o clã Noronha [quite literally] penhorado agradece).
Em linhas gerais, concordo com o que a percuciente confreira Nariz Gelado tem a dizer sobre o tema: como é que alguém em seu juízo perfeito pode se espantar com a indignação das pessoas diante de um crime como esse? Mas ainda que concorde com ela, não concordo nem um pouco com um vídeo do Arnaldo Jabor que ela recomendou por lá –e nem é porque Jabor, pro meu gosto, seja o mais acabado exemplo de intelecoboçal brasileiro (e é).
Eu antipatizo com o Jabor, admito (se os malas da geração dele fossem submetidos a uma gag order perpétua, sei que eu não reagiria com a minha habitual defesa instintiva da liberdade de expressão). Isso não significa que eu sempre discorde das opiniões de Jabor, ou que me oponha automaticamente a qualquer coisa que ele diga simplesmente porque foi ele que disse. Mas bastam alguns segundos de vídeo para que o lídimo cineasta dispare: “E não há miséria nem ignorância nesse crime. Essa família é rica”. Pronto. Temos aí um jaborismo.
Tem pelo menas três coisas que me aporrinham nesse jaborismo. A primeira é a odiosa mania dos telequituau/artista brasileiro de falar mal dos “brasileiros ricos”, como se eles mesmos não fossem brasileiros ricos (no caso de Jabor com certeza mais rico do que a família cuja suposta riqueza ele estava implicitamente criticando), e como se tivessem um dia feito qualquer coisa de prático pra tornar menos pobres os outros brasileiros, cuja falta de riqueza os isenta de acusações. Mas não: os jabores fingem que não são ricos e posam de bonzinhos, convenientemente escamoteando o fato de que, tipassim, a grana que a Embrafilme usava pra financiar os filmes do Jabor poderia e deveria ter sido investida em qualquer coisa que deixasse a pobraiada brasileira nem que uns merréis menos pobre.
A segunda coisa que me incomoda em “não há ignorância e miséria nesse crime” é o pressuposto de que ignorância e miséria tornariam mais perdoáveis crimes como jogar criança de prédio ou incendiar a nonnigna nonagenária em sua cadeira de rodas. O sêo Aristóteles mesmo parece concordar –“a pobreza é a mãe da revolução e do crime”-, mas há crimes e crimes. É admissível, e até louvável, que miséria seja alegada como atenuante quando um sujeito é apanhado afanando comida porque a família passa fome, mas é completamente ridículo alegar riqueza e grau de educação como agravantes em casos hediondos. O casal que matou a menina –se é que o casal matou a menina- mereceria ser tratado com o mesmo rigor se tivesse primeiro grau incompleto ou Ph.D. em Oxford; de outra forma, a gente estaria simplesmente invertendo aquela ridícula lei brasileira que garante regime de prisão especial com base no grau de educação do criminoso, e não com base na gravidade do crime.
Por fim, a porção mais repugnante do jaborismo du jour: a pressuposição de que pobre seja intrinsecamente mais bruto, e menos capaz de se ater às normas morais que todos os homens de bem deveriam seguir. Quando um suposto humanista e (social-)democrata como Jabor dá a entender que a “riqueza” da família torna o que eles fizeram ainda mais inaceitável, ele na verdade está dizendo que o mesmo crime seria mais aceitável se cometido por pobres –porque os pobres são menos iguais, claro, e menos capazes de exibir discernimento moral ou de evitar o recurso à brutalidade. Em suma, o suposto ataque de Jabor aos ricos é, na verdade, um tremendo insulto aos 99,99999% de pobres que não agridem e assassinam, e nunca jogaram por janela alguma os filhos deles ou os filhos dos outros. Os pobres brasileiros continuam pobres em larga medida porque os sujeitos que os defendem são todos parecidos com Arnaldo Jabor: adoram enfatizar a perfídia dos ricos e as virtudes dos pobres, mas mal conseguem ocultar a opinião de que jogar criança pela janela é coisa de pobre.
Posted by noronha at 10:45 AM | shut up and deal (11) | TrackBack (0)
April 24, 2008
NoronhaCorp Proudly Presents:
(Esse adesivo é da Horus!)
